Em Bonn, presidência da COP31 lança meta de eletrificar 35% da energia global até 2035

Por Lia Rizzo 10 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Em Bonn, presidência da COP31 lança meta de eletrificar 35% da energia global até 2035

A presidência da COP31 apresentou nesta terça-feira, 9, em Bonn, o carro-chefe da sua Agenda de Ação para a cúpula da Turquia, em novembro.

Trata-se de uma meta global de eletrificação batizada de "35x35", que propõe que a eletricidade passe a responder por 35% de toda a energia consumida no uso final até 2035, ante pouco mais de 20% hoje.

A mudança exige eletrificar carros, aquecimento e indústria hoje movidos a combustíveis fósseis. O anúncio chega com a conferência em ritmo acelerado.

Logo no primeiro dia da 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da UNFCCC (SB64), os países aprovaram por consenso o programa de trabalho das negociações, um passo que na última reunião de Bonn só veio no fim do segundo dia.

Com essa pauta formal adotada, as discussões avançam para os itens que podem orientar o caminho até Antalya. "É uma meta coletiva e mais ambiciosa", avalia Velma Gregório, diretora-executiva da ÓGUI, que acompanha os encontros na Alemanha.

Eletrificar para depender menos do fóssil

O objetivo se apoia em estudos da Agência Internacional de Energia (IEA) e da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA) e foi desenhado para sustentar a implementação do Acordo de Paris e manter o planeta numa rota compatível com o limite de 1,5 °C de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais.

Para dimensionar o salto, vale olhar de onde se parte. A eletricidade responde hoje por cerca de 20% do consumo final de energia, fatia que avançou apenas três pontos percentuais desde 2010, segundo a Enerdata.

Chegar a 35% até 2035 exige ganhar cerca de 14 pontos em pouco mais de dez anos, ritmo quase cinco vezes maior que o recente

O argumento central é de segurança. Ao substituir combustíveis importados por energia elétrica de fontes limpas, governos reduziriam a exposição à volatilidade de preços que voltou a pesar sobre as economias.

"Ao eletrificarmos o dia a dia, do transporte aos edifícios e à indústria, podemos proteger famílias e empresas da volatilidade dos mercados de energia", disse Murat Kurum, presidente designado da COP31 e ministro do Meio Ambiente, Urbanização e Mudanças Climáticas da Turquia.

Na véspera, ao discursar na plenária de abertura, Kurum já havia alertado para o risco de seguir dependente de combustíveis fósseis importados e para a urgência de apressar a transição para fontes limpas.

Lixo, edifícios e financiamento

A presidência propôs também propôs cortar pela metade crescimento do desperdício global até 2035, dentro de uma aposta no conceito de resíduo zero.

Só o desperdício de alimentos responde por 10% das emissões globais, sobretudo por causa do metano, gás cerca de 80 vezes mais potente que o dióxido de carbono no efeito estufa.

Outra proposta surge na prioridade Cidades Resilientes, com a redução de ao menos 25% na intensidade do consumo de energia no setor de edificações até 2035, apresentada como forma de blindar famílias e empresas da alta nas contas.

A Turquia detalhou ainda a Ponte de Implementação Climática (Climate Implementation Bridge), mecanismo pensado para aproximar prioridades nacionais de clima, economia e desenvolvimento e fazer o dinheiro chegar aos territórios com mais rapidez.

Para dar lastro técnico ao "35x35", a presidência encomendou à IEA, em parceria com a Austrália, de produzir dois relatórios especiais, um para mapear os caminhos até a meta e outro para medir os ganhos da redução de resíduos e de uma gestão mais circular.

O trabalho dá sequência a uma análise anterior feita com a IRENA sobre como eletrificar pode acelerar a saída dos fósseis.

Uma arquitetura que vem de longe

A nova meta se encaixa numa sequência de compromissos firmados em cúpulas recentes. Na COP28, os países acordaram triplicar a capacidade de renováveis e fazer a transição para longe dos fósseis.

Na COP29, avançaram sobre armazenamento e modernização das redes e fixaram a mobilização de ao menos US$ 300 bilhões por ano até 2035 para ações em países em desenvolvimento.

Já a presidência brasileira da COP30, realizada em novembro último, alinhou a Agenda de Ação aos resultados do primeiro Balanço Global e organizou o trabalho em seis eixos temáticos.

Na leitura de Velma Gregório, a meta de eletrificação representa o próximo passo dessa arquitetura. "A ideia é traduzir compromissos já assumidos em mudança real na forma como a energia é consumida, da casa das pessoas à indústria", resume.

O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, celebrou a continuidade: "a eletrificação já impulsionou um aumento global na energia limpa, fomentando o crescimento e a criação de empregos", afirmou, elogiando a Turquia e a Austrália por manterem o avanço aberto pelo Brasil.

Para o ministro de Mudanças Climáticas e Energia da Austrália, Chris Bowen, eletrificar "é uma das prioridades práticas para a COP31, porque é a forma mais rápida de reforçar a segurança energética, reduzir as emissões e diminuir os custos".

Mesmo com esse apoio, é preciso lembrar que cada nação parte de um ponto diferente e seguirá seu próprio ritmo, com a necessidade de atenção especial às economias em desenvolvimento, com apoio técnico e financeiro.

O objetivo declarado é deixar um legado que sobreviva à cúpula e siga adiante na COP32, que acontece em 2028 na Etiópia.

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