Após quebrar com o dólar em 2001, empresário criou operação logística que movimenta R$ 200 milhões
Entre 2020 e 2024, o número de empresas brasileiras que importam da China cresceu onze vezes, somando mais de 40 mil, segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Apesar do crescimento, para muitos empreendedores, importar significa enfrentar burocracia, frete caro e uma cadeia logística difícil de navegar.
Para facilitar esse cenário, Rodrigo Giraldelli criou a China Gate, consultoria de importação focada em PMEs. A empresa, sediada em Maringá, no Paraná, movimentou cerca de R$ 200 milhões em operações ligadas à importação em 2025, considerando produto, logística e impostos.
Uma falência mudou o rumo do negócio
A entrada de Giraldelli no setor aconteceu por acaso. Formado em administração e economia, ele trabalhava com consultoria financeira e controladoria para pequenas empresas no início dos anos 2000.
Um cliente do setor de acessórios para celular reclamava da queda nas margens. Ao analisar o mercado, Giraldelli percebeu que os concorrentes importavam produtos chineses enquanto o cliente comprava apenas fornecedores nacionais.
A primeira importação aconteceu em 2002, em uma operação de US$ 5 mil. No ano seguinte, os dois viajaram para a China para conhecer fornecedores.
“Na época, importar da China não era algo tão óbvio. A internet tinha poucas ferramentas confiáveis e quase tudo dependia de indicação e relacionamento”, diz.
Mas antes disso, Giraldelli enfrentou uma quebra. Aos 22 anos, ele assumiu uma loja de importados com uma dívida de R$ 300 mil. O negócio foi atingido pela disparada do dólar após os atentados de 11 de setembro de 2001.
A experiência virou um aprendizado sobre risco cambial e dependência da cadeia logística. “A margem de erro na importação é mínima quando você não domina a operação”, afirma.
Da consultoria financeira para a China
Durante quase uma década, a operação de importação funcionou paralelamente ao escritório de consultoria. Giraldelli também dava aulas e cursos presenciais sobre negócios e comércio exterior.
Em 2010, decidiu concentrar tudo em uma única empresa: a China Gate.
A estratégia foi usar marketing digital em um setor ainda dependente de relacionamento presencial. A empresa começou a produzir conteúdo gratuito em blogs, YouTube e redes sociais para atrair empresários interessados em importar.
Apostou também na frente de educação. A empresa percebeu que parte do público queria aprender sobre importação antes de contratar uma consultoria. Começaram a vender cursos online, como uma porta de entrada para novos clientes.
“A educação virou um motor de geração de demanda. O empresário aprende primeiro e depois decide importar”, diz Giraldelli.
O container compartilhado virou o motor da empresa
O principal crescimento veio durante a pandemia. Com o avanço do e-commerce e dos marketplaces, pequenos vendedores passaram a buscar fornecedores chineses para abastecer lojas digitais.
A maior barreira era o tamanho mínimo das importações. “Muita gente achava que precisava comprar um container inteiro para importar. Mas existe o modelo compartilhado, em que vários clientes dividem o mesmo embarque”, afirma.
Antes focada em containers completos, a China Gate acelerou o modelo compartilhado durante a pandemia. A empresa saiu de 14 funcionários em 2020 para cerca de 120 em 2026.
Hoje, o container compartilhado representa cerca de 80% da operação marítima da empresa. Os clientes são, principalmente, vendedores de marketplaces. Segundo Giraldelli, 70% da base vende exclusivamente em plataformas digitais.
Os produtos mais importados incluem itens de utilidade doméstica, decoração, autopeças, ferramentas e acessórios pet.
Burocracia ainda trava pequenas empresas
Apesar do crescimento, Giraldelli afirma que o principal desafio continua sendo a burocracia brasileira.
Além da complexidade tributária, o tempo da operação também pesa. Um embarque marítimo da China pode levar mais de 50 dias entre saída da fábrica, transporte e liberação alfandegária no Brasil.
Segundo ele, isso exige capital de giro e planejamento. A volatilidade do dólar também afeta diretamente o setor. “O problema não é o dólar alto ou baixo. É uma oscilação sem previsibilidade”, afirma.
IA, conteúdo e expansão
A China Gate projeta ampliar o quadro de funcionários no Brasil em 2026. A empresa também prepara investimentos em tecnologia para automatizar etapas da operação logística e acelerar processos internos ligados a atendimento, documentação e produção de conteúdo.
Outra estratégia para 2026 está no uso de inteligência artificial para distribuição de conteúdo e ganho de eficiência comercial.
Segundo Giraldelli, a empresa voltou a investir em blogs e textos otimizados para mecanismos de busca diante do avanço das plataformas de IA generativa, que passaram a usar conteúdos indexados como fonte de resposta para usuários.
“O conteúdo precisa nascer de uma necessidade real do cliente. A IA ajuda na distribuição, mas a origem precisa ser autoral”, afirma Giraldelli.
Ao mesmo tempo, a empresa tenta ampliar a capacidade operacional para sustentar o crescimento da demanda. A expectativa é movimentar R$ 300 milhões em operações ligadas à importação, considerando produto, logística e impostos.
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