Bolsa de valores de pequenas empresas recebe investimentos do Banco Mundial

Por Clara Assunção 29 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Bolsa de valores de pequenas empresas recebe investimentos do Banco Mundial

A entrada da International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial, como investidora estratégica da BEE4, a bolsa de valores das pequenas e médias empresas (PMEs), marca um novo capítulo na tentativa de destravar o acesso das companhia desse porte ao mercado de capitais no Brasil.

Ao mesmo tempo, a parceria eleva o país ao papel de "laboratório" para o desenvolvimento de um modelo que, se bem-sucedido, poderá ser replicado em outros mercados emergentes, segundo afirmou a maior instituição global de desenvolvimento focada no setor privado em mercados emergentes.

O investimento, anunciado ao mercado nesta quarta-feira, 29, será realizado por meio do programa Upstream da IFC. Ele combina aporte financeiro, em formato não divulgado, mas com instrumento conversível, com suporte técnico, de governança e de estruturação de operações.

Mais do que o capital em si, executivos destacaram em conversa com a EXAME e outros dois veículos nesta semana, que o movimento sinaliza um compromisso de longo prazo com a criação de mercado. "O mais importante, além do próprio investimento, é o acordo de colaboração em si, que define os objetivos que queremos alcançar”, afirmou Rodrigo Fiszman, cofundador e chairman da BEE4.

A iniciativa prevê apoio direto à estruturação de operações de dívida e equity, além da mobilização de capital interno e externo para a infraestrutura de mercado. A IFC também atuará na definição de padrões de governança e melhores práticas, com foco em temas como diversidade de gênero e projetos climáticos.

Brasil no centro da estratégia global

Segundo Luciana Galan, executiva sênior da IFC para o Brasil, a escolha pelo país não é trivial, uma vez que o mercado brasileiro já ocupa posição estratégica dentro da instituição. "O Brasil é hoje o segundo maior portfólio global da IFC e o maior programa de investimentos, considerando tanto capital próprio quanto mobilização de recursos", disse.

No ano fiscal de 2025, foram comprometidos cerca de US$ 11,6 bilhões no país, valor composto por uma parte de capital próprio da IFC e uma "parte considerável" de capital mobilizado de fontes públicas e privadas. Neste ano, segundo a executiva, o portfólio da IFC no Brasil está em torno de US$ 7 bilhões.

A nova aposta no mercado de capitais se ancora no peso das PMEs na economia, que respondem por cerca de 50% dos empregos globais, segundo Galvan. "Desenvolver o mercado de capitais e ampliar o acesso dessas empresas é central para a nossa missão de geração de empregos e desenvolvimento sustentável", afirmou.

De 'lacuna de funding' a modelo exportável

A parceria também carrega uma ambição maior de transformar a BEE4 em um caso de sucesso replicável em outros mercados emergentes.

"Estamos realmente apostando neste investimento e tentando entender o uso dessa tecnologia para PMEs, para que possamos potencialmente levá-la a outros mercados e gerar valor total para PMEs em todos os mercados emergentes", afirmou Mohamed Eissa, diretor global da área de Venture Capital and Direct Investments da IFC.

"Se conseguirmos demonstrar impacto, isso pode ser expandido globalmente".

A tecnologia é um dos pilares dessa tese. A BEE4 opera como uma infraestrutura de mercado voltada a PMEs, utilizando blockchain e tokenização para viabilizar a negociação de ativos, uma alternativa ao modelo tradicional da bolsa.

De olho no investidor local

Do lado da BEE4, o foco imediato não está no investidor estrangeiro que hoje sustenta recordes do Ibovespa, mas no capital local, especialmente aquele hoje restrito a grandes companhias.

"No Brasil, existe um volume relevante de recursos em fundos de pensão e previdência que está ‘carimbado’ para investir apenas em empresas com registro na CVM", afirmou o cofundador da plataforma de mercado de acesso.

Atualmente, menos de 700 companhias têm esse registro, o que limita a alocação a um grupo restrito de grandes empresas. Diante disso, a proposta da BEE4 é justamente ampliar esse universo e ter a IFC entra como catalisador.

"Entendemos que a IFC pode funcionar como um ‘ímã’, atraindo capital privado para as PMEs via mercado de capitais", disse Fiszman. "Isso acelera o acesso dessas empresas e o desenvolvimento do mercado".

A lógica segue exemplos já testados, como programas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em que a participação pública exige contrapartida privada. A expectativa é que o selo da IFC reduza a percepção de risco e aumente a confiança dos investidores institucionais.

A parceria também reforça o avanço do chamado Regime Fácil, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que entrou em vigor em março com o objetivo de simplificar o acesso de PMEs ao mercado de capitais.

A estrutura permite que empresas captem até R$ 300 milhões em 12 meses, com exigências regulatórias reduzidas. Na prática, cria uma jornada gradual, em que companhias podem começar com emissões de dívida e, à medida que amadurecem em governança, avançar para operações de equity.

"Hoje, a demanda maior é por dívida, mas vemos uma janela de reabertura para equity no médio prazo”, disse o chairman da BEE4. A própria BEE4 já começou a formar pipeline. Durante o sandbox regulatório, quatro empresas foram listadas, mesmo em um período de seca de IPOs.

Agora, após a realização do programa “Rota Fácil”, 10 empresas selecionadas devem se tornar companhias abertas ao longo dos próximos 12 meses, que deve chegar ao final desse período com até 15 empresas de pequeno e médio porte listadas.

Além do capital, executivos destacam o peso do "endosso técnico" da IFC. "A credibilidade tem peso. A IFC traz padrões de governança que, para nós, valem ouro", afirmou Patrícia Stille, cofundadora e CEO da BEE4.

A instituição também acompanhará métricas de impacto, como o número de PMEs atendidas, a adoção da tecnologia e a mobilização de capital no ecossistema. "Queremos garantir que haja benefícios genuínos para os usuários finaism as empresas e investidores", disse Mohamed.

Um mercado em construção

Criada em 2022, a BEE4 ainda opera em fase de construção de liquidez em um processo que, segundo a própria empresa, leva tempo. A plataforma foi desenhada para empresas que ainda não têm escala para acessar o mercado tradicional.

A expectativa, agora, é que a combinação entre tecnologia, regulação mais leve e o apoio institucional da IFC acelere esse processo. "Estamos construindo um mercado de acesso. E, com a IFC, ganhamos escala, conexão global e capacidade de ir mais longe", disse a CEO.

No mês passado, a Mais Mu, companhia de alimentos saudáveis e suplementos, emitiu a primeira oferta pública de notas comerciais dentro do Regime Fácil no país, em uma operação de R$ 2 milhões. A operação foi realizada por meio da plataforma de mercado de acesso da BEE4, onde a companhia já tem ações negociadas há quatro anos.

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