Agro gaúcho aponta possível especulação em falta de diesel no RS
A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) vê indícios de movimento especulativo na distribuição de diesel em meio à colheita de arroz no estado.
Segundo o economista-chefe da entidade, Antonio da Luz, alguns distribuidores podem estar retendo combustível comprado a preços mais baixos para vendê-lo depois com valores mais elevados.
“Nos parece algo muito mais um movimento especulativo do que propriamente um movimento de mercado”, afirmou.
No sábado, 7, a Farsul divulgou uma nota manifestando “preocupação com reclamações recorrentes, por parte de produtores rurais, da não entrega de combustíveis pelos Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs) nas últimas 48 horas e a informação de que o serviço não será normalizado neste final de semana”.
“Conforme as empresas responsáveis pela distribuição de diesel nas propriedades rurais, o problema inicia nas refinarias que, sem aviso prévio ou justificativa, suspenderam a distribuição desses combustíveis”, afirmou a entidade.
Na avaliação do economista, a escassez relatada por produtores não se explica apenas pela recente disparada do petróleo no mercado internacional.
O barril saiu de cerca de US$ 60 para aproximadamente US$ 100 em pouco mais de uma semana, em razão do conflito no Irã. Ainda assim, segundo ele, não haveria tempo suficiente para que esse movimento provocasse desabastecimento imediato no mercado interno.
“Temos absoluta certeza de que, se o petróleo sai de 60 para 100 dólares, haverá algum tipo de impacto, mas isso não pode acontecer hoje. Não deu tempo”, disse.
No domingo, 8, o petróleo voltou a ultrapassar a marca de US$ 100 por barril pela primeira vez desde 2022. A disparada ocorreu após o Irã fechar o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o transporte de energia no mundo.
Na manhã desta segunda-feira, 9, o barril do West Texas Intermediate (WTI) chegou a ser negociado próximo de US$ 102, alta de cerca de 12%. O Brent, referência internacional, avançava aproximadamente 15%, cotado perto de US$ 106.
Não há relatos de falta de combustível nos postos para consumidores em geral, o que reforça a percepção de que o problema está concentrado nos distribuidores que atendem diretamente o setor agrícola, avalia o economista.
Em meio a esse cenário, produtores rurais do Rio Grande do Sul enfrentam dificuldades para abastecer máquinas durante a colheita de arroz, milho e soja.
Segundo o economista, os distribuidores de diesel têm demorado até dez dias para entregar o combustível, o que preocupa o setor em um momento considerado crítico da safra.
O presidente da Farsul, Domingos Velho Lopes, recebeu mais de 100 reclamações de produtores que estão sem diesel durante a colheita. Em alguns casos, contratos de fornecimento já firmados foram reabertos com novos valores, enquanto fornecedores pedem prazos de até uma semana ou dez dias para a entrega do produto.
A situação preocupa ainda mais porque o Rio Grande do Sul possui um calendário agrícola diferente de regiões como Mato Grosso.
Por estar abaixo do Trópico de Capricórnio, o estado planta e colhe mais tarde, o que faz com que a atual fase da colheita coincida com as dificuldades de acesso ao diesel — combustível essencial para a operação de colheitadeiras e para o transporte da produção.
Além dos impactos logísticos, a alta do petróleo também pode pressionar a inflação. Segundo Da Luz, combustíveis e energia elétrica têm forte efeito inflacionário, já que praticamente todas as atividades econômicas dependem desses insumos.
“Quando o preço da energia sobe, ele tem um efeito explosivo, porque todas as atividades consomem energia”, afirmou.
Por isso, a Farsul já avalia revisar para cima suas estimativas de inflação após o petróleo ultrapassar a marca de US$ 100 por barril. O impacto final, no entanto, dependerá de quanto tempo os preços internacionais permanecerão elevados.
ANP investiga distribuição de diesel
Em nota, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que recebeu relatos de dificuldades pontuais na aquisição de diesel por produtores no Rio Grande do Sul, mas afirmou que os estoques são suficientes para garantir o abastecimento.
A agência também abriu uma investigação para avaliar a formação de preços e as condições de distribuição do combustível no estado.
Segundo a ANP, o estado possui nível regular de estoque e produz mais diesel do que consome. A produção e a entrega do combustível seguem em ritmo normal pelo principal fornecedor da região, a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), da Petrobras.
Além da Refap, o Rio Grande do Sul também conta com a Refinaria Riograndense, que tem participação da Petrobras.
A agência informou que equipes técnicas estão verificando instalações e operações relevantes na cadeia de distribuição e serão formalmente notificadas para que prestem os devidos esclarecimentos à ANP sobre o volume em estoque, os pedidos recebidos e os pedidos efetivamente aceitos”, informou.
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