Ártico está mais acessível e mais desafiador, diz pesquisador de Harvard
O degelo no Oceano Ártico é uma das razões pelas quais potências como EUA e Rússia aumentaram seu interesse pela região nos últimos meses. Com menos gelo, tem ficado mais fácil circular de navio. Algumas rotas que ficavam abertas apenas alguns dias por ano agora são navegáveis por semanas.
No entanto, a mudança também traz desafios. “O degelo do permafrost [geleiras antes permanentes] está criando desafios. Estradas e infraestruturas construídas sobre o permafrost em degelo precisarão ser substituídas ou construídas de maneiras diferentes”, diz Justin Barnes, pesquisador da Arctic Initiative, do Belfer Center, parte da Universidade Harvard, à EXAME.
“O Ártico está se tornando mais acessível, mas, de outras formas, também está se tornando mais desafiador”, afirma.
Barnes faz uma pesquisa de PhD sobre a governança do círculo polar. Também edita o periódico Arctic Yearbook e integra a North American and Arctic Defence and Security Network (NAADSN, rede norte-americana de defesa e segurança do Ártico).
Na conversa, ele aponta que o Ártico possui vários mecanismos de governança e diálogo para lidar com as questões locais, que são respeitados pelos países que possuem territórios na região. Ao mesmo tempo, ele defende maior atenção às comunidades locais.
“Há povos indígenas no Canadá, no Alasca e na Rússia, em todo o Ártico, que têm direitos, vozes importantes e perspectivas valiosas sobre todos esses temas. Eles têm conhecimentos valiosos e, em muitos aspectos, conhecem o Ártico melhor do que qualquer outra pessoa”, afirma.
Leia a seguir mais trechos da conversa.
Como o derretimento de gelo no Ártico está mudando o cenário na região?
É uma questão com a qual as pessoas lidam há algum tempo. O Ártico é um ambiente operacional muito severo e desafiador para diversas atividades. A possibilidade de extração de recursos, maior acessibilidade e coisas assim variam ao longo do Ártico. O Ártico é bastante diverso em termos ambientais. Alguns lugares estão experimentando maior acessibilidade nos meses de verão. Menos gelo marinho durante esse período, combinado com navios e tecnologia melhores, está ajudando a facilitar maior acessibilidade, e as tendências mostram que isso deve continuar. E, obviamente, isso pode apresentar oportunidades no futuro para mais exploração e extração de recursos.
Justin Barnes, pesquisador do Ártico na Universidade Harvard (Divulgação)
Essa mudança também traz desafios?
As mudanças climáticas estão criando novos desafios e outros riscos. Pesquisas feitas no Ártico perto da América do Norte, ao longo da Passagem do Noroeste, que mostram que, pelo menos ali, em alguns aspectos, está ficando mais difícil operar na região.
Assim, embora haja menos gelo marinho durante os meses de verão, há mais acúmulo de gelo compactando-se em torno de certas partes-chave da rota, tornando tudo realmente mais difícil, arriscado, perigoso e imprevisível. Para o transporte marítimo, é um setor que depende muito de pontualidade e logística. Isso claramente não é um cenário ideal.
A Rota do Mar do Norte, pelo topo da Rússia, é uma situação diferente. Combinada com melhor infraestrutura, a Rússia tem trabalhado para tornar essa rota um pouco mais viável — ainda assim, desafiadora, cara e difícil de usar.
No lado terrestre, o degelo do permafrost [geleiras antes permanentes] também está criando desafios. Estradas e infraestruturas construídas sobre o permafrost em degelo precisarão ser substituídas ou construídas de maneiras diferentes. Portanto, embora haja oportunidades no futuro, há muitos riscos e desafios associados a isso, o que vai exigir os investimentos certos nos lugares certos e também a tecnologia certa para tornar essas coisas mais possíveis. Então, está se tornando mais acessível, mas, de outras formas, também está se tornando mais desafiador.
Qual a velocidade deste degelo e qual deverá ser a velocidade destas transformações?
As mudanças climáticas estão acelerando essa transformação. Não sou cientista do clima, mas sabemos que o Ártico está aquecendo mais rápido do que qualquer outro lugar do mundo, e as mudanças têm sido dramáticas em algumas partes do Ártico, em termos de perda de gelo marinho e de permafrost, e essas tendências devem continuar.
É uma região muito grande, com muitos países diferentes envolvidos, padrões climáticos distintos e ecossistemas diferentes, mas espera-se que, por volta de 2050 ou algo assim, existam passagens completamente abertas pela Passagem do Noroeste no verão.
Que medidas podem ser tomadas para evitar uma escalada militar ou um futuro conflito na região?
O Ártico possui muitos fóruns eficazes que já se provaram muito bons em reunir todos os Estados árticos e titulares de direitos, como povos indígenas, além de outros Estados que não são árticos, mas que estão envolvidos em pesquisa no Ártico.
Para evitar conflitos, precisamos nos apoiar mais nesses marcos cooperativos já existentes. Focar mais em diplomacia científica, na cooperação funcional entre os oito Estados árticos e as organizações de povos indígenas. Outros atores têm um histórico longo e bem-sucedido disso por meio do Conselho do Ártico, que é um importante fórum intergovernamental para esse propósito. Ele é impedido de tratar de questões militares, mas o que fez com muito sucesso foi reunir Canadá, Estados Unidos, Rússia, Finlândia, Noruega, Suécia, Islândia e a Dinamarca, por meio da Groenlândia, para discutir questões do Ártico fora do domínio militar. Outro exemplo é o Fórum das Guardas Costeiras do Ártico.
Existem esses fóruns que são espaços onde podemos ter diálogos significativos e pacíficos no Ártico, que não necessariamente existem em outras partes do mundo. Precisamos deles para comunicação pacífica regular e que continuem a fortalecer diferentes regras e prioridades — como busca e salvamento, por exemplo, um tema muito importante no Conselho do Ártico; resposta a derramamentos de óleo; uso previsível do direito do mar e respeito às zonas econômicas exclusivas de cada país; a Plataforma Continental Estendida.
Também precisamos incluir os povos indígenas nesse diálogo, algo que o Conselho do Ártico faz com sucesso. Aproveitar os marcos existentes no Ártico para garantir comunicação contínua, previsibilidade e maior compreensão das preocupações compartilhadas será útil para evitar conflitos na região.
Como vê o futuro da região nas próximas décadas? O interesse das grandes potências pelo Ártico é algo que veio para ficar?
Isso aconteceu ao longo da história em diferentes períodos: as grandes potências do mundo se interessando pelo Ártico e pelas possibilidades da região. Neste caso, começaremos a ver mais investimentos em uma ampla gama de áreas. Esses investimentos provavelmente estarão relacionados à infraestrutura. Mais infraestrutura levará à possibilidade de maior presença na região, tanto econômica quanto militar, de várias formas. E isso realmente tornaria a região mais acessível.
Falamos antes sobre mudanças climáticas e meio ambiente. Mas a falta de infraestrutura acessível em muitas partes do Ártico tem sido um grande desafio, como mais portos, aeródromos, estradas, quebra-gelos. Agora, isso não acontecerá da noite para o dia; é um processo de longo prazo que levará décadas. Não é algo que vá acontecer nos próximos 10 ou 25 anos. Isso levará muitas e muitas décadas para ocorrer.
No entanto, cabos submarinos, infraestrutura espacial, tecnologia de satélites — essas são coisas que talvez estejam acelerando um pouco mais rapidamente e criem maior conectividade no Ártico.
Que efeitos a maior conectividade pode trazer?
Isso pode levar a uma maior presença militar, mas também as realidades do Ártico continuarão sendo desafiadoras, como mencionei antes, tanto para fins econômicos quanto militares.
Acho que vai depender muito de para onde irão as prioridades no futuro — se o foco permanecer no Ártico ou se outras partes do globo se tornarem mais estrategicamente importantes para algumas das grandes potências. Dependendo disso, mudará o tipo de investimento que ocorre no Ártico. Mas isso tem o potencial de fortalecer os mecanismos de cooperação que já existem. Tudo depende de vários fatores que são difíceis de prever.
Essa maior exploração da região traz riscos ambientais?
Sim. O Ártico tem, em alguns lugares, um ecossistema frágil. Proteger o meio ambiente do Ártico é muito importante, não apenas para os povos e as espécies do Ártico, mas para o mundo inteiro — o Ártico é crucial para isso.
Ao mesmo tempo, mais investimentos podem representar oportunidades econômicas para comunidades. O Ártico tem, em alguns lugares, uma riqueza de recursos. Muitas comunidades estão interessadas em explorar esses recursos para expandir suas economias. O investimento nesses recursos por países mais ricos, seja por meio de investimento estrangeiro direto ou dentro de seus próprios países, será útil nesse sentido.
Membros da delegação canadense limpam área em frente ao consulado do país em Nuuk, Groenlândia (Florent Vergnes/AFP)
Como fazer mais investimentos e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente?
Tudo se resume a equilíbrio. As pessoas que vivem no Ártico, especialmente os povos indígenas — vou falar a partir de uma perspectiva canadense, pois sou canadense e passei algum tempo no Ártico em algumas comunidades — adotam uma abordagem muito pragmática em muitos aspectos.
Há o reconhecimento de que as comunidades dependem do meio ambiente para alimentação. Existe muita caça de subsistência e uma relação próxima com o meio ambiente. Mas também há o reconhecimento de que, em alguns lugares, existem oportunidades econômicas que podem ser desenvolvidas. Isso é uma conversa que precisa acontecer de comunidade para comunidade. Existem prioridades diferentes sobre como gerenciar esse equilíbrio.
No Canadá, temos um processo — ou uma ferramenta, se preferir — chamada acordos de impacto e benefícios. Empresas interessadas em abrir uma mina, por exemplo, precisam ir até uma comunidade e negociar com essa comunidade e com o governo local, chegando a um acordo que garanta que os benefícios daquela mina permaneçam na comunidade.
Isso pode incluir a contratação de um determinado número de pessoas da comunidade, treinamento, fornecimento das habilidades necessárias e também garantir que os investimentos desejados pela comunidade aconteçam. Esses acordos são exigidos por lei no Canadá quando firmados.
O desenvolvimento sustentável tem sido um grande tema de debate nos fóruns de governança do Ártico. O Conselho do Ártico é um deles e possui um grupo de trabalho específico sobre isso. Portanto, há um grande foco em como gerenciar esse equilíbrio.
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