E se a Selic parar de cair? Cautela do Copom mexe com dinâmica de investimentos

Por Rebecca Crepaldi 30 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
E se a Selic parar de cair? Cautela do Copom mexe com dinâmica de investimentos

O corte de 0,25 ponto percentual pelo Comitê de Política Monetária (Copom) mostra um colegiado mais cauteloso. Diante de revisões da inflação para cima, reflexo de questões externas, como a Guerra no Irã, o preço do petróleo ficou pressionado e, consequentemente, o de diversos segmentos, como alimentos e transportes, também.

Neste cenário, há quem considere plausível o Copom parar de cortar juros – apesar do último Boletim Focus apontar para uma taxa a 13% ao final de 2026. “Isso até já vem sendo incorporado pelo mercado”, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto investimentos. E o impacto seria direto nos investimentos.

A inflação de serviços segue resistente e as expectativas ainda não estão totalmente ancoradas. No exterior, juros altos nos EUA limitam cortes no Brasil, enquanto o risco fiscal por aqui mantém o prêmio de risco elevado. Com isso, o Banco Central reforça uma postura dependente de dados, sem sinalizar um ciclo contínuo de queda dos juros. “Uma pausa não seria uma surpresa”, afirma Lima.

Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, concorda: o Copom ainda pode continuar cortando juros, mas a chance de uma pausa mais à frente aumentou. “Mais importante o que a decisão, é o tom do comunicado. Se o Copom reforçar cautela, dependência dos dados e preocupação com expectativas, o mercado tende a entender que o ciclo de queda pode ser mais curto ou mais lento do que se imaginava”, pontua.

Como os investimentos podem ser afetados?

A principal mudança é que a carteira precisa continuar mais defensiva por mais tempo, com a renda fixa predominando, principalmente os pós-fixados. Claro, as ações tendem a sofrer o impacto, ficando menos atrativas porque o valuation delas depende diretamente da taxa de desconto.

“Com juros altos, o valor presente dos fluxos de caixa cai, comprimindo múltiplos. Ao mesmo tempo, a renda fixa passa a oferecer retorno elevado com menor risco, o que reduz o fluxo para bolsa. Existe também um efeito operacional: juros mais altos encarecem crédito, desaceleram consumo e pressionam margens das empresas”, afirma Lima.

No entanto, isso não quer dizer que a renda variável deve ser deixada de lado – só em 2026, o Ibovespa acumula alta de aproximadamente 17%, a frente da renda fixa. “Mas a renda variável vai precisar ser mais seletiva”, aponta Belitardo. Segundo ele, empresas mais sensíveis à Selic, como varejo, construção, small caps, companhias muito endividadas e negócios que dependem de crédito barato para crescer, tendem ser as mais prejudicadas.

Na outra ponta, o foco deve estar em empresas com geração de caixa, baixa alavancagem, previsibilidade de receita, poder de repasse de preço e exposição a setores essenciais, como energia elétrica, saneamento, infraestrutura básica, concessões, logística, rodovias e bancos bem capitalizados.

Fundos de investimentos

Para os fundos multimercados, há duas visões. A primeira, é que o ambiente fica mais desafiador para quem depende de bolsa ou fechamento da curva de juros. A segunda é que, justamente por poderem navegar nesses ativos, podem captar valor mesmo em um ambiente mais volátil. “Eles ainda podem performar bem quando têm gestão ativa, flexibilidade para operar juros, inflação, câmbio, exterior e proteção de carteira”, explica Belitardo.

Nos fundos de ações, o cenário exige mais seletividade. Gestores focados em qualidade, geração de caixa, infraestrutura, energia elétrica, saneamento, concessões, logística, rodovias e bancos sólidos tendem a navegar melhor do que estratégias concentradas em empresas muito alavancadas ou dependentes de juros menores. “Fundos de ações sofrem com compressão de múltiplos e menor fluxo, exigindo maior qualidade na seleção de ativos”, comenta Lima.

Nos FIIs, o efeito é mais direto porque a renda fixa, com o CDI alto, vira uma concorrente forte dos dividendos dos fundos imobiliários. Com isso, os investidores exigem mais retorno para manter esses ativos na carteira. Esse cenário pesa principalmente nos fundos de tijolo que já têm imóveis vazios (vacância), nos que estão mais endividados e também naqueles que dependem mais da alta do preço da cota do que da renda recorrente de aluguéis.

“Já os FICs FIDC seguem bem posicionados, desde que sejam bem estruturados, porque capturam CDI elevado com prêmio adicional de crédito, subordinação, garantias e diversificação de recebíveis. Como alguns FICs FIDC vêm entregando retorno médio próximo de 5% no ano, a classe continua muito relevante em um ambiente de Selic alta e Copom cauteloso”, destaca Belitardo.

Renda fixa

A renda fixa, por sua vez, é a mais beneficiada se os juros pararem de cair. “O investidor continua recebendo um carrego elevado com menor volatilidade. Nesse cenário, nossa preferência segue em fundos de renda fixa pós-fixada, fundos de crédito privado high grade, FICs FIDC bem estruturados, e estratégias com boa análise de crédito, liquidez e diversificação”, destaca Belitardo.

O ponto, segundo ele, é que se a Selic permanece alta por mais tempo, o CDI continua remunerando muito bem e reduz a necessidade de buscar risco de forma agressiva. “O investidor não precisa sair correndo para bolsa, FIIs ou prefixados longos. A tomada de risco deve ser gradual, via fundos e gestores especializados, sem abrir mão de liquidez e preservação de capital.”

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