A roupa nova da governança corporativa

Por Ricardo Niemeyer Hatschbach 13 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A roupa nova da governança corporativa

No clássico de Hans Christian Andersen, “A Roupa Nova do Imperador”, dois tecelões prometem ao Imperador uma roupa feita de um fio tão especial que seria invisível para qualquer um que fosse tolo ou inapto para o cargo. O desfecho é uma lição de psicologia das massas: por medo de parecerem incompetentes, ministros e súditos aplaudiram o vazio, até que a voz de uma criança revelou a óbvia nudez do monarca.

Transportando a fábula para as diversas “Faria Lima” do Brasil, o "fio invisível" de Andersen assumiu a forma de alavancagem agressiva, expansões desenfreadas, tanto orgânicas quanto via M&A, e um otimismo corporativo que ignorou as leis básicas da gravidade econômica. Enquanto os juros estavam baixos, a "roupa" parecia magnífica. Agora que a maré baixou  e os juros insistem em não cair na velocidade desejada, o que vemos é um desfile de nudez estratégica em praça pública.

A bonança como anestesia do conselho

Casos recentes de empresas que entraram ou estão recorrendo a instrumentos legais – como  recuperação extrajudicial ou judicial – para reestruturas dívidas de alto valor ou que agora correm para "desatravancar" o balanço via emissões   adicionais de ações e/ou venda de ativos revelam um padrão. Na bonança, o c-level e conselhos de administração costumam formar um bloco monolítico de celebração. É a era dos tecelões: todos concordam que o crescimento é sustentável, que a sinergia virá e que a dívida é "saudável".

O problema é que  externalidade como os juros e a carga tributária elevados no Brasil atuam em duas frentes: eles são o catalisador que asfixia o fluxo de caixa e, simultaneamente, o holofote impiedoso que revela as fragilidades ocultas por trás de planos de negócio imprudentes. Como diz Warren Buffett, "é só quando a maré baixa que você descobre quem estava nadando nu". O que assistimos hoje é o fim da camaradagem: quando o fluxo de caixa aperta, o management acusa o conselho de falta de visão, e o conselho acusa o management de má gestão. A "roupa nova" era, na verdade, um pacto de silêncio.

Algoritmos, Echo Chambers e a ilusão do consenso

A digitalização e as mídias sociais exacerbaram o fenômeno das Echo Chambers (bolhas de eco) dentro dos boards. Executivos e conselheiros, cercados por KPIs que confirmam seus próprios vieses e alimentados por uma cultura de LinkedIn onde o fracasso é interditado, perdem a capacidade de ouvir o dissenso.

Neste cenário, a proposta de Kim Scott sobre o Radical Candor (Candura Radical) deixa de ser um conceito de RH para se tornar uma ferramenta de sobrevivência financeira. Scott argumenta que o desafio de um líder é "desafiar diretamente" enquanto se "importa pessoalmente". Sem o desafio direto, caímos na "empatia ruinosa" ou, pior, na "insinceridade manipuladora" — exatamente o que impediu os ministros do Imperador de dizerem a verdade.

O custo do silêncio e a "voz da criança"

Para evitar que nossas organizações desfilem nuas pelo mercado, precisamos institucionalizar a "voz da criança". Aquela que não está comprometida com o bônus de curto prazo ou com a manutenção do status quo no board.

Conclusão: o luxo da verdade

O cenário atual de reestruturações e vendas de ativos é um doloroso lembrete de que o silêncio corporativo tem juros compostos. No mercado atual, o maior luxo de um executivo não é o seu prestígio ou o tamanho do seu M&A, mas ter ao seu redor pessoas com coragem suficiente para lhe dizer que a estratégia não tem pano nenhum.

O Imperador pode até desfilar nu por algum tempo, mas o mercado, ao contrário da multidão do conto, não perdoa com risadas; ele perdoa com o downgrade e a insolvência.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: