Bolsa do Japão renova recordes: 'não parece rali passageiro', dizem analistas
Quem acompanha o mercado já viu que o Japão voltou ao radar global, mas, desta vez, investidores começam a acreditar que a recuperação pode ser estrutural, e não apenas um rali passageiro, com a Bolsa do Japão atingindo novos recordes em 2026 e atraindo um fluxo crescente de capital estrangeiro.
Com impactos da corrida global por inteligência artificial (IA), da volta da inflação no Japão após episódios recorrentes de deflação e de mudanças corporativas inéditas no país, o índice Nikkei 225 ultrapassou pela primeira vez os 67 mil pontos nesta semana, acumulando alta de cerca de 30% no ano.
O país também vem se beneficiando do crescimento salarial e da melhora nos lucros das empresas. Dados do governo japonês mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) real japonês cresceu a uma taxa anualizada de 2,1% no primeiro trimestre, acima das expectativas.
Ao mesmo tempo, a inflação permanece próxima ou acima da meta de 2% do Banco do Japão há quase dois anos, e o gestor da equipe de ações japonesas da Neuberger Berman, Kei Okamura, relatou que a saída gradual da deflação está começando a gerar efeitos mais amplos.
"Começamos a observar taxas de juros reais positivas se refletindo na economia, e o consumo privado se recupera. (...) Isso deve ser um bom presságio para a economia em geral", explicou.
Inteligência artificial como peça central do cenário
Diferentemente dos Estados Unidos, onde o foco está concentrado nas gigantes de software e chips, investidores enxergam no Japão uma oportunidade ligada à infraestrutura física necessária para sustentar a expansão da IA.
Empresas japonesas fornecedoras de equipamentos para semicondutores, automação industrial, robótica, componentes elétricos e materiais avançados passaram a ocupar posição estratégica na cadeia global de IA. A valorização do SoftBank, Tokyo Electron, Advantest e Screen Holdings ajudou a impulsionar o rali.
O SoftBank, em particular, voltou ao centro das atenções após reforçar investimentos ligados à OpenAI, à Arm Holdings e à infraestrutura para IA, se consolidando como uma das principais apostas globais associadas ao setor.
Empresas tradicionais também se beneficiam da IA
O otimismo atual não está restrito às empresas de tecnologia, pois até companhias tradicionais da economia japonesa passaram a ser vistas como beneficiárias indiretas da expansão da IA e da retomada econômica, na avaliação de fontes ouvidas pelo Business Insider.
O Bank of America (BofA) destacou que áreas como eletrônicos, maquinário, construção civil e setor financeiro vêm apresentando crescimento expressivo dos lucros.
A Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, ampliou recentemente suas posições em tradings japonesas, reforçando a visão de longo prazo sobre o país.
Já o Goldman Sachs estimou que uma alta de 10% na bolsa japonesa pode elevar o crescimento do consumo em cerca de 0,3 ponto percentual, especialmente em setores ligados a viagens, restaurantes, vestuário e bens de maior valor agregado.
A melhora das perspectivas para bancos e seguradoras ocorre em meio à expectativa de normalização gradual da política monetária japonesa após anos de juros ultrabaixos. E o fluxo estrangeiro também acelerou.
Dados do Ministério das Finanças do Japão mostram aumento consistente das compras de ações japonesas por investidores internacionais desde 2024, impulsionadas tanto pela tese de recuperação econômica quanto pelo desconto em relação ao mercado estadunidense.
Ações são negociadas a múltiplos menores que nos EUA
Mesmo após a forte valorização recente, ações japonesas continuam negociadas com múltiplos menores do que os vistos nos Estados Unidos, o que alimenta a percepção de que ainda existe espaço para novas altas caso os lucros corporativos continuem avançando.
A Asset Management One International, subsidiária do grupo Mizuho, estima que o retorno sobre patrimônio líquido (ROE) das empresas japonesas deve atingir 10,5% neste ano, acima da média de pouco mais de 8% registrada nos últimos 15 anos.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: