Da euforia ao desencanto: interesse de jovens por eleição no Brasil cai 20%

Por EFE 4 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Da euforia ao desencanto: interesse de jovens por eleição no Brasil cai 20%

Se nas eleições de 2022 o Brasil foi testemunha de uma mobilização juvenil sem precedentes, com mais de 2,5 milhões de jovens de 16 e 17 anos solicitando o título eleitoral para votar, o panorama para o pleito presidencial deste ano parece ter perdido esse ímpeto.

Dados preliminares do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) refletem que o interesse dos jovens em comparecer às urnas caiu mais de 20% em relação ao pico das eleições de quatro anos atrás.

Uma das razões é estrutural: a tramitação do título, que no pleito de 2022 foi 100% digital, hoje exige o registro da biometria de forma física.

Esse requisito explica em parte a queda na adesão pelas "dificuldades logísticas que acarreta", conforme disse à EFE Helena Salvador, coordenadora de Mobilização e Campanhas da ONG Pacto pela Democracia.

Desencanto de mão-dupla

Diferentemente de 2022, quando numerosas campanhas e celebridades como Leonardo DiCaprio incentivaram os jovens a tirar o título eleitoral para votar pensando em pautas como a preservação da Amazônia, atualmente não existe um movimento unificado da sociedade civil.

Essa ausência ruidosa revela um "desencanto estratégico" de setores da sociedade de viés progressista em “convidar para o jogo” um eleitorado que mostra tendências conservadoras.

Uma pesquisa do instituto alemão Friedrich Ebert Stiftung (FES) divulgada no final de 2025 revelou que 44% os jovens brasileiros se consideram politicamente de centro, enquanto 38% se situam mais à direita, sendo 17% destes de extrema-direita, e os jovens que se identificam com a esquerda representam 18%.

“Esse novo eleitorado poderia, de fato, servir como uma grande massa de manobra ou público-alvo de presidentes e forças autocráticas”, segundo a especialista.

Apatia generalizada?

Segundo Gabriel Marmentini, diretor da ONG Politize!, o ponto de inflexão fundamental da participação dos jovens na política se situa nos grandes protestos de 2013.

Ele explicou que esse fenômeno gerou anos de crescimento constante no ativismo, nos quais organizações da sociedade civil e movimentos estudantis conseguiram uma conexão genuína com os adolescentes, que viam na política um canal de esperança para transformar sua realidade.

No entanto, esse impulso ascendente foi drasticamente interrompido pela pandemia de covid-19, que atuou como um catalisador de desordem social e esgotamento mental.

Gabriel descreveu o período pós-pandemia como uma fase dominada pela incredulidade, onde o ímpeto de anos anteriores foi substituído por uma desconfiança sistêmica em relação às instituições.

De acordo com essa mesma pesquisa, as instituições políticas do país estão atravessando uma crise de legitimidade: 57% dos jovens não confiam nos partidos políticos, sendo estes os pilares fundamentais da democracia representativa.

Então, “como você vai votar se não consegue traduzir esse desejo de participação política na política institucional?”, perguntou Helena Salvador, que acredita que os jovens têm “interesse pelos temas”, mas não se identificam com a democracia "assim como ela está".

“É a mediação o que falta: levar essa inquietude da juventude pela política em direção à política institucional. Quem teria que estender essa ponte, naturalmente, são os partidos políticos, tanto no aspecto de chamar para votar quanto no de se apresentarem como candidatos”, afirmou.

Conta do futuro

O distanciamento juvenil não é apenas estatístico, é uma ameaça à qualidade de vida. Quando esse segmento se retira do tabuleiro, corre o risco de se expor a políticas criadas por pessoas que não entendem sua realidade e de perpetuar o ciclo de desconfiança no Estado "com seus próprios filhos", segundo Gabriel.

Para reverter essa tendência, ele sugere que a política deve se infiltrar onde os jovens vivem e lhes mostrar com "vitórias rápidas" - como projetos de lei locais - que seu envolvimento tem um impacto real em suas comunidades.

Para o especialista, apenas por meio de uma educação cívica que fomente a "autoeficácia" desde a escola se poderá romper a letargia para evitar que o futuro do Brasil seja decidido sem seus principais protagonistas.

Esses desafios centralizaram o debate no evento 'Governos do futuro: Expectativas da Juventude', organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) com o apoio da Agência EFE realizado em Brasília nos dias 19 e 20 de maio. O encontro contou também com o apoio da Biblioteca Nacional e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal.

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