Com IA, Cisco já vale mais do que na era das ‘ponto com’
A Cisco vive um novo ciclo em Wall Street, impulsionada pela corrida da inteligência artificial (IA) e por um balanço acima das expectativas no terceiro trimestre fiscal. As ações da companhia chegaram a saltar até 15% nesta quinta-feira, 15, após a divulgação dos resultados na noite anterior.
Em dezembro de 2025, os papéis ultrapassaram, pela primeira vez em 25 anos, o recorde histórico alcançado durante a bolha da internet, na era das empresas “ponto com”. Desde então, as ações acumulam alta superior a 30%.
O desempenho reacendeu o entusiasmo de analistas com a empresa. O HSBC, segundo a CNBC, elevou a recomendação das ações de “manutenção” para “compra” e aumentou o preço-alvo de US$ 77 para US$ 137, refletindo um potencial de valorização de quase 19%. A Melius Research, de acordo com a Barron's, também reiterou a recomendação de compra, com preço-alvo de US$ 145.
No trimestre encerrado no fim de abril, a Cisco reportou lucro ajustado de US$ 1,06 por ação, acima das estimativas de mercado, que variavam entre US$ 1,03 e US$ 1,04, conforme dados da CNBC e Barron's. A receita superou US$ 15,8 bilhões — alta de 12% na comparação anual, segundo o Canal Rural —, também acima do consenso dos analistas da FactSet, citados pela Barron's.
O principal destaque veio da divisão ligada à infraestrutura de IA. A companhia informou ter acumulado US$ 5,3 bilhões em pedidos de hyperscalers neste ano fiscal e elevou sua projeção anual para US$ 9 bilhões, acima da estimativa anterior de US$ 5 bilhões.
“Um déjà vu gigantesco dos anos 1990 — mas isso pode estar apenas começando para a Cisco, à medida que seus investimentos em silício e óptica passam a dar retorno”, escreveu o analista Ben Reitzes, da Melius Research, em nota citada pela Barron's. “Essas vantagens são reais em IA e estão prestes a ser mais apreciadas por uma fatia maior da comunidade de investidores”, acrescentou.
A divisão de redes segue como principal fonte de receita da companhia. O segmento faturou US$ 8,82 bilhões no trimestre, acima da expectativa de US$ 8,44 bilhões. Segundo matéria da Barron's, a Cisco atribuiu o desempenho à forte demanda por hardware voltado à inteligência artificial.
A Cisco também apresentou projeções mais fortes para o quarto trimestre fiscal. A empresa prevê lucro ajustado entre US$ 1,16 e US$ 1,18 por ação, acima do consenso de mercado, que apontava algo entre US$ 1,07 e US$ 1,08. A receita estimada para o período varia entre US$ 16,7 bilhões e US$ 16,9 bilhões, também acima das previsões de Wall Street.
Apesar da pressão sobre as margens — a margem bruta caiu para 66%, ante 68,6% um ano antes — a administração afirmou que já implementa medidas para mitigar o impacto do aumento dos custos de memória. Entre elas estão reajustes de preços, maior disciplina operacional, contratos mais rígidos e otimizações na cadeia de suprimentos.
O movimento de reestruturação também aparece na força de trabalho. A Cisco anunciou cerca de 4 mil cortes de vagas, equivalentes a menos de 5% do quadro de funcionários, como parte de um programa de ajustes internos.
O anúncio ocorre em meio à escalada de demissões no setor de tecnologia. Segundo dados do Layoffs.fyi citados pela Barron's, 103.571 profissionais de empresas de tecnologia já foram desligados em 2026 — número próximo aos 124.201 cortes registrados em todo o ano de 2025.
O momento da Cisco reflete um movimento mais amplo do setor de tecnologia. Gigantes como a Meta Platforms seguem ampliando os investimentos em infraestrutura de IA, em uma corrida bilionária por capacidade computacional. Esse avanço beneficia diretamente fornecedores de hardware e redes, como a Cisco, que passam a ocupar uma posição estratégica no novo ciclo da inteligência artificial.
“Acreditamos que o terceiro trimestre reforça a tese de que o papel da Cisco em IA está se tornando estrutural e que a receita de IA está tendo um impacto financeiro maior do que esperávamos”, afirmou o analista Stephen Bersey em nota a clientes, conforme matéria da CNBC.
Para parte do mercado, o momento atual revive memórias da ascensão da Cisco durante a bolha das empresas “ponto com”. A diferença, segundo analistas, é que agora o crescimento está diretamente ligado à infraestrutura necessária para sustentar a expansão da inteligência artificial — um mercado que ainda dá sinais de estar apenas começando.
“As empresas que vencerão na era da IA serão aquelas com foco, senso de urgência e disciplina para realocar continuamente investimentos para as áreas onde a demanda e a criação de valor de longo prazo são mais fortes. Estou confiante de que a Cisco será uma dessas vencedoras. Isso significa tomar decisões difíceis”, escreveu Robbins em publicação no blog da companhia, de acordo com a Barron's.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: