Esta livraria mineira vende cada vez mais livros, não para de abrir lojas e fatura R$ 1 bi
O mineiro Marcus Teles não poderia estar mais satisfeito com uma previsão que não se concretizou. Durante anos, o mercado repetiu que os adolescentes iriam parar de ler e que o livro de papel viraria um item de colecionador. Ele apostou no caminho oposto. A aposta ajudou a Livraria Leitura, rede que preside, a alcançar cerca de 1 bilhão de reais em faturamento em 2025, segundo estimativas do mercado.
O setor editorial atravessou uma década turbulenta. Grandes redes entraram em crise, o comércio eletrônico avançou e a leitura passou a disputar espaço com redes sociais e streaming. Ainda assim, a Leitura seguiu abrindo lojas e ampliando vendas.
Os números de 2025 mostram essa trajetória. A rede começou o ano com 121 unidades e terminou com 133, um saldo de 12 novas livrarias. No período, as vendas cresceram cerca de 15%, com avanço de 9% nas mesmas lojas, segundo o presidente da companhia.
Parte do impulso veio de um público que durante anos foi tratado como um risco para o setor. “O que mais cresceu nos últimos anos foi o livro infantil, juvenil, mangás e quadrinhos. São justamente os jovens que mais estão ligados ao livro físico”, afirma Teles.
O desempenho reforça uma tese que guia a empresa há décadas: a livraria física ainda tem espaço para crescer no Brasil. Para 2026, a rede pretende abrir cerca de 10 novas lojas e ampliar sua presença em cidades médias que ainda têm pouca oferta de livrarias.
Um milhão de livros a mais
O avanço nas vendas aparece também no volume de títulos comercializados. Em 2025, a rede vendeu mais de 14 milhões de livros, acima da projeção inicial de 13 milhões.
Um fenômeno inesperado ajudou no resultado: os livros de colorir voltados para adultos e jovens. Segundo Teles, quase 1 milhão de exemplares desse tipo foram vendidos ao longo do ano.
Hoje, os livros ainda são o coração do negócio. Eles representam cerca de 63% das vendas da rede, enquanto itens de papelaria respondem por 28% a 29% do faturamento. O restante vem de jogos, brinquedos educativos e produtos do universo geek.
A expansão da Leitura segue uma lógica relativamente simples: procurar cidades grandes que ainda não têm livrarias relevantes.
Nos últimos anos, a rede passou a olhar com mais atenção para municípios com mais de 300 mil habitantes, muitas vezes com shoppings estruturados, mas sem uma livraria de porte.
“Tem muitas cidades desse tamanho que não têm livraria ou só têm lojas religiosas. Quando encontramos um shopping bom e entendemos que a região comporta uma livraria, abrimos”, diz Teles.
As lojas costumam ter entre 250 e 300 metros quadrados, menores que as antigas megastores que dominaram o setor nos anos 2000, como Saraiva e Cultura. O formato reduz custos e permite levar unidades para cidades onde grandes livrarias nunca chegaram.
Outra parte da estratégia é transformar a livraria em um espaço de convivência. Além de livros, as lojas oferecem papelaria, jogos de tabuleiro, presentes e eventos culturais.
Todos os anos, a rede organiza cerca de 3.000 eventos em suas lojas pelo país, entre encontros com autores, lançamentos e atividades culturais.
Para Teles, essa experiência física ajuda a explicar por que o livro impresso segue dominante mesmo após décadas de avanço digital. “No mundo inteiro, mais de 90% dos livros vendidos ainda são impressos”, afirma.
Qual é a história da Leitura
Tudo começou em 1967, quando os primos Emídio e Lúcio Teles abriram um sebo na Galeria Ouvidor, no centro de Belo Horizonte.
O nome original era "Lê", uma referência às iniciais dos fundadores. O negócio cresceu e, nos anos 1980, Marcus Teles, irmão de Emídio, entrou na operação. Hoje, ele comanda a maior livraria do país.
O grande salto veio em 1998, com a primeira megastore no BH Shopping. Dois anos depois, a Leitura saiu de Minas e abriu a primeira loja em Brasília.
Uma das grandes sacadas da rede foi apostar em um modelo de sócio-gerente, parecido com o que Outback e Coco Bambu fazem na área de restaurantes. Quem assume uma unidade vira dono de uma parte do negócio e cuida da operação no dia a dia. Hoje, 70% das lojas funcionam assim.
“Se o dono da loja está ali, ele percebe o que o público quer. Se for uma loja perto de faculdade, pode trazer mais livros didáticos. O resultado? As vendas sobem”, afirma Teles.
Figurinhas da Copa na estratégia de 2026
O calendário de 2026 deve trazer um impulso adicional para as vendas da rede. A Leitura é uma das principais revendedoras no país dos produtos da Panini, editora italiana especializada em quadrinhos e colecionáveis.
Com a Copa do Mundo, a expectativa da empresa é vender cerca de 20 milhões de pacotinhos de figurinhas ao longo do ano.
O movimento costuma gerar uma onda de consumidores nas lojas físicas — um fenômeno que se repete a cada quatro anos e movimenta centenas de milhões de reais no varejo de colecionáveis.
Se o ritmo de crescimento se mantiver, a Leitura deve continuar ampliando presença no país. Para uma empresa fundada em Belo Horizonte há quase seis décadas, a aposta de que as pessoas continuariam comprando livros físicos parece cada vez menos improvável.
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