Boticário cria bot para alertar mulheres sobre uso indevido de IA em fotos
O Boticário aprensentou nesta segunda-feira, 6, o projeto Code Her, movimento que tenta colocar a marca no centro de uma discussão que ganhou escala com o avanço da inteligência artificial: o uso de ferramentas digitais para manipular, sexualizar e expor imagens de mulheres sem consentimento.
A iniciativa combina campanha, educação e uma ferramenta tecnológica. O principal recurso é um bot criado para funcionar dentro do X, antigo Twitter, com a proposta de alertar usuárias sobre tentativas de modificação de fotos por inteligência artificial. O projeto também inclui uma cartilha digital com orientações sobre denúncia, direitos e caminhos legais disponíveis em casos de violação.
A ação surge num momento em que esse tipo de crime ganhou tração. Segundo a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, da ONG SaferNet, as denúncias de misoginia, violência ou discriminação contra mulheres cresceram 224,9% em relação ao ano anterior. O dado ajuda a dimensionar um ambiente em que a popularização de ferramentas de IA passou a ampliar o medo de exposição pública a partir de imagens falsas.
O movimento está ligado à plataforma Her Code, marca de perfumaria feminina do Boticário que, desde 2023, tenta associar beleza a conversas mais amplas sobre prazer feminino, autonomia e tabus ligados ao corpo da mulher. Agora, a empresa tenta ampliar esse território para um campo mais delicado: o da violência digital.
Segundo Carolina Carrasco, diretora de branding e comunicação do Boticário e da Quem Disse, Berenice?, a proposta é reforçar a posição da marca como aliada das consumidoras em discussões que extrapolam o universo da beleza. A executiva afirma que a inteligência artificial, embora tenha aplicações positivas, pode se tornar instrumento de exposição e vulnerabilização quando usada com essa intenção.
Criado pela AlmapBBDO, o projeto será apoiado por uma campanha multiplataforma com filme digital protagonizado pela cantora Marina Sena, além de conteúdos com a jornalista Rose Leonel, que teve imagens íntimas divulgadas sem consentimento no início dos anos 2000 e se tornou uma das principais vozes na discussão sobre violência digital no Brasil.
A campanha também reforça informações sobre leis já existentes para esse tipo de denúncia, como a Lei Rose Leonel, a Lei Carolina Dieckmann, a Lei Maria da Penha e o Marco Civil da Internet.
Como funciona o bot
Pelas regras do projeto, o bot poderá ser ativado por usuárias interessadas em monitorar publicações feitas no X. O processo começa no site da iniciativa, onde a pessoa aceita os termos e habilita o recurso. Depois disso, ao publicar uma foto, basta marcar @botcodeher para que a ferramenta acompanhe a postagem.
Se houver tentativa de manipulação da imagem pelo Grok, a IA do X, a foto deixa de ser exibida, e a usuária recebe um alerta indicando que houve tentativa de alteração. A mensagem também traz orientação sobre canais oficiais de denúncia, leis aplicáveis e medidas que podem ser tomadas.
Na prática, o Boticário tenta usar a própria linguagem da tecnologia para responder a um problema que nasceu dela. Num ambiente em que a IA tornou mais fácil criar montagens, falsificações e conteúdos íntimos fabricados, o desafio deixou de ser apenas conscientizar. Passou a ser também oferecer algum tipo de ferramenta que ajude a reagir.
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