O segredo evolutivo que ajudou as cobras a 'dominarem' o planeta
Quando os dinossauros ainda dominavam a Terra, pequenos mamíferos viviam escondidos em tocas subterrâneas tentando sobreviver. Segundo cientistas, foi justamente nesse ambiente escuro e apertado que as primeiras cobras podem ter encontrado sua grande oportunidade evolutiva.
A hipótese aparece em uma reportagem publicada pela revista científica Knowable Magazine. O texto reúne descobertas recentes de paleontólogos e biólogos evolucionistas que tentam responder a uma pergunta que intriga a ciência há décadas: afinal, como surgiram as cobras?
“Apesar disso, as cobras são alguns dos animais mais bem-sucedidos”, afirmou o biólogo evolucionista Marc Tollis, da Universidade do Norte do Arizona. “Elas definitivamente têm superpoderes que normalmente associamos ao fantástico.”
Hoje, existem cerca de 4 mil espécies de cobras espalhadas pelo planeta. Algumas vivem enterradas no solo. Outras nadam nos oceanos, deslizam entre árvores ou atravessam desertos. Há espécies minúsculas, como as cobra-fio-de-barbados, que lembram espaguetes finos, e pítons gigantes com mais de seis metros de comprimento.
cobra naja (Ivan Mattos/ Zoológico de Brasília/Agência Brasil)
A grande perda que virou vantagem
Um dos maiores mistérios da evolução das cobras continua sendo a perda das patas. Segundo os pesquisadores, abandonar os membros não foi necessariamente uma desvantagem. Em ambientes subterrâneos ou entre vegetações densas, pernas podiam mais atrapalhar do que ajudar.
“Quando um animal está rastejando sob o solo ou atravessando grama fechada, membros acabam sendo literalmente um peso”, explicou Daniela Garcia Cobos, pesquisadora do Museu Americano de História Natural.
Os cientistas acreditam que essa transformação ocorreu entre 150 milhões e 125 milhões de anos atrás, mas ainda não existe consenso sobre onde exatamente isso aconteceu. O problema é que fósseis completos de cobras são extremamente raros.
Por terem corpos longos e delicados, os esqueletos costumam se fragmentar facilmente após a morte, dificultando o trabalho dos paleontólogos. “O registro fóssil das cobras é longo e fino, cheio de lacunas”, resumiu Tollis.
A genética está mudando tudo
Sem fósseis suficientes, os pesquisadores passaram a recorrer à genética moderna para preencher os vazios da história evolutiva das serpentes.
Uma pesquisa feita por pesquisadoras da Universidade de Michigan analisou dados genéticos de mais de 1 mil espécies de serpentes e quase 7 mil espécies de répteis. O resultado impressionou os cientistas: as cobras parecem evoluir até três vezes mais rápido do que outros grupos de lagartos.
“As cobras estão em um trem-bala evolutivo”, afirmou o pesquisador Daniel Rabosky. “Enquanto os lagartos parecem estar em um kart ou uma mobilete evolutiva.”
Segundo o estudo, essa velocidade ajudou as cobras a ocupar nichos ecológicos extremamente variados ao redor do planeta. Foi isso que permitiu o surgimento de espécies venenosas, constritoras, arborícolas, aquáticas e subterrâneas.
O animal mais estranho entre os répteis
Os pesquisadores também destacam que as cobras desafiam a lógica da evolução em vários aspectos. Elas não têm patas, não mastigam comida e dependem de um corpo extremamente alongado para sobreviver. Ainda assim, tornaram-se um dos grupos de vertebrados mais diversificados do planeta.
Para Nick Longrich, biólogo evolucionista da Universidade de Bath, o sucesso das serpentes é tão incomum que os cientistas passaram a tratar o fenômeno como uma espécie de “singularidade evolutiva”. “As cobras são especiais e estranhas”, afirmou o pesquisador.
Mesmo após décadas de estudos, muitas perguntas seguem sem resposta. Cientistas ainda tentam descobrir qual foi o ancestral direto das cobras modernas, quando exatamente elas perderam as patas e como conseguiram transformar um corpo aparentemente limitado em uma máquina evolutiva tão eficiente.
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