Dólar fecha a R$ 5,15, maior nível em dois meses, com payroll forte e Selic no radar

Por Mitchel Diniz 5 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Dólar fecha a R$ 5,15, maior nível em dois meses, com payroll forte e Selic no radar

O dólar comercial encerrou esta sexta-feira, 5, cotado a R$ 5,1566, em alta de 1,78%, perto da máxima do dia, de R$ 5,1571. É o maior nível de fechamento desde 3 de abril. Na semana, a moeda americana acumulou valorização de 2,26% frente ao real.

O movimento refletiu uma onda de aversão a risco que se abateu sobre os mercados após a divulgação do relatório de emprego americano de maio, com 172 mil vagas criadas no setor não-agrícola, mais que o dobro das 80 mil esperadas pelos economistas. O dado levou o mercado a reprecificar a trajetória de juros nos Estados Unidos, ampliando as apostas em uma alta do Fed ainda em 2026 e fortalecendo o dólar globalmente.

Real entre os piores emergentes no dia

Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, o desempenho da moeda brasileira nesta semana é explicado por uma combinação de vetores. O ponto de partida é o próprio perfil do real. "O real é um ativo de risco. Ele performa bem quando ativos de risco vão bem", disse à Exame. "O que a gente viu essa semana foi uma semana de realização de lucros, especialmente agora nesta sexta-feira, catalisada por um resultado abaixo do esperado da Broadcom, que gerou um selloff [movimento de venda] em ações de tecnologia."

Embora diversas moedas emergentes tenham sofrido com a valorização do dólar, o real figurou entre os piores desempenhos do dia. Castro Alves aponta que o fluxo de capital para emergentes, que sustentou o real nos meses anteriores, perdeu força e e mudou de destino. "Além de ter diminuído, as rotas foram mais direcionadas para aqueles que se beneficiam da infraestrutura de IA — Coreia, Taiwan, China — enquanto mercados como o brasileiro, mais focados em commodities tradicionais, não foram muito bem."

Selic, risco fiscal e eleições entram na conta

Além do choque externo, o câmbio doméstico foi pressionado por fatores locais. O Bank of America revisou suas projeções e passou a esperar apenas mais um corte da Selic em 2026, encerrando o ano em 14,25%. O banco cita deterioração da inflação corrente, com o Boletim Focus apontando IPCA de 5,09% para 2026, e projeta uma pausa no ciclo de cortes que deve durar até meados de 2027. A perspectiva de diferencial de juros menor entre Brasil e EUA reduz a atratividade dos ativos brasileiros para o capital estrangeiro.

Para Castro Alves, o risco político e fiscal também pesou. "A incerteza e o risco político obviamente aumentam a cada semana que passa, à medida que você chega mais perto da eleição. Nesta semana, em especial, vimos medidas de cunho fiscal para tentar gerar algum benefício eleitoral. Isso aumenta a percepção de risco fiscal, que é um detrator para a moeda local."

Payroll aquece debate sobre Fed e Tesouro americano

O estrategista acrescenta o payroll e o conflito geopolítico à lista de vetores do dia. "A gente teve uma criação de postos de trabalho bastante forte, bastante robusta. Puxou os yields [retorno da renda fixa americana], mostra que a economia americana está forte, atrai capital para lá. Juro lá acaba atraindo e fortalecendo o dólar." Sobre o conflito no Oriente Médio, ele avalia que "a dificuldade de fechar um cessar-fogo que vai ficando cada vez mais distante ou menos respeitado também impacta negativamente" os mercados.

Os juros dos títulos do Tesouro americano dispararam em linha com a reprecificação. A taxa do papel de 10 anos subiu acima de 4,5% e a do título de 30 anos avançou acima de 5% — reforçando a atratividade dos ativos americanos e drenando capital dos mercados emergentes. Mais cedo, quando a moeda já operava acima de R$ 5,10, o analista Vinícius Flores, da Stratton Capital, resumiu o mecanismo: "O dólar está reagindo a uma expectativa maior de aumento de taxa de juros por conta de uma economia mais aquecida, que pode gerar mais inflação e requerer que o Fed suba juros."

Para onde vai o dólar

O BofA simulou que, com o dólar estabilizado em torno de R$ 5,15, a inflação brasileira ao fim do horizonte relevante sobe para 3,6%, acima da meta de 3% — estreitando ainda mais o espaço para novos cortes da Selic. A trajetória do câmbio dependerá, nos próximos pregões, da leitura do mercado sobre a reação do Fed ao payroll e da reunião do Copom prevista para a semana que vem.

Castro Alves resume a semana com equilíbrio. "Isso representa ativos de risco performando mal. O real, como ativo de risco, performou mal também, em consonância com esses outros fluxos. Acho que é uma realização normal, saudável até para o mercado", avalia, lembrando que o S&P 500 encerrou sua primeira semana negativa em dez. Analistas apontam que o real ainda conta com fatores de suporte — como o diferencial de juros elevado e os termos de troca favoráveis — mas o ambiente externo se tornou claramente menos favorável do que era há uma semana.

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