Após faturar R$ 32 bilhões, LaLiga vê o Brasil como nova fronteira. Mas enfrenta a pirataria digital
A estratégia da LaLiga para crescer no Brasil entrou em uma nova fase — e não passa mais apenas pela transmissão dos jogos. Com investimentos em conteúdo digital, parcerias locais e iniciativas culturais, a liga espanhola tenta se reposicionar em um dos mercados mais relevantes do mundo para o futebol.
Depois de quase uma década de presença no país, a avaliação interna é clara: tratar o Brasil como uma espécie de "cliente premium" diante da forte disputa no mercado de transmissões esportivas. Agora, a aposta é em uma operação dedicada, com linguagem, estratégia e produtos adaptados ao comportamento do torcedor brasileiro.
Com mais de 200 milhões de habitantes e forte conexão histórica com o futebol espanhol — impulsionada pela presença de ídolos brasileiros na liga — o país se tornou peça-chave na expansão internacional da LaLiga.
“Estamos num ponto de virada”, afirma Marc Tarradas, diretor da LaLiga na América Latina, em entrevista à EXAME.
A mudança de abordagem começa por uma leitura mais sofisticada do país. Para Tarradas, o Brasil não pode ser tratado em um bloco latino-americano homogêneo.
"O Brasil é praticamente um subcontinente com uma cultura, um consumo de futebol e uma população completamente diferentes do resto da América Latina. Por isso, nossa operação aqui é diferenciada e o investimento em conteúdo digital é a prioridade".
Os investimentos no mercado brasileiro fazem parte de uma frente de expansão global da LaLiga, em meio à ampliação dos torcedores de seus clubes e crescimento de receita e lucro.
Em março, a divisão espanhola apresentou seu balanço financeiro, com receita de 5,4 bilhões de euros (R$ 32,3 bilhões, na cotação atual) na temporada 2024/2025, com crescimento de 8,1% em comparação à temporada anterior.
O desempenho financeiro estabelece um novo patamar para a liga, com impacto direto do desempenho comercial e da retomada completa das operações na maioria das arenas na Europa. As receitas comerciais ultrapassaram 1 bilhão de euros (R$5,9 bilhões) pelo terceiro ano consecutivo e atingiram mais de 1,5 bilhão de euros (R$ 8,9 bilhões) na temporada.
Em coletiva de imprensa, Javier Tebas, o presidente da LaLiga, explicou que o avanço está associado à expansão internacional e a estratégias de monetização. A projeção para 2025/2026 considera continuidade dessa trajetória, apoiada na maturidade dessas iniciativas e no aumento da presença de torcedores.
Próximo passo: dominar o jogo no digital
O principal eixo de crescimento da LaLiga no Brasil passa pelo ambiente digital. A leitura é pragmática: o país está entre os maiores consumidores de conteúdo online do mundo. O que, para a divisão espanhola, representa um sinal para apostar as fichas no país.
“É um dos países com maior consumo digital do mundo. Por aqui, existem muitas plataformas de transmissão de campeonatos e isso intensificou a relação das pessoas com o futebol", declara o executivo espanhol.
O Brasil concentra 36% da receita total das empresas de entretenimento e mídia na América Latina e ocupa a 11ª posição no ranking global do setor, de acordo com a PwC. Em 2025, o levantamento indicou movimentação de US$ 39,4 bilhões (o equivalente a aproximadamente R$ 215 bilhões) com o consumo desses serviços, considerando gastos com streaming, música, games e outras plataformas digitais.
Para Marc Tarradas, a variedade de serviços de streaming disponíveis no Brasil e o consumo de conteúdos em redes sociais apontaram para oportunidades para a liga espanhola fisgar os brasileiros em meio à competição na internet por atenção.
“Plataformas como Netflix, Amazon Prime, Disney+ e HBO são muito grandes no Brasil e têm muitos assinantes. Elas também passaram a investir em esportes. O Prime Video, por exemplo, transmite um jogo por semana do Campeonato Brasileiro Série A", explica.
Diante desse cenário, a estratégia da LaLiga inclui:
"O Brasil é um país muito digital, então precisamos fortalecer nossa presença nesse ambiente. Para isso, criamos conteúdo específico para o público brasileiro, incluindo um perfil exclusivo no TikTok, apoiado pelas nossas próprias plataformas", reforça Marc Tarradas.
O movimento também acompanha uma mudança estrutural no consumo de futebol, antes monopolizada pela TV aberta. Com a fragmentação das transmissões pelas plataformas de streaming e canais por assinatura, a LaLiga passou a apostar em um modelo mais distribuído.
“É um desafio, mas também uma oportunidade. Por isso, temos um trabalho importante: cuidar do nosso produto, torná-lo mais atraente, com produção inovadora, mais interatividade e uma conexão mais forte com os fãs. A ideia é oferecer algo simples, agradável e fácil de acompanhar".
Hoje, além da TV por assinatura, há jogos dos times espanhóis da organização em TV aberta e até transmissões no YouTube, em parceria com a ESPN. Mas, Marc Tarradas ressalta que a liga não subestima a potência que a TV aberta ainda tem entre os brasileiros.
"Contamos com uma robusta estratégia de distribuição. Há alguns anos, os jogos eram exibidos quase só na TV por assinatura. Além dos canais pagos, como a nossa parceira ESPN, também estão nas plataformas digitais, como o Disney+", explica. "Ampliamos a presença na TV aberta, que é essencial no Brasil. Hoje, temos uma partida por rodada nesse formato. E seguimos com a estratégia multiplataforma, incluindo transmissões no YouTube, com um jogo por rodada no canal da ESPN. Estamos trabalhando para adaptar o produto e a distribuição às novas formas de consumo.”
Nova jogada
Segundo o executivo, a expansão da LaLiga no Brasil também passa por acordos comerciais e ativações físicas, com o intuito de estreitar laços com a vida cultural do país. A liga já fechou seu primeiro patrocinador local, a Fortibet, e mantém parcerias com empresas como a companhia aérea Iberia.
Em novembro de 2025, a organização apostou na criação do Espaço Ibéria, em São Paulo, local com atrações e experiências interativas com exibições de partidas da liga espanhola e áreas temáticas com conteúdos sobre clubes e jogadores. Segundo Marc Tarradas, a iniciativa ajudou a conectar a paixão dos brasileiros pelo futebol com a cultura espanhola, por meio da tecnologia e imersão.
“O objetivo era levar a experiência da vida na Espanha para quem não pode viajar”, afirma. "A parceria comercial com a companhia aérea proporcionou aos visitantes não apenas um contato com a essência espanhola, como também vivenciar ao vivo os jogos da LaLiga. E dessa maneira, impulsionamos a relação entre as culturas do Brasil e da Espanha".
Além disso, a LaLiga tem investido em ações culturais e eventos — incluindo ativações no Carnaval e planos para exibir o clássico espanhol em pontos emblemáticos, como a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
A organização também pretende alcançar os corações e mentes dos brasileiros por meio de projetos de impacto social. Recentemente, a LaLiga promoveu a reforma da Arena Palmeirinha, casa do time da favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, para dar um empurrão no desenvolvimento técnico dos atletas locais e usar o esporte como suporte para muitos estudantes na comunidade. O projeto foi realizado em parceria com a EA Sports.
A estratégia busca aproximar a marca do cotidiano do torcedor — especialmente em regiões periféricas — e criar vínculos de longo prazo com novas gerações.
"Renovamos um campo de futebol em uma área carente para que crianças possam praticar esportes com segurança e jovens tenham uma alternativa fora da violência. Mas não paramos na obra. Criamos um programa que já está em funcionamento há dois anos, com atividades e iniciativas para que as crianças realmente usem e aproveitem o espaço", detalha o executivo espanhol.
O 'match' com a CBF
Para leva o relacionamento institucional com o futebol local a outro patamar, a LaLiga trabalha para intensificar o diálogo com federações estaduais e com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Marc Tarradas considera que essa aproximação expõe vários elementos que o futebol brasileiro e o espanhol têm em comum, especialmente na formação de talentos.
"Muitos dos maiores nomes do futebol brasileiro fizeram carreira no Campeonato Espanhol. Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Neymar e, mais recentemente, Vinicius Jr., por exemplo. Isso fez com que o futebol espanhol sempre fosse acompanhado de perto no Brasil. Também há uma proximidade no estilo de jogo. A forma como os brasileiros jogam, com criatividade e intensidade, se conecta com o tipo de futebol que é valorizado na Espanha", enumerou.
Diante disso, ele também considera que outro ponto de convergência pode ser visto no modelo de gestão dos clubes, por meio das estratégias adotadas pelo presidente da LaLiga, Javier Tebas, que também espelham o estilo brasileiro de fazer essa indústria girar.
"Há cerca de 13 anos, quando Javier Tebas assumiu a liga espanhola, o cenário era parecido com o do Brasil hoje. O objetivo era transformar a liga em uma referência global, com uma marca forte, identidade própria e um modelo financeiro mais sustentável, com controle de gastos e regras de fair play. Essa visão, de certa forma, é semelhante ao que hoje se busca no Brasil: fortalecer o campeonato nacional, tornar os clubes mais organizados e aumentar a relevância da liga no cenário internacional", comparou o executivo.
Combate à pirataria como pilar do negócio
Se o digital abre oportunidades comerciais e de ampliação de público, também traz riscos à sobrevivência do modelo de negócios — e a pirataria é o principal deles.
Durante anos, a pirataria foi tratada como uma prática de impacto limitado ou uma irregularidade de menor gravidade, associada a torcedores que buscavam assistir a partidas de futebol sem custo. Nesse contexto, o entendimento predominante era de que o principal impacto recaía sobre a emissora detentora dos direitos de transmissão dos principais campeonatos, a TV Globo.
Esse cenário, porém, se transformou. O avanço das transmissões ilegais revela um quadro mais amplo e estruturado, com efeitos diretos sobre a sustentabilidade do futebol enquanto atividade econômica. Clubes, empresas de mídia, governos e diferentes agentes da cadeia produtiva do esporte passam a ser impactados.
Nesse contexto, a pirataria deixa de ser um fenômeno isolado e passa a interferir na dinâmica financeira do setor. Ao final desse processo, o impacto também alcança o consumidor, que absorve as consequências desse desequilíbrio no mercado.
No cenário internacional, os efeitos seguem a mesma lógica. Um estudo recente divulgado pela EFE Sports Business aponta que os clubes da La Liga registram perdas entre 600 e 700 milhões de euros por ano em razão da pirataria digital. De acordo com levantamento conduzido pela própria liga, 59% dos espanhóis afirmam recorrer a transmissões ilegais para assistir às partidas ao menos uma vez por mês.
Diante desta ameaça, a LaLiga se posiciona como uma das organizações mais ativas no combate ao consumo ilegal de conteúdo esportivo, com iniciativas que vão desde tecnologia até mobilização social.
A La Liga ampliou os investimentos em tecnologia voltada ao combate dessas práticas. A organização adota ferramentas baseadas em Big Data e machine learning para mapear comportamentos suspeitos e identificar transmissões irregulares, chegando a detectar mais de 3 mil ocorrências por jogo na Espanha e em Portugal. A estratégia também envolve ações judiciais, campanhas de conscientização e acordos institucionais com diferentes entidades.
No Brasil, a luta segue tão intensa quanto na Europa. Por aqui, um dos projetos é o LaLiga Bares, que incentiva denúncias de estabelecimentos que utilizam transmissões ilegais. Lançada em janeiro de 2026, a campanha da organização oferece pagamento de 50 euros (equivalente a R$ 300) aos torcedores que denunciarem a transmissão ilegal de jogos da LaLiga em bares e restaurantes.
Segundo a divisão espanhola, o pagamento será realizado apenas "nos casos em que as denúncias forem comprovadas após o processo de validação". A entidade também orienta, em seu site, como identificar transmissões legais e disponibiliza um formulário digital para envio das denúncias.
Após completar um trimestre de funcionamento, o projeto tem superado as expectativas da LaLiga, segundo Marc Tarradas. No entanto, a empresa não pode revelar o tamanho do investimento e quantos estabalecimentos foram listados.
Para o executivo, esses esforços estão ajudando a incentivar uma mudança de comportamento sobre o consumo de conteúdos pirateados na internet. Ao mesmo tempo em que a liga vem elevando o faturamento com novos assinantes de seus pacotes de transmissão de partidas.
"A iniciativa tem funcionado bem, aumentando a conscientização e desestimulando o uso desses serviços. As pessoas passam a entender que estão fazendo algo errado e que podem ser denunciadas. Além disso, o programa tem gerado resultados positivos, inclusive no aumento das vendas dos pacotes oficiais de transmissão.”
A força-tarefa da LaLiga contra transmissões ilegais atua em conjunto com o poder público para ampliar o alcance do combate. "O Brasil tem avançado no combate à pirataria. Sabemos que os bloqueios têm limitações, mas seguimos atuando em conjunto com o governo para melhorar os resultados", diz Tarradas.
A operação no Brasil conta com parceria com o Ministério das Comunicações e outras entidades representantivas como a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a Agência Nacional do Cinema (Ancine).
"Proteger os direitos não é só uma obrigação, é fundamental para o futuro da indústria do futebol.”
Dados do Governo Federal indicam que a pirataria digital provoca uma perda anual de arrecadação superior a R$ 2 bilhões em impostos. No ecossitema dos clubes brasileiros, o impacto financeiro também é relevante: cerca de R$ 10 bilhões deixam de circular a cada ano, recursos que poderiam ser direcionados a investimentos em infraestrutura, formação de atletas, remuneração e iniciativas sociais.
Ao olhar para os efeitos da pirataria na indústria, Marc Tarradas ressalta que todas as organizações têm um longo trabalho para superar essas barreiras. Mas o crescimento da receita com transmissões é um sinal da resiliência do setor.
"Mesmo com a queda nas receitas de direitos de transmissão em várias ligas — como Premier League, Bundesliga, Serie A e Ligue 1 — conseguimos crescer 5% no mercado interno este ano", analisa o executivo.
E reforça: "Esse resultado vem do trabalho feito na Espanha. Já na América Latina, que é um foco importante para nós, o cenário também é positivo. A Premier League cresceu cerca de 25% em direitos audiovisuais no último ciclo, e estamos confiantes de que também vamos aumentar nossa receita nessa frente nesta temporada. Isso reflete o trabalho de distribuição e negociação com parceiros como ESPN, Globo, DirecTV, Record e Amazon.”
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