Aos 64, ela criou a maior franquia de bolos do Brasil, Agora, vendeu para gigante de R$ 120 bilhões

Por Isabela Rovaroto 26 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Aos 64, ela criou a maior franquia de bolos do Brasil, Agora, vendeu para gigante de R$ 120 bilhões

Em 2009, Sônia Ramos tinha 64 anos, um filho recém-demitido e a ideia simples de vender os bolos caseiros que ela já fazia para a família. O país ainda sentia os reflexos da crise financeira de 2008, e a aposentadoria não era suficiente para cobrir as despesas de casa. Quinze anos depois, uma empresa britânica com receita anual de R$ 120 bilhões assinou um contrato para comprar tudo o que ela construiu.

A AB Mauri Brasil, subsidiária da britânica Associated British Foods e dona de marcas como Fleischmann e Ovomaltine no país, anunciou a compra de 100% da Casa de Bolos, a maior rede de franquias de bolos do Brasil. O valor da transação não foi divulgado. O negócio ainda depende de aprovação regulatória.

Para a AB Mauri, a aquisição fecha um ciclo que já estava quase completo. A empresa que vende ingredientes para bolos comprou quem mais vende bolos no país.

A companhia fornecia ingredientes para padarias, confeitarias e indústrias de panificação. Ou seja, já estava presente nos bastidores da produção dos bolos da Casa de Bolos. Agora, passa a controlar também a venda final, capturando valor em mais uma etapa da cadeia.

De uma mesa de café a 600 lojas

A Casa de Bolos nasceu em 2010, quando a família Ramos alugou um espaço comercial no centro de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e abriu a primeira loja. No primeiro ano, mais quatro unidades foram inauguradas na região. Diante da rápida aceitação, os quatro filhos de Sônia — Rafael, Daniel, Eduardo e Fabrício — foram se integrando ao negócio. Em 2011, a família apostou no modelo de franquias.

O crescimento foi construído sobre uma proposta simples: bolos caseiros, sem massa pronta, ovo em pó, conservantes ou corantes, com frutas frescas e receitas da própria Sônia.

A forma como o negócio escalou impressiona. Por nove anos consecutivos, a Casa de Bolos figurou entre as 50 maiores franquias do Brasil pela ABF.

A rede encerrou 2025 com mais de 600 lojas em 250 cidades e 20 estados, além de uma unidade internacional em Lisboa. São 60 mil bolos produzidos por dia e uma nova loja inaugurada a cada seis dias em 2025. O faturamento chegou a R$ 720 milhões no ano passado.

Tudo isso sem que Sônia tivesse feito um curso formal de gestão ou finanças. "Fui aprendendo no dia a dia, escutando muito, observando, errando e acertando", afirmou em entrevista à Exame em junho de 2025.

Por que uma gigante global quis uma rede de bolos caseiros

A aquisição reflete uma mudança mais ampla no setor de alimentação. Empresas antes concentradas na indústria e no fornecimento passaram a buscar marcas com conexão direta com o consumidor. Em um mercado pressionado por custos e disputa por distribuição, controlar canais próprios virou vantagem estratégica.

A Casa de Bolos cresceu apostando em um espaço pouco explorado pelas grandes redes: o consumo cotidiano e acessível. Enquanto parte do food service avançou para experiências premium, a marca construiu escala em cima de um produto simples, de tíquete médio baixo e forte apelo emocional.

O modelo de franquias ajudou. Com operação enxuta, cardápio padronizado e baixa complexidade logística, a rede avançou sobretudo em cidades médias e bairros residenciais, regiões menos disputadas por grandes cadeias.

"O que nos atraiu foi a autenticidade da marca e a solidez do modelo construído ao longo dos anos", afirmou Danilo Nogueira, diretor-geral da AB Mauri Brasil.

O movimento acontece em um momento de amadurecimento do franchising brasileiro. Segundo a ABF, o setor faturou R$ 102,6 bilhões no estado de São Paulo em 2025, alta de 10,7% sobre o ano anterior.

O segmento de alimentação e food service respondeu por mais de R$ 20,4 bilhões. Dentro desse universo, o mercado de confeitaria movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano — e os bolos caseiros representam a maior fatia, com receitas estimadas em R$ 10 bilhões e crescimento anual entre 3,5% e 5%.

O que muda para quem é franqueado da Casa de Bolos

Para os atuais franqueados, pouca coisa muda. A AB Mauri garantiu que marca, modelo de franquias e gestão operacional serão mantidos após a conclusão da transação. Os três fundadores seguem na liderança da operação. As receitas, sem massa pronta, conservantes ou corantes, também não mudam.

A principal diferença pode aparecer no suporte operacional. A compradora é uma das maiores fornecedoras de ingredientes para panificação do país, o que pode significar mais músculo na cadeia de abastecimento e melhores condições de escala para a rede.

Aos 79 anos, Sônia Ramos segue participando da criação de receitas, testando produtos e mantendo contato com os funcionários. A empresa mudou de dono. A vó, não.

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