“Decidimos criar um relógio desde o início para a nova era espacial”

Por Ivan Padilla 17 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
“Decidimos criar um relógio desde o início para a nova era espacial”

Christoph Grainger-Herr, o CEO da IWC Schaffhausen, circulou durante o salão Watches & Wonders no Palexpo, o centro de convenções de Genebra, com um relógio grande, chamativo e de pulseira sintética branca no pulso. Trata-se do Pilot’s Venturer Vertical Drive, o primeiro relógio concebido especificamente para o uso em missões espaciais.

O Vertical Drive foi um dos principais assuntos da entrevista de Grainger-Herr com a Casual EXAME, no espaço da marca no Palexpo. Confira a conversa.

Qual é a ideia por trás da criação do Vertical Drive?

A ideia nasce da exploração espacial. Este ano celebramos 90 anos produzindo relógios de aviação. Isso está no nosso DNA há muito tempo. Em 1936, a família que era dona da marca tinha filhos pilotos, civis e militares. Foram eles que sugeriram criar um relógio específico para pilotos, algo que nem existia no portfólio na época. Desde então, desenvolvemos continuamente relógios otimizados para voo. Tivemos referências fundamentais, como o Big Pilot de observação dos anos 1940 e o Mark II para a Royal Air Force, de 1948, peças com especificações militares, hoje vistas como clássicos vintage. Com o tempo, atualizamos essa linha com cerâmica nos anos 1990, depois titânio, Ceratanium, cores, cerâmicas coloridas, e também modelos ligados ao automobilismo. Mais recentemente, com o programa de pilotos profissionais, enviamos relógios ao espaço, como o Big Pilot Perpetual Calendar em cerâmica branca que foi com o astronauta francês Thomas Pesquet para a Estação Espacial Internacional em 2021. Depois vieram missões com a SpaceX, como a Inspiration4, com personalizações específicas. O que percebemos foi que adaptar um relógio de aviação terrestre para o espaço funciona, mas não é ideal. Então decidimos criar algo pensado desde o início para a nova era espacial.

O que muda quando você projeta um relógio para o espaço hoje?

É muito diferente da corrida espacial dos anos 1960. Naquela época, havia foco em cronógrafos e medição de missão. Hoje, isso é feito digitalmente e pelo controle em terra. O que os astronautas precisam é de dois fusos horários: o tempo a bordo, geralmente UTC, e um tempo de referência pessoal, o “tempo de casa”. Além disso, o relógio precisa funcionar bem em microgravidade. Você se move com mãos e pés, tocando superfícies o tempo todo. Então não pode haver arestas, partes salientes ou elementos que possam prender ou danificar algo — porque, no espaço, você mesmo precisa resolver qualquer problema. Por isso chegamos ao design sem coroa. Todas as funções são controladas pelo bezel, incluindo ajuste de fusos e corda. Isso também facilita o uso com luvas, seja dentro da nave ou em uma atividade extraveicular.

E quanto aos materiais?

Escolhemos cerâmica branca porque já tínhamos experiência — nove relógios nossos já foram ao espaço com esse material. Ela também tem melhor comportamento térmico que o aço. Usamos mostrador preto em Ceratanium para reduzir o brilho do sol, que é extremamente intenso no espaço. E esse material não é um revestimento: ele é permanentemente preto, não desgasta. O design segue uma lógica mais pura, intuitiva e até calmante. Lembro quando entrei pela primeira vez em uma cápsula Dragon da SpaceX. Havia pouquíssimos botões, tudo é simplificado. Esse é o espírito, não aumentar o estresse, mas ajudar. O vidro curvo, por exemplo, me lembra a curvatura da atmosfera da Terra vista do espaço. É um design completamente novo, mas ainda um tool watch típico da IWC.

A inovação sempre foi parte do DNA da marca. Como isso se conecta com a tradição na indústria relojoeira?

Existem marcas que constroem toda a identidade olhando para o passado. Nós sempre fomos mais modernos, com forte ênfase em inovação de materiais e engenharia. Isso não significa ignorar a história, mas sempre manter um olhar para frente. O elo está nos princípios: fazemos relógios funcionais, tool watches, com design puro, usabilidade e robustez. Esse novo modelo pode parecer diferente de tudo que fizemos, mas é 100% alinhado com o DNA da IWC. Esperamos que seja visto no futuro como parte da nossa herança, algo que começou em 2026.

A parceria da IWC com linha do Pequeno Príncipe acaba de completar 20 anos. Qual a importância dessa família para a marca?

É muito importante. Somos uma marca de engenharia, mas no fim do dia tudo gira em torno de conexão humana e emoção. Se você fala só de técnica, pode soar frio. Histórias humanas dão vida à marca, seja de relojoeiros, inventores, designers. E o Pequeno Príncipe é especial porque mistura exploração com reflexão sobre valores humanos. É uma história sobre viajar para outros planetas, mas também sobre ver com o coração, sobre conexões. Isso dialoga muito com o tema espacial: metade da jornada é ir, a outra metade é voltar e entender o quão especial é o nosso planeta. Esse equilíbrio entre engenharia e emoção é essencial para a IWC.

Vocês apresentaram um Pilot de 36 mm dentro da linha do Pequeno Príncipe. A IWC tem tradição em relógios grandes. Como enxerga a tendência de relógios menores?

Tamanhos, cores e formatos mudam com o tempo. Tivemos uma fase forte de relógios maiores, inspirados nos modelos de observação. Mas vemos agora uma preferência por peças mais compactas. Estamos ajustando nosso portfólio. Antes o centro estava entre 42 e 44 mm, agora está mais entre 38 e 40 mm. Isso também se reflete nos novos movimentos, mais compactos. Aos poucos, estamos ampliando a oferta, de modelos maiores para opções menores, como no Portofino, por exemplo. Mas o princípio não muda: continuamos focados em relógios funcionais. Um bom tool watch funciona em qualquer tamanho, seja 36 mm ou 46 mm.

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