Respirar no interior pode ser pior que em São Paulo, revela a USP

Por Letícia Ozório 31 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Respirar no interior pode ser pior que em São Paulo, revela a USP

Você certamente já ouviu falar sobre a qualidade do ar de São Paulo e os impactos da poluição urbana na saúde. Mas e se respirar no interior pudesse, em alguns casos, ser ainda mais prejudicial?

Um estudo do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) aponta que áreas agrícolas podem concentrar níveis relevantes de pesticidas no ar — inclusive com maior potencial de dano do que regiões urbanas.

A pesquisa identificou compostos associados ao risco de câncer em amostras coletadas em Piracicaba, no interior paulista, além de São Paulo e da região industrial de Capuava.

Ar em São Paulo vs no interior

O trabalho analisou material particulado — partículas finas suspensas no ar — coletado nos três locais. Em laboratório, os compostos foram testados em células pulmonares humanas para avaliar seus efeitos na saúde.

Os resultados mostram que pesticidas não ficam restritos às áreas onde são aplicados. Eles podem se dispersar pelo ar e atingir regiões urbanas e industriais, ampliando o alcance da exposição.

Entre os compostos identificados, a atrazina — usada principalmente em plantações de cana-de-açúcar — apareceu em maior concentração na amostra de Piracicaba. A substância é associada a riscos à saúde e pode permanecer por longos períodos no ambiente.

A pesquisa também aponta que a mistura de diferentes pesticidas aumenta o potencial tóxico. Esse efeito, conhecido como sinergia, intensifica os danos quando os compostos estão combinados. “A sinergia de compostos pode causar um risco maior para as pessoas expostas”, afirma a pesquisadora Aleinnys Yera, em entrevista ao Estadão.

Nas áreas urbana e industrial, os pesticidas mais frequentes foram malationa e permetrina, que também podem ser usados em ações de controle de mosquitos.

Componente proibido é encontrado

Outro achado relevante foi a presença de heptacloro em todos os locais analisados. Apesar de proibido há décadas no Brasil, o composto ainda persiste no ambiente e segue sendo inalado diariamente.

Os testes em laboratório indicaram que a exposição ao material particulado contendo pesticidas provocou estresse oxidativo e morte de células pulmonares. As amostras de Piracicaba e Capuava apresentaram os efeitos mais intensos.

Riscos à saúde

Segundo a professora do Instituto de Química da USP Pérola Vasconcellos, o problema pode ser mais amplo do que se imagina. “Estamos respirando pesticidas, e isso faz mal à saúde mesmo em concentrações muito baixas”, afirmou em entrevista ao Estadão.

O estudo também identificou potencial risco de câncer em alguns cenários de exposição, especialmente entre populações mais vulneráveis.

Embora os dados se refiram aos pontos específicos de coleta, as pesquisadoras alertam que a presença de pesticidas no ar pode ser mais disseminada, sobretudo em regiões com uso intensivo de agrotóxicos.

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