Como a Alice chegou a R$ 1 bilhão com um modelo que desafia os gigantes dos planos de saúde

Por Isabela Rovaroto 1 de Julho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a Alice chegou a R$ 1 bilhão com um modelo que desafia os gigantes dos planos de saúde

Plano de saúde virou uma dor de cabeça para as empresas brasileiras. Os reajustes seguem acima da inflação, os custos médicos não param de subir e, para muitas companhias, o benefício já representa a segunda maior despesa, atrás apenas da folha de pagamento.

Enquanto boa parte das operadoras busca equilibrar essa conta reajustando preços ou renegociando contratos, a Alice aposta na redução de desperdícios antes que eles aconteçam. A estratégia combina atenção primária, coordenação do cuidado e uma plataforma própria de tecnologia, que agora ganha uma nova camada de inteligência artificial.

A operadora acaba de atingir R$ 1 bilhão em receita recorrente anualizada (ARR), quase o dobro do registrado um ano antes, quando a receita recorrente estava em R$ 520 milhões. A empresa também ultrapassou a marca de 95 mil membros, investiu mais de R$ 300 milhões em tecnologia desde a fundação e traçou uma nova meta: chegar a R$ 2 bilhões de ARR e 160 mil membros até o fim de 2027.

"Nós começamos com a hipótese de que era possível construir um plano que crescesse entregando mais saúde, e não menos. Criamos um modelo completamente novo, baseado em atenção primária, coordenação do cuidado e tecnologia", afirma André Florence, cofundador e CEO da Alice.

O foco nas pequenas e médias empresas

Quando a Alice começou a operar, em 2019, a ambição era transformar o mercado de saúde suplementar brasileiro por meio de um modelo mais integrado de atendimento. Depois de testar diferentes estratégias comerciais, a companhia encontrou seu principal mercado.

Hoje, aproximadamente 80% da base de clientes é formada por pequenas e médias empresas, segmento que responde por mais de 90% das novas vendas da operadora. O foco está principalmente em empresas de até 30 vidas, especialmente negócios com até dez funcionários, além de profissionais liberais que contratam planos empresariais.

Segundo Florence, o modelo desenvolvido pela empresa consegue funcionar justamente porque atua na prevenção e na coordenação do cuidado, reduzindo desperdícios e evitando procedimentos desnecessários.

"Hoje o plano de saúde passou a ser a segunda maior despesa das empresas, atrás apenas da folha de pagamento. O mercado chegou a um ponto em que essa conta ficou pesada demais para muitas companhias", diz Florence.

Como a Alice pretende fazer uma conta que o setor não consegue fechar

Crescer em planos de saúde nunca foi apenas uma questão de vender mais contratos. Nos últimos anos, o setor enfrentou uma combinação de inflação médica, aumento na frequência de exames e procedimentos, envelhecimento da população e reajustes insuficientes para compensar os custos. O resultado foi um mercado pressionado pela alta sinistralidade e por margens cada vez menores.

Na avaliação de Florence, o problema está no próprio modelo de negócio que predominou nas últimas décadas.

"Historicamente, o plano de saúde tinha como principal proposta de valor oferecer uma rede muito grande de prestadores. Ele funcionava quase como uma seguradora: recebia o dinheiro das empresas e pagava hospitais, clínicas e médicos”, explica. “Esse modelo ficou cada vez mais caro porque os procedimentos aumentaram, os custos cresceram e o plano de saúde passou a ser a segunda maior despesa das empresas, atrás apenas da folha de pagamento".

A Alice nasceu justamente para tentar inverter essa lógica.

"Nós não nos vemos como uma seguradora. Nós nos vemos como uma empresa de gestão de saúde", diz o executivo.

Na prática, a empresa tenta acompanhar toda a jornada do paciente, e não apenas pagar a conta quando ele adoece. Cada membro tem um médico de família responsável por coordenar seu atendimento ao longo do tempo. Quando é necessário consultar um especialista, esse profissional já recebe todo o histórico clínico do paciente por meio de um prontuário eletrônico desenvolvido pela própria Alice, evitando que cada consulta comece do zero ou que exames sejam repetidos desnecessariamente.

Para Florence, a tecnologia é o que torna esse modelo viável em escala. Desde a fundação, a empresa já investiu mais de R$ 300 milhões no desenvolvimento da própria plataforma, que conecta médicos, hospitais, laboratórios e pacientes em uma única base de dados.

"Para conseguir tomar boas decisões, primeiro precisamos entender o que está acontecendo com a saúde daquela pessoa. Toda a informação passa pela nossa plataforma. Isso nos permite atuar antes que um problema se agrave, acompanhar tratamentos e ajudar os médicos a tomar decisões com mais contexto", afirma.

Essa coordenação também muda a lógica econômica do negócio. Em vez de buscar eficiência restringindo acesso ou negociando preços com hospitais, a empresa aposta que prevenir doenças, acompanhar pacientes crônicos e reduzir desperdícios gera melhores resultados clínicos e financeiros.

"O cuidado certo, na hora certa e no lugar certo gera menos custo. Quando você acompanha um diabético ou um hipertenso de perto, evita uma internação muito mais cara lá na frente. O nosso trabalho não é impedir procedimentos. É garantir que as pessoas recebam o tratamento adequado no momento certo", afirma Florence.

Segundo a companhia, essa estratégia ajudou a manter a sinistralidade da carteira empresarial em 60% em 2025, abaixo da média do mercado, ao mesmo tempo em que a empresa praticamente dobrou sua receita recorrente anualizada no período.

Mas crescer nesse ritmo também exige capital. Como a venda dos planos é feita principalmente por corretores, as primeiras mensalidades ficam com esses parceiros comerciais. Quanto mais rápido a Alice cresce, maior é o volume de recursos necessário para antecipar essas comissões antes que a receita recorrente comece a entrar no caixa.

"Se tivéssemos acesso a mais capital, conseguiríamos crescer ainda mais rápido. Hoje, nossa principal limitação não é demanda. É a velocidade com que conseguimos financiar esse crescimento", diz o CEO.

Como a IA entra nessa equação

Depois de investir mais de R$ 300 milhões em tecnologia desde a fundação, a Alice agora aposta na inteligência artificial para aumentar a produtividade da operação e escalar seu modelo de negócio.

Hoje, a IA resume consultas automaticamente, organiza prontuários, ajuda médicos a localizar informações clínicas em segundos e identifica pacientes que estão com exames preventivos atrasados, entrando em contato para incentivar a realização dos procedimentos.

"Com inteligência artificial conseguimos organizar uma quantidade de informações impossível para um ser humano processar sozinho. Isso ajuda o médico a tomar decisões melhores e libera mais tempo para cuidar das pessoas", afirma Florence.

A tecnologia também passou a fazer parte da estratégia de crescimento da empresa. A Alice estabeleceu a meta de tornar 100% do time de negócios fluente em IA até agosto. A iniciativa faz parte do plano de dobrar a receita recorrente até 2027 sem ampliar a equipe na mesma proporção.

"Fluência em IA deixou de ser um diferencial individual. Ela virou uma condição de operação”, diz.

A meta é chegar ao fim de 2027 com R$ 2 bilhões de ARR e 160 mil membros, mantendo o foco nas PMEs e ampliando o uso de IA em praticamente todas as áreas da empresa.

No fim das contas, a aposta da Alice é relativamente simples de explicar — e difícil de executar. Enquanto boa parte do setor tenta tornar os planos de saúde mais rentáveis administrando despesas, a empresa acredita que a conta fecha quando as pessoas adoecem menos. "Nós não nos vemos como uma seguradora. Nós nos vemos como uma empresa de gestão de saúde", resume Florence.

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