'Desastre térmico': Brasil deve bater recordes de calor em 2026 com El Niño e crise climática
Se o brasileiro já vinha sofrendo com as altas nos termômetros, a má notícia é que o segundo semestre de 2026 deve ser pior.
O alerta é do Cemaden, que caracterizou os próximos meses como um "desastre térmico" diante de uma dupla ameaça climática: o El Niño e os efeitos do aquecimento global em curso.
A combinação do fenômeno com 80% de chance de se estabelecer no Oceano Pacífico ainda este ano, chega a um planeta mais aquecido do que nunca. Os anos de 2023 a 2025 já entraram para a lista dos mais quentes da história, segundo o observatório europeu Copernicus.
O climatologista José Marengo, um dos autores da nota técnica enviada pelo Cemaden à Casa Civil, disse que 2026 pode superar os recordes.
Em fevereiro, o Brasil já registrou uma onda de calor que atingiu quase 42°C no Sul e colocou 511 municípios em risco.
Segundo especialistas, o 'desastre térmico' pode levar a impactos sem precedentes à saúde pública e economia.
Em dias de calor extremo, a população liga mais o ar-condicionado, único recurso eficaz quando a sensação térmica supera os 35°C. O resultado é peso financeiro: a conta de energia pode triplicar se o aparelho for usado por cerca de dez horas diárias.
Na agricultura, o calor constante combinado com extremos de seca e chuva reduz a produtividade e pressiona os preços. Os produtores de alimentos tendem a ser os mais afetados, com impacto direto na inflação e no bolso do consumidor.
O que é o El Niño e por que ele preocupa?
O El Niño ocorre quando o Pacífico equatorial permanece ao menos 0,5°C acima da temperatura média por pelo menos três meses.
Parece pouco, mas o fenômeno tem dimensões colossais e equivale a uma piscina de água quente do tamanho da Amazônia Legal. Toda essa energia se propaga por correntes oceânicas e ventos, desencadeando uma cascata de desequilíbrios climáticos ao redor do planeta.
No Brasil, seus efeitos já são conhecidos: ondas de calor mais frequentes e longas, seca no Norte e chuvas acima da média no Sul.
O que agrava o cenário do fenômeno desta vez é a intensificação das mudanças climáticas, com menos vegetação para regular a temperatura devido ao desmatamento e com a formação de ilhas de calor devido ao concreto nas cidades.
"Vai acontecer, será muito quente e vamos sentir mais a partir de setembro. Mais que isso, é especulação", afirma Marengo.
Os modelos de previsão perdem precisão em períodos acima de dois meses, mas o cientista é categórico: as ondas de calor devem acontecer e podem bater recordes.
Ondas de calor, noites sem descanso
O Brasil já vive um período histórico de ondas de calor. Foram dez em 2024, oito em 2023 e sete em 2025 , mesmo sem os efeitos do El Niño. Com o fenômeno a caminho, a tendência é de agravamento, sobretudo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.
Outro fator menos visível que preocupa é a elevação das temperaturas mínimas. O termômetro passa o dia nas alturas, ao mesmo tempo que não cai o suficiente à noite.
O corpo humano, sem descanso térmico, acumula estresse. Semanas seguidas acima da zona de conforto térmico, que oscila em torno dos 23°C, são mais prejudiciais à saúde do que picos pontuais de calor extremo.
"O calor é um assassino invisível e silencioso", alerta o climatologista.
O que esperar por região
Os efeitos do El Niño não são iguais no Brasil. No Sudeste, o calor é a marca predominante do fenômeno. A região, classificada pelos meteorologistas como de transição, não apresenta aumento significativo nos extremos de chuva associados, mas sofre com as ondas de calor.
No Centro-Oeste, o risco se concentra na seca. Se o El Niño se estabelecer na segunda metade do ano, pode piorar a estiagem já em curso, especialmente se vier acompanhado de baixa umidade e atraso no início da estação chuvosa 2026-2027. O cenário cria condições favoráveis para incêndios florestais a partir de agosto, com atenção especial ao Pantanal.
No Sul, o risco é o oposto: chuvas acima da média elevam a probabilidade de deslizamentos e enchentes. As áreas mais vulneráveis incluem Grande Curitiba, litoral do Paraná, Vale do Itajaí, Serra Gaúcha e região metropolitana de Porto Alegre. Bacias como Uruguai, Taquari-Antas e Iguaçu podem registrar cheias significativas.
Na Amazônia, o impacto dependerá do timing. Como o pico de cheia principal ocorre antes de setembro — quando o El Niño já deve estar configurado —, o efeito esperado é um atraso no início do novo ciclo hidrológico, afetando principalmente as nascentes dos rios Solimões e Negro.
Já no Nordeste, um eventual atraso nas chuvas pode pressionar municípios que dependem de barragens intermitentes. O Cemaden lembra, porém, que o El Niño não é o único fator: o Atlântico Tropical e o desmatamento também interferem no regime hídrico da região.
O Cemaden reforça que o monitoramento do fenômeno segue em curso, mas o recado já está dado: o Brasil precisa se preparar.
Adaptar infraestrutura, proteger populações vulneráveis e reduzir o desmatamento são urgências em 2026, mesmo ano em que o país passa o bastão da presidência da COP30 para a Turquia em novembro.
1/17 Imagem aérea de sobrevoo do presidente Lula em Canoas (RS) (Imagem aérea de sobrevoo do presidente Lula em Canoas (RS))
2/17 Homens movem pacotes em um barco através de uma rua inundada no centro histórico de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, em 14 de maio de 2024. Crédito: Anselmo Cunha / AFP) (Homens movem pacotes em um barco através de uma rua inundada no centro histórico de Porto Alegre)
3/17 Vista das áreas inundadas ao redor do estádio Arena do Grêmio em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, tirada em 29 de maio de 2024. A água e a lama tornaram os estádios e sedes do Grêmio e Internacional inoperáveis. Sem locais para treinar ou jogar futebol, os clubes brasileiros tornaram-se equipes itinerantes para evitar as enchentes que devastaram o sul do Brasil. (Foto de SILVIO AVILA / AFP) (Vista das áreas inundadas ao redor do estádio Arena do Grêmio em Porto Alegre)
4/17 Vista aérea do centro de treinamento do Internacional ao lado do estádio Beira Rio em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, tirada em 29 de maio de 2024. Foto de SILVIO AVILA / AFP (Vista aérea do centro de treinamento do Internacional ao lado do estádio Beira Rio em Porto Alegre)
5/17 Pessoas atravessam uma ponte flutuante para pedestres sobre o rio Forqueta, entre os municípios de Lajeado e Arroio do Meio, no Rio Grande do Sul, Brasil, em 21 de maio de 2024. O Rio Grande do Sul experimentou um desastre climático severo, destruindo pelo menos seis pontes e causando interrupções generalizadas no transporte. O exército respondeu construindo pontes flutuantes para pedestres, uma solução temporária e precária para permitir que a infantaria atravesse rios durante conflitos. (Foto de Nelson ALMEIDA / AFP) (Pessoas atravessam uma ponte flutuante para pedestres sobre o rio Forqueta)
6/17 Ana Emilia Faleiro usa um barco para transportar suprimentos em uma rua inundada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 26 de maio de 2024. O estado sulista do Rio Grande do Sul está se recuperando de semanas de inundações sem precedentes que deixaram mais de 160 pessoas mortas, cerca de 100 desaparecidas e 90% de suas cidades inundadas, incluindo a capital do estado, Porto Alegre. (Foto de Anselmo Cunha / AFP) (Ana Emilia Faleiro usa um barco para transportar suprimentos em uma rua inundada em Porto Alegre)
7/17 Um homem limpa sua casa atingida pela enchente no bairro Sarandi, um dos mais atingidos pelas fortes chuvas em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, em 27 de maio de 2024. Cidades e áreas rurais no Rio Grande do Sul foram atingidas por semanas por um desastre climático sem precedentes de chuvas torrenciais e enchentes mortais. Mais de meio milhão de pessoas fugiram de suas casas, e as autoridades não conseguiram avaliar completamente a extensão dos danos. (Foto de Anselmo Cunha / AFP) (Um homem limpa sua casa atingida pela enchente no bairro Sarandi)
8/17 Alcino Marks limpa corrimãos sujos de lama após a enchente no bairro Sarandi, um dos mais atingidos pelas fortes chuvas em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, em 27 de maio de 2024. Esta é a segunda enchente histórica que Marks enfrenta aos 94 anos de idade. A primeira foi em 1941, quando ele morava no centro de Porto Alegre. Cidades e áreas rurais no Rio Grande do Sul foram atingidas por semanas por um desastre climático sem precedentes de chuvas torrenciais e enchentes mortais. Mais de meio milhão de pessoas fugiram de suas casas, e as autoridades não conseguiram avaliar completamente a extensão dos danos. (Foto de Anselmo Cunha / AFP) (Alcino Marks limpa corrimãos sujos de lama após a enchente no bairro Sarandi)
9/17 (Um trabalhador usa uma mangueira de alta pressão para remover a lama acumulada pela enchente)
10/17 (Destruição no RS após chuvas e enchentes)
11/17 Vista da estátua de José e Anita Garibaldi na inundada Praça Garibaldi, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, tirada em 14 de maio de 2024. Foto de Anselmo Cunha / AFP (Vista da estátua de José e Anita Garibaldi na inundada Praça Garibaldi)
12/17 Resgate de pessoas afetadas pelas chuvas no Rio Grande do Sul, na Base Aérea de Santa Maria (RS). (Resgate de pessoas afetadas pelas chuvas no Rio Grande do Sul, na Base Aérea de Santa Maria)
13/17 Eduardo Leite: “Faremos de tudo para garantir que a reconstrução preserve nossas vocações” (Eduardo Leite: “Faremos de tudo para garantir que a reconstrução preserve nossas vocações”)
14/17 Imagem aérea de sobrevoo do presidente Lula em Canoas (RS) (Imagem aérea de sobrevoo do presidente Lula em Canoas (RS))
15/17 (Imagem aérea da destruição no Rio Grande do Sul - Força Aérea Brasileira/Reprodução)
16/17 Setor elétrico: Aneel propõe medidas para melhorar resposta a desastres causados pelas mudanças climáticas para melhorar resposta a desastres causados pelas mudanças climáticas. (Vista aérea mostrando a estrada ERS-448 inundada em Canoas)
17/17 (Vista aérea mostrando a estrada ERS-448 inundada em Canoas, no estado do Rio Grande do Sul)
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