Espécies só de fêmeas desafiam regra da reprodução
A reprodução sexual domina o reino animal, mas algumas espécies seguem um caminho totalmente diferente. Em vez de depender da mistura genética entre macho e fêmea, certos animais conseguem gerar descendentes praticamente sozinhos — formando populações compostas apenas por fêmeas.
Um novo estudo genético publicado na revista científica Nature e destacado pelo jornal The Conversation ajudou cientistas a entender como esses animais conseguem sobreviver por tanto tempo mesmo com baixa diversidade genética.
Molinésia-amazona: peixe formado apenas por fêmeas se reproduz por clonagem - Foto: Jon McIntyre/iNaturalist
Como funciona a reprodução sem machos
A maioria das espécies animais se reproduz sexualmente, combinando material genético do pai e da mãe. Esse processo aumenta a diversidade genética e melhora as chances de adaptação diante de mudanças ambientais.
Já espécies assexuadas produzem descendentes praticamente idênticos à mãe. Esse mecanismo é chamado de partenogênese, conhecido popularmente como “nascimento virginal”.
Segundo pesquisadores, esse tipo de reprodução costuma trazer desvantagens evolutivas importantes. Populações clonadas tendem a ser mais vulneráveis a doenças e podem acumular mutações prejudiciais ao longo do tempo.
Mesmo assim, algumas espécies conseguem sobreviver por milhares — ou até milhões — de anos.
Peixe clonado intriga cientistas há décadas
A molinésia-amazona é um dos exemplos mais estudados desse fenômeno. O peixe surgiu do cruzamento entre duas espécies aparentadas e se reproduz por um mecanismo chamado ginogênese.
Nesse caso, o esperma de um macho ainda é necessário para ativar o desenvolvimento do óvulo, mas o material genético masculino não é incorporado aos filhotes. Ou seja: os descendentes continuam sendo clones da mãe.
Pesquisadores descobriram que um processo chamado conversão gênica pode ajudar a espécie a evitar o acúmulo acelerado de mutações prejudiciais. O mecanismo substitui partes danificadas do DNA e ajuda a preservar genes considerados benéficos.
Segundo os cientistas, isso pode explicar como a espécie conseguiu sobreviver por mais de 100 mil anos.
Lagartos formados apenas por fêmeas
Outro caso conhecido envolve os lagartos-chicote do Novo México (Aspidoscelis neomexicana). Nessas populações, praticamente todos os indivíduos são fêmeas. Diferentemente da molinésia-amazona, elas não precisam de esperma para iniciar o desenvolvimento dos óvulos.
Ainda assim, os animais mantêm comportamentos semelhantes ao acasalamento, que ajudam a estimular a ovulação.
Esses lagartos chegaram a ganhar notoriedade na cultura popular e se tornaram símbolo de discussões sobre diversidade sexual entre animais. A reprodução assexuada já foi registrada em diferentes grupos de vertebrados.
Além de peixes e lagartos, cientistas observaram casos de partenogênese em tubarões-martelo, dragões de komodo, salamandras e até aves como condores-da-Califórnia.
Em algumas espécies, o fenômeno ocorre apenas ocasionalmente. Em outras, representa a principal forma de reprodução.
Cromossomos extras podem ajudar espécies clonadas
Pesquisadores também estudam como algumas dessas espécies mantêm diversidade genética suficiente para sobreviver. A cobra-cega-brahmina (Indotyphlops braminus), por exemplo, possui três cópias de cada cromossomo — em vez das duas habituais.
Segundo cientistas, esse excesso de material genético pode ajudar a reduzir os impactos da clonagem prolongada. Fenômenos semelhantes também aparecem em outros animais, como esturjões e salmões, que possuem múltiplas cópias cromossômicas.
Apesar dos avanços recentes, cientistas afirmam que a evolução dessas espécies ainda levanta muitas dúvidas.
A expectativa é que novas pesquisas genéticas ajudem a explicar como animais exclusivamente femininos conseguem sobreviver por períodos tão longos mesmo enfrentando limitações evolutivas consideradas importantes pela biologia moderna.
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