Dinheiro traz felicidade? O que diz a ciência
Afinal, dinheiro traz felicidade?
Um artigo desse mês publicado no blog do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), unidade de pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), por Flávio Ataliba e Silvana Dourado, explora o questionamento.
Amparado por décadas de evidências empíricas, o estudo analisa grandes volumes de literatura acadêmica no assunto e chega à conclusão de que, apesar da importância do dinheiro, a ideia de que uma alta renda necessariamente trará satisfação pessoal e psicológica é errônea — e uma noção perpetuada por processos psicológicos e estruturas sociais.
Além desse argumento central, o artigo cita ainda que compreender essa dinâmica “é fundamental para repensar tanto decisões pessoais quanto o desenho de políticas públicas voltadas à melhoria das condições de vida”, sugerindo que uma boa compreensão da relação entre renda e felicidade pode vir a ter impactos positivos em escopos tanto individuais quanto macroeconômicos.
O paradoxo de Easterlin
Paradoxo de Easterlin questiona premissas centrais do capitalismo moderno (Getty Images/Divulgação)
O estudo é centrado nas contribuições acadêmicas do economista Richard Easterlin, então professor da Universidade da Pensilvânia, que em meados da década de 1970 começou a debater o tópico pela primeira vez, analisando o período desde os anos 1940 até os anos 70.
Essa época representou uma fase de alta expansão econômica nos EUA do pós-guerra, marcada pela ascensão da classe média americana, avanços tecnológicos, e aumento no consumo – medidores que indicam forte crescimento econômico.
Todavia, ao longo das décadas estudadas, níveis médios reportados de felicidade e satisfação com a vida se mantiveram constantes no país. Essa constância, ao contradizer as expectativas econômicas propostas pelo capitalismo, gerou um paradoxo que levou o nome do pesquisador.
Questionando algumas das premissas centrais do capitalismo moderno, o paradoxo de Easterlin tem implicações profundas e iniciou uma gama de pesquisa sobre a correlação entre renda, felicidade e desenvolvimento econômico, pautas importantes que jogam luz não só em escolhas individuais, mas também no funcionamento do capitalismo como um todo.
Em 1995, um novo estudo por Easterlin aprofundou as controvérsias do assunto ao demonstrar empiricamente que aumentos gerais de renda não se traduzem necessariamente em um aumento de satisfação geral.
Quando todos em uma sociedade melhoram suas situações ao mesmo tempo, argumenta o artigo, o ganho relativo individual tende a desaparecer, e efeitos gerais tendem a se neutralizarem.
“Essa lógica implica que a prosperidade coletiva, quando amplamente difundida, deixa de ser percebida como avanço e passa a ser incorporada como novo padrão de normalidade. O resultado é uma sensação de estagnação subjetiva mesmo em contextos de crescimento econômico expressivo”, explicam os pesquisadores da FGV em seu estudo.
Em outras palavras, quando o ganho é geral em vez de individual, sentimentos de prosperidade não são tão explícitos.
Isso se deve à tendência de indivíduos a se comparar uns aos outros socialmente, avaliando sua situação não em termos absolutos, mas em termos relacionais, tendo como referência seus grupos sociais imediatos.
Uma melhoria geral na situação econômica da classe média, por exemplo, não necessariamente se traduziria em um aumento da felicidade desse grupo de pessoas, já que o progresso individual perde impacto quando sobrepujado por avanços gerais. No fim do dia, seguindo essa lógica, o que realmente importa não é o nível de prosperidade alcançado, mas a posição ocupada em comparação aos demais indivíduos.
Absorvendo conquistas na normalidade
Nossa rotina tende a absorver importantes conquistas na normalidade (Thinkstock)
A lógica apresentada pelo paradoxo de Easterlin é amplificada hoje, especialmente pelas redes sociais, aponta o estudo.
Essas plataformas, por ampliarem drasticamente o espaço para comparações e exposição a padrões de vida elevados, reduzem drasticamente “o impacto emocional das conquistas e descolam continuamente o patamar de satisfação”.
Dessa forma, quaisquer melhorias tendem a parecer insuficientes, pois o referencial tende a avançar de maneira ainda mais acelerada.
Muitas conquistas, seja na forma de bens, desenvolvimentos profissionais ou aumentos de renda, apesar de trazer uma satisfação imediata, são rapidamente absorvidas pela rotina, sendo substituídas por novos objetivos e expectativas, segundo os pesquisadores.
O que pode vir a ser um importante marco em um ponto rapidamente passa a ser tratado como normalidade cotidiana, tornando-se fonte de frustração em um fenômeno que banaliza conquistas importantes, contribuindo para métricas constantes nos níveis de felicidade, independentemente de melhorias econômicas tanto do ponto de vista individual quanto no cenário macroeconômico. Além disso, essa frustração também perpetua um ciclo eterno de busca por novas conquistas materiais ou profissionais.
Esse padrão, realça o estudo, não se limita ao nível individual – conforme a economia e padrões de vida crescem, o nível de transtornos de ansiedade e depressão, mesmo em economias desenvolvidas, também cresce. Essa descoberta, corroborada por uma série de outros estudos voltados especificamente ao cenário da saúde mental do mundo, aponta que progresso material por si só não se converte proporcionalmente em ganhos emocionais.
Então, o que determina nosso bem-estar?
Ao ultrapassar um certo nível de renda, especialistas julgam que a felicidade pode ser atingida por meios muito mais comuns e menos voláteis do que apenas dinheiro (Getty Images)
Estudos subsequentes ao paradigma estabelecido por Easterlin nos anos 1970 e, subsequentemente, nos anos 1990, revelam que renda tem, de fato, uma correlação positiva com felicidade, mas que os fatores intrínsecos por trás disso são muito mais matizados do que se pensava, tornando a correlação algo pouco linear.
Por exemplo, para pessoas em situações precárias ou de pobreza, o dinheiro tem maior impacto emocional, pois resolve, de maneira imediata, problemas existenciais fundamentais, mas um aumento de renda se torna progressivamente menos pronunciado em seus efeitos na felicidade à medida que o padrão de vida se eleva.
“Em termos práticos, ganhos de renda para indivíduos em situação de maior vulnerabilidade geram impactos expressivos, enquanto aumentos equivalentes para aqueles que já vivem com conforto produzem efeitos marginais”, diz o estudo.
À medida que necessidades básicas são superadas, a capacidade do dinheiro de gerar ganhos adicionais significativos e satisfação diminui, pois passa a competir com outros fatores por relevância, que ocupam papéis cada vez mais centrais ao dinheiro. Dentre esses, os mais relevantes apontados pelo estudo incluem vínculos sociais, senso de propósito, autonomia e saúde emocional.
“Essas evidências reforçam a ideia de que a renda melhora a vida, mas dentro de limites claros. A partir de determinado nível, o protagonismo do bem-estar se desloca do dinheiro para dimensões não monetárias da experiência humana. A felicidade emerge, assim, não como resultado da acumulação de ganhos, mas como uma vivência moldada por relações, valores e contexto social”, diz o estudo, sugerindo que uma versão muito mais estereotípica e menos subjetiva de felicidade pode ser alcançada independentemente do dinheiro após um certo nível de renda, que varia por país e contextos individuais.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: