Brasil lidera em golpes financeiros, mas IA (ainda) não é a vilã, diz diretor da Visa

Por Rebecca Crepaldi 15 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Brasil lidera em golpes financeiros, mas IA (ainda) não é a vilã, diz diretor da Visa

A América Latina, como um todo, tem grandes índices de fraudes – e o Brasil se destaca nesse meio, é o que conta Dener Souza, diretor de Risco da Visa do Brasil, à EXAME. A cada US$ 100 em venda, US$ 0,07 são de fraude. “Nós exportamos os golpes”, destaca.

E, muito pelo contrário do que pensam, não são utilizados grandes softwares com inteligência artifical para aplicar os golpes. “Cada vez mais experimentamos uma volta ao passado, porque por mais que a tecnologia avance, a gente vem sofrendo cada vez mais com engenharia social”, comenta Souza.

São golpes comuns, como alguém telefonando para outro alguém fingindo ser o gerente do banco – o que chamam de engenharia social. “O emissor, as bandeiras e os comércios criaram um arcabouço forte de prevenção, então qual seria o elo mais fraco dessa cadeia? O consumidor”, explica.

Neste sentido, há os mais diversos golpes, de telefonar se passando por um comércio conhecido dizendo que alguém presenteou a pessoa e ela só precisa pagar a taxa de entrega por cartão, até SMS alertando que uma compra foi realizada no nome da vítima e ela precisa confirmar alguns dados.

“A inteligência artificial (IA) ainda não aumentou os golpes, porque o fraudador consegue ter bastante sucesso sem a necessidade do incremento tecnológico. Mas existe, como o uso de deep fake. O fraudador faz uma vídeo chamada, captura os traços e utiliza isso para passar pela biometria do banco. Também tem a captura da voz”, comenta Souza.

A tecnologia como aliada

Uma das principais estratégias para evitar as fraudes é a tokenização, que substitui os dados reais do cartão por um código digital único, válido apenas naquele ambiente, como um aplicativo ou site. Ao mesmo tempo, as transações passam a considerar o “device” — ou seja, o aparelho utilizado pelo cliente — criando um vínculo entre cartão, dispositivo e até a biometria, como reconhecimento facial ou digital.

Na prática, isso significa que não basta ter os dados do cartão para realizar uma fraude: é preciso também replicar o contexto da transação. “O fraudador pode ter mil cartões, mas não vai ter mil devices”, diz Souza. Com a tokenização, já foi possível reduzir em 60% as fraudes.

Essa combinação entre cartão Y + dispositivo X + biometria permite que o sistema reconheça padrões de uso e identifique comportamentos suspeitos com mais precisão, tornando as transações mais seguras, ao mesmo tempo em que reduz a necessidade de etapas adicionais de autenticação nas compras seguintes, explica o especialista.

“Mas isso não vai eliminar outras checagens do banco. O emissor tem muitas etapas que faz olhando para o comportamento. Então não é porque eu tenho esse double check que, se passarem 10 transações em cinco minutos, isso não vai chamar a atenção do banco”, explica.

Essa tokenização, por sua vez, auxilia os e-commerces: segundo Souza, as fraudes caíram com o surgimento dos comércios digitais. “Não tivemos dificuldades em persuadir o comércio a se tokenizar”, comenta. Para além disso, o executivo aponta como aliado do setor de cartões a questão da contestação – coisa que o Pix ainda precisa evoluir, em sua visão.

Compras agênticas

A Visa está estruturando os próximos passos para viabilizar o avanço das chamadas compras agênticas — em que agentes de inteligência artificial realizam transações em nome dos usuários — com foco central na autenticação do portador e na preparação de toda a cadeia de emissores.

Segundo Adriana Umeda, um ponto ainda estudado desse novo modelo é garantir que o agente opere dentro das normas definidas pelo consumidor, respeitando preferências, limites e regras de pagamento.

A ideia é assegurar que o agente não realize compras de forma aleatória ou fora do controle do usuário, mantendo a governança da decisão sempre ancorada no titular do cartão. “A primeira preocupação em criar o agente foi: como eu faço ele não alucinar?”, comenta Souza.

Esse ecossistema já começa a sair da fase experimental. Umeda afirma que a Visa já realizou duas transações no Brasil dentro desse modelo, e que o próximo passo é avançar para produção.

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