Botafogo SAF protocola na Justiça medida cautelar para possível recuperação judicial

Por Mateus Omena 22 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Botafogo SAF protocola na Justiça medida cautelar para possível recuperação judicial

A Botafogo SAF protocolou na Justiça uma medida cautelar preparatória com foco em um possível processo de recuperação judicial, formalizando uma movimentação discutida internamente nas últimas semanas.

A ação foi registrada nesta terça-feira, 21, e marca o início da estratégia definida pela gestão para reorganizar o passivo e ampliar a margem de operação no curto prazo.

O movimento integra o planejamento liderado por John Textor e vinha sendo analisado com cautela por diferentes interlocutores ligados ao clube, incluindo representantes do modelo associativo e investidores.

A recuperação judicial aparece nesse contexto como um instrumento jurídico para preservar a operação enquanto a SAF tenta reequilibrar o fluxo financeiro. O cenário inclui pressões relacionadas a compromissos recentes e disputas em andamento.

A medida permite à empresa estruturar um eventual pedido completo de recuperação judicial e já oferece proteção imediata contra execuções e bloqueios. O mecanismo também atua na redução de riscos com impacto esportivo no curto prazo.

Como começou a crise do Botafogo?

O aponta que o clube alvinegro passou a enfrentar um quadro de pressão financeira combinado a uma disputa de governança entre o modelo associativo e o investidor John Textor, responsável pelo controle da Sociedade Anônima do Futebol (SAF).

Na última semana, o Botafogo informou, por meio de laudo econômico, uma dívida de cerca de R$ 1,6 bilhão com vencimento em até 12 meses. O documento também indica um passivo de longo prazo de R$ 1,1 bilhão, elevando o total para R$ 2,7 bilhões. Segundo o relatório, o cenário representa risco à continuidade operacional do clube.

Textor assumiu a posição de acionista majoritário em 2022, quando incorporou o passivo acumulado e anunciou investimentos próximos de R$ 400 milhões no futebol. Sob essa estrutura, houve intervenções na infraestrutura do centro de treinamento e do Estádio Nilton Santos, além da ampliação do uso de análise de mercado, com foco em atletas em fim de contrato ou com menor visibilidade.

A estratégia de crescimento ganhou ritmo antes do previsto. No segundo ano da SAF, o clube assegurou vaga na Libertadores, o que levou à ampliação dos investimentos e à chegada de reforços como Luiz Henrique e Thiago Almada. Em 2024, o volume aplicado em contratações alcançou R$ 534,6 milhões, temporada que terminou com títulos da Libertadores e do Campeonato Brasileiro.

O desempenho esportivo impactou as finanças. A receita atingiu R$ 700 milhões no período, enquanto o valor do elenco chegou a R$ 950 milhões, conforme balanço divulgado com atraso de quatro meses.

Crise Financeira na Eagle e reflexos no Lyon

Enquanto o Botafogo acumulava resultados, outros ativos ligados à holding, empresa controladora, Eagle Football Holdings registraram instabilidade. Lyon, na França, e RWDM Brussels, na Bélgica, passaram a enfrentar críticas e restrições financeiras. Ao fim da temporada 2023/24, a Eagle apresentou déficit de 25,7 milhões de euros, equivalente a R$ 157 milhões.

Em junho de 2025, Textor vendeu 43% de sua participação no Crystal Palace por US$ 260 milhões, cerca de R$ 1,4 bilhão, com o objetivo de recompor caixa. Mesmo assim, manteve a política de investimento no Brasil e projetou aportes de R$ 629,4 milhões no Botafogo em 2025. Parte relevante das contratações, com exceção de Danilo, teve retorno esportivo abaixo do esperado.

O desempenho em campo oscilou ao longo da temporada. O clube registrou vitória sobre o PSG no Mundial de Clubes, mas enfrentou trocas de comando técnico e saídas de jogadores como Luiz Henrique, Almada e Igor Jesus. O time encerrou o período com classificação apenas para a fase preliminar da Libertadores.

A situação no Lyon ampliou a crise. Após a aquisição em 2022, o clube francês enfrentou sanções administrativas e risco de rebaixamento, revertido após atuação de Michele Kang na gestão. O cenário levou credores, como Ares Management e Iconic Sports, a questionar o cumprimento de obrigações financeiras.

Em janeiro, Textor foi afastado do controle operacional da Eagle Football Holdings Bidco, estrutura responsável pelas participações diretas nos clubes. A holding principal permaneceu sob sua posição acionária, mas sem comando direto sobre os ativos.

A disputa avançou para o campo jurídico. A Justiça do Rio de Janeiro determinou, em outubro de 2025, que alterações na governança da SAF do Botafogo fiquem suspensas até a conclusão de arbitragem conduzida pela FGV, com prazo estimado de até 21 meses.

Paralelamente, o Botafogo ingressou com ação contra o Lyon para cobrar valores superiores a R$ 745 milhões, referentes a aportes realizados. A política de centralização de caixa entre clubes do grupo passou a ser questionada.

Relatos da imprensa francesa indicam cobranças relacionadas a transferências financeiras envolvendo atletas, enquanto a gestora MCCP Investment Partners antecipou receitas ligadas a negociações de jogadores e reivindica cerca de 120 milhões de euros.

No fim de março, credores da Eagle Bidco nomearam a consultoria Cork Gully LLP como administradora judicial, retirando de Textor o controle sobre decisões financeiras e representação legal. Dias depois, foi publicado no jornal Financial Times um aviso sobre a possível venda das participações em Botafogo, Lyon e RWDM Brussels, etapa prevista em protocolos societários.

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