Dólar volta a 'passear' pelos R$ 5,20: recuperação ou alta momentânea?

Por Mitchel Diniz 3 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Dólar volta a 'passear' pelos R$ 5,20: recuperação ou alta momentânea?

Nos negócios desta segunda-feira, 2, o dólar voltou a explorar um território por onde não passava há quase duas semanas: o patamar dos R$ 5,20. No melhor momento do dia, a moeda chegou a R$ 5,21, reduzindo uma boa parte da queda acumulada em 2026. Não sustentou esses ganhos até o final do pregão, mas ao menos terminou a primeira sessão de março com valorização de 0,62%, a R$ 5,16.

"O dólar e o iene tendem a ser os ativos de refúgio preferidos, em um ambiente de aversão ao risco e alta do petróleo", avisa o Goldman Sachs, em relatório publicado após o ataque coordenado dos Estados Unidos e Israel ao Irã e uma escalada de conflitos no Oriente Médio. Situações de guerra trazem incertezas para o horizonte dos investidores, que se afastam de ativos mais arriscados — como o mercado de ações — e buscam proteção naqueles que parecem mais seguros.

A história já mostrou que esse é o tipo de situação propícia para valorização do dólar.

"Em momentos de maior tensão geopolítica, há uma migração natural de capital para ativos considerados mais seguros, o que fortalece a moeda americana frente às divisas emergentes. A depender da evolução e do eventual agravamento do conflito, esse movimento pode se intensificar no curto prazo", afirma Marcos Weigt, diretor de tesouraria do Banco Travelex.

Mas uma parte do mercado e está cética e acredita que o conflito no Oriente Médio pode não ser capaz de inverter a tendência de enfraquecimento que a moeda vem apresentando, inclusive em relação ao real. "Não vejo sinalização de dólar destravando, mudando de patamar e só subindo daqui em diante. A reação do mercado é um movimento de aversão ao risco global e não a questões econômicas que estejam impactando moedas em si", afirma Cristiane Quartaroli economista chefe do Ouribank.

Em 2026, até agora, o dólar comercial acumula queda de 5,9% em relação ao real. No período de 12 meses, a baixa é de 12,7%.

"Os próximos dias vão definir se os investidores estão buscando segurança nos EUA ou fora dele. Ainda é incerto para dizer como os acontecimentos recentes vão afetar o fluxo estrangeiro", afirma Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. O ponto nevrálgico do impacto do conflito no mercado financeiro é o petróleo, cujos preços dispararam após os bombardeios no Oriente Médio e os bloqueios no estreito de Ormuz, que escoa 20% da produção global da matéria-prima. Se a commodity fica mais cara, a tendência também é de alta nos preços dos combustíveis e de elevação da inflação global. Fica mais difícil baixar juros assim.

"Com esse capítulo extra de tensão e incerteza internacional, pode haver uma nova calibração de expectativas para o próximo encontro do Copom", complementa Tavares. E se os Estados Unidos decidem por elevar os juros, isso reduz o diferencial em relação a Selic, justamente um dos atrativos para o estrangeiro, que capta dinheiro com taxas lá fora para investir aqui, em um movimento conhecido como carry trade.

"A continuidade dessa alta [do dólar] vai depender do quanto o cenário internacional continua pressionando moedas emergentes, além da capacidade do Brasil de preservar juros reais elevados, disciplina fiscal e previsibilidade política, que foram exatamente os fatores que permitiram a apreciação do real ao longo de 2025", afirma Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil.

O economista André Galhardo explica que a dinâmica cambial vai depender da extensão do conflito no Oriente Médio e o quanto os bombardeios podem afetar a estrutura de petróleo e gás na região.

"Por hora, a gente trata esse movimento como transitório, mas isso não está garantido. O conflito pode se estender por muitas semanas e causar estragos que sejam difíceis de contornar. Isso poderia, sim, criar uma outra dinâmica cambial. Mas a gente não deve basear o nosso olhar no comportamento desta segunda-feira ou desta semana, pois as coisas estão agudas demais e pode gerar interpretações equivocadas. O câmbio é incerto por natureza e ficou ainda mais", diz Galhardo.

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