Analistas veem aposta em direita antissistema e segurança na escolha por Caiado
A escolha do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como pré-candidato do PSD à Presidência indica uma leitura clara sobre o cenário eleitoral do presidente do seu partido, Gilberto Kassab. Para analistas políticos ouvidos pela EXAME, a aposta combina a visão de um avanço de um eleitorado mais à direita, com traços antissistema, e a centralidade da segurança pública como tema de campanha.
Segundo Creomar de Souza, CEO da consultoria política Dharma, o movimento reflete uma percepção interna do partido. “A visão de Kassab é que o eleitorado está clivando para direita com uma tendência de ser uma direita mais antissistêmica”, afirma.
Na prática, diz, a escolha por Caiado responde a essa mudança de perfil do eleitor.
A candidatura tenta operar em duas frentes. De um lado, apresentar resultados de gestão em Goiás; de outro, reforçar um discurso mais duro, especialmente na segurança pública. “Ele navega entre um eleitor mais ao centro com elementos de gestão e entregas feitas em Goiás e, de outro lado, com um discurso bem forte de segurança pública”, diz Creomar.
Já para Cila Schulman, presidente do instituto Ideia, o ponto de partida da candidatura está na consolidação de agenda. “Segurança pública é o tema carro-chefe do Caiado pela prioridade e resultados que trouxe nos seus governos em Goiás”, diz.
O tema funciona como principal vitrine de gestão e ativo eleitoral do governador.
Mas, segundo ela, há um segundo eixo estratégico. “Saúde e especialmente a memória da pandemia”, afirma. “Esse é o ponto maior de desaprovação na memória do eleitor com relação a Bolsonaro.”
A avaliação sugere que o legado da crise sanitária ainda pesa sobre candidaturas associadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — e consequentemente a seu filho, Flávio. Nesse contexto, Caiado pode tentar construir contraste.
“Apesar do apoio ao Bolsonaro na época, ele bateu de frente com o então presidente pelas vacinas”, diz Schulman, destacando também o fato de o governador ser médico — atributo que tende a ser explorado na campanha.
Visão de Flávio como favoito
Apesar da tentativa de diferenciação, o cenário eleitoral pode impor limites à candidatura. A avaliação de Shulman é que a dinâmica da disputa pode favorecer a concentração de votos, caso a campanha de Caiado não decole.
“Vejo maior possibilidade da eleição acabar no primeiro turno [com a candidatura de Caiado]”, afirma.
Ela cita o fenômeno do antipetismo de chegada, quando eleitores antecipam o voto para evitar a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Isso aconteceu com Aécio em 2014 e com Bolsonaro em 2018”, diz. “Se a campanha de Caiado não pegar tração, o seu eleitor pode despejar os votos em Flávio já no primeiro turno.”
Hoje, Caiado aparece nas pesquisas eleitorais com percentuais entre 4% e 6%. A expectativa é que com a oficialização e o início da pré-campanha, ele consiga alcançar patamares próximos do que o seu companheiro de partido e governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), registrava nos levantamentos.
Durante o discurso após a confirmação da escolha do partido, Caiado criticou o governo Bolsonaro e disse que acha que Flávio não está preparado para o desafio de ser presidente do país.
Apesar dessa sinalização de tentativa de se mostrar uma opção além de Flávio, a visão de Creomar, da Dharma, é que a escolha de Caiado também revela uma leitura pragmática de Kassab. “A sinalização por escolher o Caiado dá a entender que a leitura do partido é que o processo eleitoral está clivando em favor do Flávio”, afirma. “O retrato que possivelmente sai de lá é que o Flávio hoje é favorito ao processo eleitoral.”
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