'A revolução da longevidade já começou — e o Brasil não está preparado', diz Alexandre Kalache
O Brasil envelhece em ritmo acelerado. Entre 2012 e 2025, a parcela da população com menos de 30 anos caiu de 49,9% para 41,4%, enquanto o número de idosos avançou de 11,3% para 16,6%. Isso significa uma redução de mais de 10 milhões de jovens no período.
Os dados são da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, e reforçam uma transformação demográfica que deve se intensificar nos próximos anos. Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), até 2031, o país deve ter mais pessoas mais velhas e não crianças pela primeira vez em sua história.
“Estamos vivendo uma revolução da longevidade, tema que moldará o século XXI”, disse Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil (ILC-Brasil), durante uma apresentação no ESG Summit, evento promovido pela Exame e realizado nesta quinta-feira, 28, em São Paulo. De acordo com ele, o processo exigirá mudanças profundas na saúde, na educação, nas cidades, no mercado de trabalho e nas relações sociais.
O especialista lembrou que, em 1945, a expectativa de vida por aqui era de 46 anos. Hoje, o indicador já supera os 77 anos. “A maior conquista civilizatória que tivemos no século passado foi poder envelhecer”, afirmou.
A barreira da desigualdade
A velocidade dessa transformação, no entanto, traz desafios adicionais ao Brasil. Diferentemente de nações desenvolvidas, que acumularam riqueza antes de passar pela transição demográfica, o país envelhece em meio a desigualdades históricas e limitações estruturais.
“A saúde é criada no contexto do dia a dia. Está diretamente relacionada à forma como as pessoas se alimentam, trabalham, vivem, se locomovem e acessam os serviços e espaços urbanos”, explicou. Na visão do médico gerontólogo, preparar o país para esse cenário passa por tornar as escolhas saudáveis mais viáveis à sociedade. Kalache citou a alimentação como exemplo: em um contexto de restrição de renda, não basta recomendar hábitos saudáveis se os alimentos mais adequados não forem também os mais baratos e acessíveis.
O mesmo vale para a atividade física e para a mobilidade. Em grandes cidades, trabalhadores enfrentam longos deslocamentos em transporte público e chegam ao trabalho já exaustos, o que limita a adoção de uma rotina mais saudável.
Também destacou que cidades preparadas para o envelhecimento beneficiam todos os cidadãos. Melhorias na infraestrutura de mobilidade, por exemplo, facilitam a rotina de pessoas idosas, mas também de gestantes, pessoas com deficiência e jovens que enfrentam deslocamentos diários.
Cultura, formação e respeito
A discussão abordou, ainda, a construção de uma cultura do cuidado. “O tema ganha ainda mais relevância em um país marcado por desigualdades de gênero”, ressaltou. De acordo com Kalache, será necessário repensar a maneira como o cuidado é distribuído e valorizado nas relações sociais.
Por outro lado, chamou atenção para a expansão acelerada das escolas de medicina. Atualmente, o Brasil possui 494 instituições, ficando atrás apenas da Índia — país quase sete vezes mais populoso. Estar entre os líderes em número de cursos, porém, não significa oferecer uma graduação de qualidade.
Ele criticou o ensino oferecido por parte das instituições e alertou para a falta de preparo dos futuros profissionais para lidar com uma população cada vez mais velha. Em uma avaliação do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, cerca de 30% das faculdades não ensinam o suficiente.
O problema, segundo ele, não será resolvido apenas com a formação de mais geriatras. O essencial é que todos os estudantes de medicina e profissionais da saúde aprendam mais sobre o tema.
“Tudo muda à medida que a idade avança”, disse, ao citar alterações em anatomia, fisiologia, fisiopatologia, farmacologia, dosagem de medicamentos e interação entre eles.
Na visão de Kalache, o debate sobre envelhecimento precisa partir de uma mudança de olhar: a longevidade deve ser vista como uma conquista coletiva, e não como um problema. “Se estamos falando de sustentabilidade, o maior recurso natural não é energia, reciclagem de alumínio ou painéis solares. É gente — gente velha.”
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