Trump tem 4 opções para decidir rumo da guerra do Irã; veja quais

Por Matheus Gonçalves 26 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Trump tem 4 opções para decidir rumo da guerra do Irã; veja quais

A atual guerra no Irã, iniciada em 28 de fevereiro por ataques conjuntos dos EUA e de Israel em Teerã, tem efeitos em cascata por toda a economia global. O fechamento do Estreito de Ormuz resultou na disparada dos preços do petróleo, e na escassez de produtos essenciais para o funcionamento de indústrias pelo mundo.

A retórica do presidente americano, Donald Trump, muda com frequência. Na última sexta, o republicano anunciou que a guerra estaria “desacelerando” – os objetivos militares americanos teriam sido amplamente atingidos, e a superioridade militar dos Estados Unidos seria incontestável. Todavia, nenhuma vitória militar resolve o problema em questão: o estreito de Ormuz continua fechado, sufocando a economia global e impactando preços de uma miríade de bens vitais inclusive nos EUA.

Em luz disso, seu tom conciliatório terminou no sábado, quando deu ao Irã um prazo de 48 horas para reabrir o estreito. Caso Teerã não cooperasse, ele avisou que “A América irá atingir e obliterar suas muitas PLANTAS DE ENERGIA, COMEÇANDO COM A MAIOR”, mudando totalmente o tom de desaceleração da véspera.

Agora, com seu país preso novamente em uma armadilha de difícil saída no Oriente Médio, Trump tem quatro opções desconfortáveis para tentar resolver o imbróglio, avalia a revista britânica The Economist: uma saída por diálogo, simplesmente encerrar as operações, continuar a guerra dessa maneira ou arriscar uma escalada do conflito.

Diálogo: a diplomacia ainda pode funcionar?

Presidente dos EUA, Donald Trump, pode tentar buscar diálogo em Teerã, mas opção parece pouco plausível (Alex Wong/Getty Images)

Um número cada vez menor de diplomatas ainda acredita que uma saída por diálogo pode ser atingida, onde os EUA e o Irã seriam capazes de negociar um cessar-fogo. Todavia, apura a revista, essa parece ser a opção menos provável de funcionar. O Irã, que no passado se demonstrou aberto ao diálogo, já foi atacado duas vezes durante negociações com os EUA, o que explica sua inflexibilidade e relutância em relação à saída diplomática.

Além disso, devido aos ataques que tiraram a vida do último líder, aiatolá Ali Khamenei, a liderança do país está fragmentada. Seu sucessor e filho, Mojtaba Khamenei, segue desaparecido desde que assumiu o cargo no dia 9 de março, escurecendo ainda mais os prospectos de negociação.

Nesse cenário, encontrar um interlocutor que realmente represente o regime iraniano torna o desafio ainda maior – mediadores também são de difícil acesso: o Omã mediou os últimos dois encontros, mas sua simpatia com o Irã pode fazer com que estados pelo Golfo Pérsico insistam em outro mediador.

Além disso, existe a questão das concessões, fundamental para a diplomacia. Central entre as demandas americanas na diplomacia durante o prelúdio do conflito era que Teerã renunciasse ao seu programa nuclear, e cessasse seu apoio a grupos insurgentes por todo o Oriente Médio, como os Houthis no Iêmen e o Hezbollah no Líbano. Por sua vez, a lista de demandas iraniana também será densa, incluindo reparações pelos vastos danos causados pela guerra e o fechamento de bases americanas na região. No momento, nenhum dos lados demonstra disposição para fazer importantes concessões.

Fazer as malas e ir embora

Retirar tropas da região pode poupar vidas e desescalar conflito, mas não resolveria os pontos-chave que levaram os EUA e Israel à guerra (Getty Images)

Se a guerra não pode ser encerrada por meio de um acordo, o que impede Trump de simplesmente retirar suas tropas da área e continuar sua campanha apenas apoiando Israel? Afinal, a maioria dos americanos se opõe à guerra: uma pesquisa da Universidade de Quinnipiac, apurada também pela CNN, revela que 53% dos eleitores americanos registrados se opõem à guerra, enquanto 40% apoiam. Conforme mais baixas americanas – incluindo ferimentos sérios e mortes – são reveladas, o apoio ao conflito promete cair ainda mais. Mesmo assim, a capacidade militar e naval convencional do Irã foi bastante destruída, e Ali Khamenei foi morto.

Então, o que impede Trump de declarar vitória e simplesmente sair da região?

Além de não conseguir nenhuma das concessões do Irã, que sua administração julga vital para a segurança nacional dos EUA, o problema está na base eleitoral, que não será tão facilmente convencida de uma vitória absoluta.

Com as eleições de meio de mandato marcadas para novembro, o preço inflado da gasolina teria pouco tempo para se recuperar, e os demais choques em outras indústrias atrasariam ainda mais a sensação de normalidade.

Além disso, sem acordos, os EUA não teriam atingido nenhum de seus objetivos geopolíticos ao começar essa guerra – o Irã ainda tem cerca de 400 kg de urânio enriquecido a uma pureza de 60%, na fronteira do necessário para o desenvolvimento de armas nucleares.

Além disso, a situação do Estreito de Ormuz não seria resolvida. Por mais de um século, garantir o transporte de petróleo pelo Golfo Pérsico foi peça central da política externa dos EUA no Oriente Médio: abandonar a guerra agora prejudicaria esse princípio.

Estados do Golfo, diplomaticamente mais próximos dos EUA do que do Irã, sentiriam a ausência americana e seriam deixados à mercê de Teerã, conforme parlamentares iranianos cogitam inclusive a cobrança de taxas por passagem segura pelo estreito. E Israel, aliado dos EUA, também ficaria infeliz se o país abandonasse uma guerra iniciada em conjunto com Jerusalém.

Comprometimento: seguir o curso da guerra

Fumaça e chamas sobem no local dos ataques aéreos a um depósito de petróleo em Teerã, em 7 de março de 2026. Conitnuação do conflito pode ver mais cenas como essa (Sasan / Middle East Images / AFP /Getty Images)

A terceira opção é continuar a guerra e aproveitar a supremacia bélica da aliança com Israel para buscar incapacitar totalmente Teerã. Ambos os países poderiam continuar com bombardeios virtualmente incessantes durante semanas, e essa opção agradaria às autoridades israelenses.

Alguns políticos mais linha dura em Washington acreditam que os EUA estão a apenas mais algumas semanas de bombardeios intensos de gerar um colapso no regime iraniano. Uma continuação da luta também levanta a possibilidade de ferir tão gravemente a infraestrutura iraniana a um ponto onde a República Islâmica não será mais capaz de manter o estreito fechado pela força.

Todavia, nenhuma dessas opções são garantidas. O regime do Irã já se provou muito mais resiliente do que o assumido pelos EUA, e não caiu tão facilmente quanto o da Venezuela, por exemplo, após a remoção de Maduro: o importante aspecto religioso impede a queda do estabelecimento que governa o país, pois o regime não é estruturado apenas sobre ideologia.

Além disso, o Irã depende de armamentos simples, baratos e de difícil incapacitação total para fechar o estreito de Ormuz, como o drone Shahed e explosivos básicos. A mera ameaça de Teerã ter bloqueado a passagem com minas submarinas, por mais que isso não tenha sido verificado, já faz os EUA agirem com ainda mais cautela. Por outro lado, operações de interceptação e campanhas ofensivas utilizam equipamentos americanos de ordens de magnitude mais caros e de difícil produção, gerando escassez ao longo prazo.

A última opção: escalar para desescalar

Membro do Exército americano toca lápide de companheiro morto, no Cemitério Nacional de Arlington, na Virgínia. Cenas assim poderiam ser mais comuns caso os EUA decidam mandar tropas em incursões por terra no Irã (Chip Somodevilla/Getty Images)

Por fim, os EUA poderiam apostar tudo em seu poderio militar e no de seu aliado, Israel, para forçar uma escalada no conflito. Como Scott Bessent, o secretário do Tesouro americano sugere, Trump poderia seguir com suas ameaças de bombardear infraestrutura energética do Irã, e iniciar incursões por terra com os famosos fuzileiros navais americanos, uma força de elite, em ilhas chaves por Ormuz como a ilha de Kharg, que abriga muito da infraestrutura energética iraniana  e até 95% de seu petróleo bruto pronto para a exportação. Poderia também ordenar operações das forças especiais, por exemplo, para destruir as reservas de urânio enriquecido de Teerã.

Uma escalada seria permeada com riscos íngremes: qualquer território capturado pelos americanos teria que ser defendido por dias, sob ataques de mísseis e drones, e com bem menos infraestrutura de interceptação. Além disso, uma invasão de pontos sensíveis para o Irã poria países adjacentes em alto risco, já que Teerã alertou que atacaria infraestrutura nesses países se a sua própria fosse atingida. Um ataque iraniano em uma planta de processamento de gás natural liquefeito no Catar causou perdas equivalentes a 3% do estoque global da commodity – e a planta poderá continuar inativa por até 5 anos.

Mesmo com campanhas e incursões bem-sucedidas, Trump poderia declarar vitória novamente, mas isso ainda não reabriria o estreito. Mesmo se tomasse posse da ilha de Kharg, a vantagem seria negligenciável caso o Irã, aproveitando uma alavanca muito mais importante na forma de Ormuz, se recusasse a negociar termos de paz pela ilha.

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