CFO brasileiro perde confiança e entra em 2026 na defensiva, diz estudo

Por Guilherme Santiago 20 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
CFO brasileiro perde confiança e entra em 2026 na defensiva, diz estudo

O executivo responsável pelas finanças das empresas brasileiras começou 2026 com o pé atrás. O Índice de Confiança do CFO (iCFO), levantamento trimestral conduzido pela Saint Paul Escola de Negócios em parceria com o Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (IBEF-SP), recuou para 123,1 pontos no primeiro trimestre do ano – o menor patamar do indicador desde o quarto trimestre de 2020, período ainda sob o impacto da pandemia.

Mas a leitura exige uma ressalva importante. Em uma escala que vai de 20 a 180, em que 100 representa a neutralidade das expectativas, 123,1 pontos ainda indicam otimismo. Mas é inegável que a confiança dos CFOs vem perdendo força. E a queda de 3,4 pontos em relação ao trimestre anterior recoloca o índice em um terreno que não era visto há mais de cinco anos.

O dado tem peso porque mede a temperatura de quem está no centro da decisão de investir. O iCFO capta as expectativas dos diretores financeiros para os 12 meses seguintes em três frentes (macroeconomia, setor de atuação e a própria empresa). É um termômetro do humor de quem assina o orçamento.

Mas o recuo não está em um único ponto. Os três componentes do índice cederam na comparação trimestral, o que sugere um desânimo difuso, e não uma preocupação localizada. O componente macroeconômico caiu 3 pontos percentuais e chegou a 117,5 pontos. O índice setorial recuou 2,6 pontos, para 126,9. E o componente referente à própria empresa registrou a queda mais acentuada: 4,5 pontos percentuais, encerrando o trimestre em 124,9.

Esse último número é o mais revelador. Historicamente, o CFO tende a confiar mais no negócio que conhece de perto do que na economia do país, sobre a qual tem menos controle. Quando a confiança na própria casa cai mais do que a confiança no ambiente externo, o recado é menos animador: a cautela deixou de ser uma leitura do noticiário e passou a frequentar o planejamento interno.

O que tira o sono do CFO mudou

Talvez o achado mais significativo do levantamento esteja na lista de preocupações das lideranças. No topo das inquietações aparece a demanda do mercado interno, citada por 12,7% dos respondentes. Em segundo, a estrutura tributária, mencionada por 11,9%. Logo atrás, empatadas com 10,3% cada, vêm a atração, retenção e motivação de talentos e a competitividade.

A ordem dessa lista importa. Juros e câmbio – vilões frequentes do discurso empresarial brasileiro – aparecem em posições intermediárias, citados por 7,1% e 5,6% dos executivos, respectivamente. Inflação foi lembrada por apenas 2,4%. Em outras palavras, o que preocupa o CFO em 2026 não é tanto sobre o custo do dinheiro, nem a variação de preços. É mais uma dúvida se haverá comprador na ponta e o peso da máquina tributária sobre a operação. São preocupações que falam menos de conjuntura e mais de estrutura.

Diretores financeiros começaram 2026 dispostos a investir, mas sem pressa e de olho na demanda (Tom Werner/Getty Images)

Talento entra na conta da liderança financeira

Um ponto merece destaque à parte. A presença de "atração, retenção e motivação de talentos" entre as três maiores preocupações, com 10,3% das menções, mostra que a agenda de pessoas deixou de ser assunto exclusivo das áreas de recursos humanos e é também importante para a área financeira.

Quando o diretor financeiro coloca a disputa por profissionais qualificados no mesmo patamar de inquietação que a carga tributária, fica claro que o custo e a escassez de mão de obra qualificada passaram a ser tratados como variável financeira – algo que entra na planilha, e não apenas na pauta de gestão.

Investir, sim – mas em tecnologia

A cautela com o cenário não significa freio nos planos de investimento. Questionados sobre o destino dos recursos previstos para os 12 meses seguintes, os CFOs mantiveram a tecnologia no comando.

O investimento em TI foi citado por 30% dos respondentes – e, segundo o relatório, ocupa de forma recorrente uma das três primeiras posições desde que o levantamento começou, em 2016. A ampliação da capacidade instalada veio em segundo lugar, com 27%. Mais atrás aparecem novas linhas de negócio (12,3%) e pesquisa e desenvolvimento (9,8%).

A leitura é coerente com o momento: diante da incerteza sobre a demanda, as empresas preferem investir em eficiência e modernização da operação.

Há, porém, um contraste que o relatório expõe com clareza. Apesar da onipresença da inteligência artificial no debate corporativo, a fatia do orçamento que os CFOs efetivamente reservam para o tema ainda é modesta.

Investimento em TI lidera os planos, mas só 31% dos CFOs reservam metade ou mais do orçamento para IA (Freepik IA )

Entre os executivos que preveem investir em TI, 47,6% pretendem destinar menos da metade desses recursos a soluções de inteligência artificial e big data. Mais expressivo: 21,4% não preveem nenhum investimento nessas tecnologias. Apenas cerca de 31% planejam dedicar metade ou mais do orçamento de TI a esse tipo de solução. O número sugere que, para boa parte das empresas brasileiras, a inteligência artificial ainda está mais presente nas apresentações de estratégia do que nas linhas concretas do orçamento.

O ano pela ótica de quem assina o orçamento

As projeções dos CFOs para os indicadores econômicos ajudam a explicar a retração. Em média, os respondentes esperam um crescimento de 2,0% do Produto Interno Bruto em 2026 - expectativa que o relatório associa diretamente à diminuição do otimismo para o ano. Para a inflação medida pelo IPCA, a média das respostas é de 4,6%. Para a taxa básica de juros, os executivos projetam 13%, e para o câmbio, uma cotação de R$ 5,39 por dólar.

É um quadro de juros ainda altos, crescimento moderado e câmbio pressionado – combinação que ajuda a entender por que a confiança, embora ainda em território otimista, perdeu fôlego.

O recado do primeiro iCFO de 2026 não é de alarme. O índice segue acima da neutralidade, e os planos de investimento continuam de pé. Mas a queda ao menor nível em mais de cinco anos indica que o executivo de finanças entrou no ano em modo de vigilância – disposto a investir, mas sem pressa, e de olho fixo na demanda que sustentará suas decisões.

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