Dona da Brastemp e Dow facilitam descarte de geladeiras com coleta 100% gratuita
Agora, descartar uma geladeira velha passa a ser mais fácil — e sustentável. Essa é a proposta da detentora das marcas Brastemp, Consul e KitchenAid, a fabricante de eletrodomésticos Whirlpool. A companhia acaba de firmar uma parceria com a Dow, gigante de produtos químicos, focada em acelerar a logística reversa de refrigeradores, e juntas já investiram R$ 3 milhões no projeto, que deve reverter em descontos para o consumidor.
O trabalho ainda conta com parceria do Instituto Akatu, organização sem fins lucrativos que trabalha o consumo consciente e os conceitos de reciclagem e economia circular com a população, especialmente entre o público mais jovem.
Douglas Reis, diretor jurídico, assuntos corporativos e ESG da Whirlpool na América Latina, afirmou em entrevista exclusiva à EXAME que o trabalho começou a partir de um questionamento: as políticas de reciclagem e descarte de resíduos atuais consideram o lado do consumidor? A economia circular deveria acrescentar tarefas e custos a ele?
“Quando um celular quebra, é fácil levar até um ponto de coleta. Com uma geladeira, material grande e pesado, a situação já se complica”, explica. Ele afirma que o descarte desse material em São Paulo muitas vezes fica por conta do próprio cliente. “O frete de um item desse porte pode chegar a R$ 400, um alto valor por um item antigo, que se revendido não custaria nem R$ 50.”
Outro lado dessa iniciativa são os materiais perigosos envolvidos nos componentes de um refrigerador. Edilson Machado, diretor de marketing para o negócio de poliuretanos da Dow, conta que os itens de linha branca, que abrangem freezers e geladeiras, contam com gases de efeito estufa (e muitas vezes com algum grau de impacto sobre a camada de ozônio), como os HFCs e hidrocarbonetos.
“A Dow entra no projeto com a recuperação de materiais e a complexidade técnica, já que envolve processos químicos não tão simples", conta.
Os poliuretanos, tipo de plástico utilizado no revestimento de câmaras frias em freezers e refrigeradores, também são uma questão para a indústria química. “Somos o único fabricante desse tipo de espuma no Brasil e queremos reduzir o impacto que ele pode causar no meio ambiente”, explica.
Como vai funcionar?
Na prática, os clientes com materiais para descarte poderão entrar no site da Whirlpool e agendar a retirada de materiais com mais de 30 quilogramas diretamente de casa. O projeto vai abranger todos os mais de 5500 municípios em todo o país, incluindo parceiros estratégicos para realizar a retirada e distribuição dos itens até os centros de reciclagem, como os Correios.
Para o consumidor, o processo vai ser 100% gratuito, o que era uma preocupação para as companhias. Reis, da Whirlpool, afirma que a iniciativa foi desenvolvida de forma a não repassar o custo do programa para os clientes, uma vez que a conjuntura econômica já sobrecarrega o seu poder de compra.
“O consumidor geralmente precisa de uma fonte de financiamento para adquirir bens duráveis, como refrigeradores e geladeiras. Com a taxa Selic a 14,75% e a maior dificuldade para acessar crédito, se eu ainda repasso o custo da logística reversa para o consumidor, inviabilizo a compra” explica.
Douglas Reis, da Whirlpool: "Não existe chance de sermos tão grandes se não cuidarmos do ESG da operação"
Ao todo, o programa já exigiu investimentos de R$ 3 milhões, divididos igualmente entre as companhias. “A logística reversa exige um custo significativo, mas quando nos unimos com parceiros como a Dow, consigo reduzir as despesas e acessar outros consumidores”, conta Reis.
Machado, da Dow, explica que o programa envolve outras parcerias estratégicas por conta dos desafios estruturais do Brasil. “A logística reversa por aqui já é complexa, mas ainda temos regiões de culturas muito diferentes e conhecimentos sobre a reciclabilidade muito distintos”, conta.
O programa ainda está sob desenvolvimento, mas a expectativa é que comece a operar com a união das companhias nos próximos meses. A expectativa é ainda incluir um mecanismo de “trade-in”, quando o item velho pode ser devolvido ao fabricante, e como incentivo, o cliente recebe descontos significativos.
Após a coleta, os refrigeradores e outros equipamentos pesados vão ser destinados para centros de economia circular e os resíduos serão reinseridos na cadeia produtiva.
Histórico de economia circular
O programa não surgiu da noite para o dia, mas a partir da união de duas ações já existentes.
A Whirlpool conta desde 2023 com um projeto que facilita o descarte consciente de eletrônicos, mesmo os de outras marcas. O trabalho conta com a parceria da Circular Brain, que garante a rastreabilidade e conformidade ambiental durante a gestão dos resíduos.
Até 2025, o projeto já tinha processado mais de 111 mil toneladas de resíduos eletroeletrônicos, ou seja, cerca de 2,5 milhões de produtos foram destinados à reciclagem.
Edilson Machado, da Dow: "A Dow entra no projeto com a recuperação de materiais e a complexidade técnica, já que envolve processos químicos não tão simples"
Na Dow, o Reuse já trabalha a reciclagem de geladeiras. Trata-se de um projeto criado com a Panasonic, Ecoassist e a Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos, além do também parceiro nesta ação, Instituto Akatu. Os clientes que solicitam a coleta de suas geladeiras usadas recebem até 20% de descontos.
Educação ambiental
Lucio Vicente, líder do Instituto Akatu, explica que para a organização, todo produto é um instrumento em potencial para orientar a sociedade sobre a sustentabilidade, reciclagem e logística reversa. O trabalho da organização passa por um programa de educação para o consumo consciente que utiliza metodologia pedagógica própria para mobilizar comunidades escolares em diversas regiões do país.
“Nosso papel é levar conhecimento sobre esse tema, um desafio que vai além das comunidades da Dow e da Whirlpool. O trabalho passa por levar para as pessoas a maior participação e conexão afetiva com a responsabilidade, que é compartilhada nesse tema”, diz Vicente.
Para ele, um dos pontos de conexão com o público é entender que a troca de um equipamento obsoleto por outro novo também é uma ação de eficiência energética, e a partir da demanda do consumidor, incentivar mais ações no mercado de eletroeletrônicos. “Podemos impulsionar o mercado para que possa responder mais rapidamente às demandas sustentáveis do cliente. O consumidor começa a incluir questões ambientais no processo de escolha de um produto, o que inclui o tema na prioridade das empresas", conta.
O Instituto Akatu já alcançou 9 mil escolas com programas de educação ambiental e sustentável.
Edilson Machado, da Dow, espera que o movimento possa inspirar outras companhias, parceiras ou concorrentes, a acelerar sua jornada pela sustentabilidade nos processos.
"Acreditamos que toda a população valoriza cada vez mais a sustentabilidade, então aceitamos o risco de investir em um projeto de alto custo como esse. Esperamos que daqui a alguns anos já tenhamos conceitos como esse tidos como naturais", explica.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: