Como a China ajuda o Irã a custear sua defesa, segundo investigadores

Por Matheus Gonçalves 8 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a China ajuda o Irã a custear sua defesa, segundo investigadores

Há anos, o Irã é alvo de intensas sanções americanas, aplicadas tanto por presidentes democratas quanto por republicanos, especialmente sobre seu mercado de petróleo, sua principal fonte de renda e principal exportação. Atualmente, todavia, o Irã vende milhões de barris de petróleo diariamente, arrecadando bilhões de dólares por mês.

Isso se deve aos amplos esforços chineses para adquirir a commodity iraniana. Ao longo dos anos, a China vem aumentando suas compras de Teerã conforme sanções americanas ficam cada vez mais rigorosas. Hoje em dia, especialmente em luz da guerra e do monopólio iraniano sobre o estreito de Ormuz, entre 80 e 90% do petróleo do Irã tem como destino a China, em comparação com os 30% de apenas uma década atrás.

Para contornar as sanções, compradores chineses sempre trabalharam em proximidade com o Irã para expandir suas negociações, em um esquema que políticos e pesquisadores americanos consideram uma das maiores redes de evasão de sanções do mundo.

Em um intricado sistema de compra e vendas que envolve até notas fiscais fraudulentas, os países continuam uma próspera parceria clandestina há anos. Para despistar os olhos de Washington, cuja raiva Pequim busca evitar em uma escala macroeconômica e geopolítica, a China conta, no cerne das operações clandestinas com o Irã, com uma miríade de pequenos bancos com operações globais limitadas – e menos a perder caso sejam sancionados pelos Estados Unidos. Esses bancos, em conjunto com firmas iranianas em Hong Kong, processam pagamentos e administram procedimentos de compras de petróleo que violam sanções americanas.

'Enchendo as chaleiras'

Refinarias chinesas privadas – para evitar conexões diretas com o Partido Comunista Chinês – conhecidas como “chaleiras” – são as principais compradoras do petróleo iraniano, após as estatais terem se retirado do mercado em um gesto de respeito às tarifas. Faturas falsificadas e barris de petróleo bruto sob outras denominações nesses sistemas ajudam a esconder os negócios.

Oficialmente, a China não reportou nenhuma importação de petróleo iraniano desde 2023. Todavia, a empresa de acompanhamento e análise de commodities, Kpler, que também rastreia navios petroleiros por satélite, estima que a China movimentou cerca de 1,4 milhão de barris de petróleo por dia do Irã em 2025.

Em meio às tarifas, que se tornaram particularmente intensas sob Donald Trump, o Irã teve que repensar como vender seu petróleo. Durante o primeiro mandato do republicano, as vendas de petróleo iraniano caíram de cerca de 2,8 milhões de barris por dia em maio de 2018 para cerca de 200.000 em agosto de 2019, segundo dados da Kpler. Sua solução: mergulhar de cabeça nos esquemas com a China, que basicamente se tornou o destino exclusivo do petróleo iraniano.

Teerã acelerou a formação de uma rede de negócios clandestina com a China, fundando empresas petroleiras obscuras e fora do radar, falsificando notas fiscais que afirmavam que o petróleo era oriundo do Omã ou da Malásia, e fraudando demais documentos de transações, reportam investigadores americanos.

Uma medida-chave para facilitar as transações vem na forma de uma “frota fantasma” de navios cargueiros que transportam petróleo sancionado entre o Irã e a China. Operadores dessas embarcações são criativos, usando uma miríade de técnicas para evitar serem descobertos. Mudam o nome de seus navios, desligam equipamentos de emergência e rastreio que sinalizam suas posições e até transferem barris de petróleo de um barco para outro no meio do percurso para a China para camuflar ainda mais suas origens.

De acordo com a ONG C4ADS, que se especializa no monitoramento de ameaças para a segurança nacional, uma rede clandestina desses “navios fantasma” chineses, estabelecida em 2019, agora tem pelo menos 56 embarcações que, juntas, já transportaram mais de 400 milhões de barris de petróleo sancionado para a China.

Uma vez na China, as chaleiras – cujas permissões de venda de petróleo são gradualmente aumentadas – revendem a commodity que não é usada ou estocada. Com isso, as taxas de importação de petróleo para negociações não-estatais na China cresceram de 140 milhões de toneladas métricas em 2018 para 257 milhões esse ano, segundo dados oficiais chineses.

Através de mecanismos assim, o Irã fatura bilhões de dólares com a China, fortuna acumulada por anos de relações bilaterais desse tipo com a Pequim que Teerã lava por diversos meios e usa ao redor do mundo, seja para financiar seus proxies (grupos que lutam com patrocínio iraniano por suas causas no exterior) armados no Líbano e no Iêmen, ou para financiar sua própria defesa contra a coalizão americana-israelense que agora conduz extensivos ataques em seu território.

Uma faca de dois gumes

Tanto Xi Jinping, presidente da China, quanto Donald Trump se movem com cautela em relação às redes clandestinas que a China formou com o Irã (JESSICA LEE / VARIOUS SOURCES/AFP)

Essas operações, apesar de todo o subterfúgio, não escapam totalmente aos olhos de Washington, cujos parlamentares e pesquisadores apontaram várias vezes ao longo dos anos. Em uma resposta aos questionamentos americanos, o Ministério do Exterior chinês disse que se opõe firmemente a “sanções unilaterais ilegais e irracionais”, alegando que fará o que julgar necessário para proteger seus interesses energéticos.

Nos bastidores, todavia, a China é incrivelmente cautelosa para não enraivecer Washington por contornar suas tarifas. Afinal, isso também prejudicaria sua relação com os demais estados do Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Mesmo assim, não renuncia ao petróleo iraniano – devido às sanções, que espantaram outros compradores em potencial, a China consegue grandes descontos para uma fonte de energia barata e de fácil acesso.

Por sua vez, os EUA tentaram limitar este comércio, indiciando indivíduos conectados e expandindo sanções. Mesmo assim, também agem com cautela, limitando sua repressão contra a China pelo risco de desestabilizar o mercado de petróleo global, aumentando preços, e de prejudicar os laços diplomáticos entre Washington e Pequim.

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