'Estamos entrando na era da ergonomia mental', diz fundador do Zenklub
Empresas passaram décadas discutindo ergonomia física. Ajustaram cadeiras, mesas, iluminação e postura no escritório para reduzir dores, afastamentos e desgaste corporal. Agora, para Rui Brandão, fundador da plataforma de saúde emocional Zenklub, o mercado corporativo começa a enfrentar outro desafio: a ergonomia mental. O tema apareceu com força no RH Summit 2026, realizado nos dias 5 e 6 de maio no Expo Center Norte, em São Paulo, evento que reuniu cerca de 6.000 participantes presenciais e colocou inteligência artificial, saúde mental e NR-1 entre os principais debates do setor de RH neste ano.
Durante entrevista no RH Summit, Brandão afirmou que a nova NR-1 representa uma mudança importante porque força empresas a revisarem processos, comunicação, metas e organização do trabalho diante do aumento dos casos de adoecimento mental. Para ele, o Ministério do Trabalho reconheceu um problema que deixou de ser pontual e passou a afetar diretamente produtividade, afastamentos e funcionamento das empresas. “O Ministério do Trabalho está olhando para uma epidemia de doenças mentais que a gente não pode negar que existe”, diz. Segundo ele, a discussão vai muito além de ansiedade e depressão diagnosticadas. “Eu não falei de ansiedade, eu não falei de depressão. Eu falei de metas, papéis, responsabilidades, qualidade de comunicação e reconhecimento.”
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Na avaliação do executivo, muitas organizações ainda tratam saúde mental como responsabilidade individual dos funcionários ou como uma questão limitada ao comportamento dos líderes diretos. Para ele, isso impede mudanças mais profundas no ambiente de trabalho. “O convite é olhar para isso como um pilar importante da organização.” Brandão afirma que a NR-1 cria justamente uma oportunidade para as empresas repensarem a estrutura do trabalho num momento em que inteligência artificial, hiperconectividade e pressão por produtividade aceleram o desgaste emocional das equipes.
O que muda com a nova NR-1
A nova NR-1 amplia a responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais e saúde mental no ambiente corporativo. O tema ganhou espaço central no RH Summit deste ano porque muitas empresas ainda tentam entender como transformar exigências regulatórias em processos concretos de gestão. Para Brandão, a norma funciona como um “empurrão” necessário para acelerar mudanças que já deveriam estar acontecendo dentro das organizações. “Às vezes o regulatório tem que dar um empurrãozinho”, afirma.
Segundo ele, a principal transformação da NR-1 está no foco preventivo. Em vez de atuar apenas quando surgem afastamentos ou casos graves de adoecimento, a proposta agora é revisar os elementos cotidianos que criam desgaste psicológico dentro das empresas. “O Ministério do Trabalho trouxe um framework que dá clareza para as empresas sobre responsabilidades e processos.” Na visão do fundador do Zenklub, a norma desloca o debate da doença para a organização do trabalho. “Muitas vezes a gente trata o líder como vilão”, afirma. “Mas é uma oportunidade de rever sistemas, processos e produtos de RH.”
Brandão compara o momento atual à transformação vivida pelas empresas nos anos 1990 com a ergonomia física. Naquela época, companhias passaram a investir em cadeiras ajustáveis, mesas adequadas e ginástica laboral depois que problemas físicos relacionados ao trabalho começaram a crescer. Agora, segundo ele, o movimento é semelhante, mas voltado à cognição e à saúde emocional. “O que a gente está falando agora é ergonomia mental.”
Excesso de estímulos digitais virou fonte de desgaste
Durante a entrevista, Brandão afirmou que o ambiente digital criou um nível de sobrecarga cognitiva que muitas empresas ainda não conseguem medir nem administrar. Segundo ele, a rotina corporativa atual combina excesso de informação, múltiplas plataformas, reuniões simultâneas e comunicação permanente ao longo do dia. “Hoje as pessoas vivem com 100 abas abertas, três reuniões ao mesmo tempo e 50 mensagens no WhatsApp.”
Na avaliação dele, o problema não está apenas no volume de trabalho, mas no esforço mental necessário para alternar atenção constantemente entre tarefas, mensagens e plataformas digitais. “Isso cria um sobrepeso na nossa cognição”, diz. O executivo afirma que essa dinâmica se intensificou justamente no momento em que empresas aceleraram digitalização, trabalho remoto e adoção de inteligência artificial sem redesenhar a forma como as pessoas trabalham.
Para Brandão, parte da resistência das empresas ao tema acontece porque saúde mental ainda é vista como uma pauta nova dentro das organizações. “Como tudo que é novo, cria resistência.” Mesmo assim, ele afirma que ignorar a questão se tornou inviável diante do aumento dos afastamentos e do desgaste emocional nas equipes. “Antes de a IA assumir o lugar de todo mundo, a gente precisa repensar os processos de pessoas.”
Por que o Brasil vive uma discussão mais intensa sobre saúde mental
Durante a conversa, Brandão comparou o cenário brasileiro com outros países onde doenças mentais ligadas ao trabalho também cresceram nos últimos anos. Segundo ele, o problema é global e já vinha sendo alertado pela Organização Mundial da Saúde antes mesmo da pandemia. “Doenças mentais cresceram exponencialmente nos últimos anos”, afirma.
No Brasil, porém, o executivo enxerga fatores específicos que tornam o tema ainda mais sensível. Ele cita insegurança urbana, dificuldade de acesso à saúde, longos deslocamentos e condições econômicas instáveis como elementos que aumentam pressão emocional sobre trabalhadores. “As pessoas estão expostas a insegurança, deslocamentos longos e dificuldade de acesso à saúde.” Na prática, afirma, empresas acabam assumindo responsabilidades que muitas vezes extrapolam o ambiente profissional. “A empresa acaba cuidando de uma parcela maior da vida do indivíduo para compensar a falta de Estado.”
Ao mesmo tempo, Brandão afirma que o Brasil possui uma vantagem cultural em relação a outros mercados. Segundo ele, os brasileiros falam sobre emoções e terapia com mais abertura do que em muitos países europeus e nos Estados Unidos. “O brasileiro é muito mais aberto para saúde mental do que muitos outros países.” Para ele, isso ajuda empresas a avançarem mais rapidamente em programas ligados ao tema. “As pessoas falam dos sentimentos com muito mais naturalidade.”
IA pode mudar a forma como empresas organizam trabalho
A inteligência artificial apareceu no RH Summit diretamente ligada às discussões sobre produtividade, cultura organizacional e saúde mental. Para Brandão, IA e NR-1 caminham na mesma direção porque ambas obrigam empresas a revisarem estrutura, comunicação e fluxo de trabalho. “As duas coisas falam sobre repensar contexto, processos e fluidez da organização.”
Segundo ele, a tecnologia pode ajudar empresas a reduzir tarefas repetitivas e eliminar etapas desnecessárias entre áreas. “Como eu removo trabalho repetitivo? Como eu reduzo fricção?” Na avaliação do executivo, o principal impacto da IA não será apenas automação, mas a reorganização da forma como as equipes trabalham juntas.
Ele explica que muitas empresas ainda operam em estruturas sequenciais, onde uma área depende da entrega da outra para avançar. “A área de produto fazia uma parte, depois passava para design, depois tecnologia, depois qualidade.” Com inteligência artificial, afirma, essas etapas começam a acontecer de maneira integrada. “Essas pessoas agora podem trabalhar juntas.” Segundo Brandão, isso reduz tempo entre ideia e execução. “O tempo de uma ideia virar resultado vai ser muito mais rápido.”
Por que o RH deveria liderar a adoção de IA
Na visão do fundador do Zenklub, muitas empresas ainda tratam inteligência artificial apenas como responsabilidade das áreas de tecnologia. “Hoje eu vejo o CTO liderando isso.” Para ele, esse modelo limita o potencial de transformação da IA porque a tecnologia não altera apenas sistemas, mas também estruturas organizacionais, comunicação e dinâmica entre equipes.
Por isso, Brandão afirma que o RH deveria assumir papel central nesse processo. “O RH deveria estar fervoroso estudando e usando IA.” Segundo ele, a área de pessoas tem condições de liderar mudanças mais profundas na organização do trabalho porque já atua diretamente sobre cultura, desenho de equipes e gestão de impacto humano.
Ele afirma que o objetivo não deveria ser substituir pessoas, mas redefinir papéis dentro de empresas mais automatizadas. “Não numa ótica de tirar pessoas, mas de descobrir qual é o novo papel delas.”
O próprio Zenklub passou recentemente por uma reorganização interna baseada nessa lógica. A empresa eliminou a separação tradicional entre áreas de design, produto e tecnologia, criando estruturas multidisciplinares focadas em problemas específicos de negócio. “Virou tudo uma coisa só.” Segundo Brandão, o modelo reduziu ruído de comunicação e aumentou sensação de pertencimento nas equipes. “As pessoas se sentem muito mais donas do problema.”
Zenklub amplia atuação para saúde integral
Fundado em 2016, o Zenklub nasceu focado em saúde emocional e terapia online. Hoje, segundo Brandão, a empresa atende 12.000 companhias e impacta cerca de 40 milhões de brasileiros. Nos últimos anos, a operação ampliou atuação para outras áreas de saúde dentro do grupo Conexa, plataforma de saúde digital da qual o Zenklub faz parte.
“A gente hoje olha para saúde de forma integral”, afirma. Segundo ele, a empresa reúne atualmente 36 especialidades médicas e tenta conectar saúde mental e saúde física dentro da mesma jornada de cuidado. “A saúde mental não anda separada do resto da saúde.”
Brandão afirma que muitos casos de ansiedade, por exemplo, aparecem junto de alterações metabólicas, alimentação inadequada e problemas clínicos diversos. “Às vezes a pessoa está com ansiedade e glicemia descompensada.” Por isso, o objetivo da empresa passou a ser integrar profissionais de diferentes áreas no acompanhamento dos pacientes. “Psicólogo, nutricionista e endocrinologista trabalhando juntos.”
Segundo ele, a tecnologia ajuda justamente a simplificar esse processo e aumentar adesão ao tratamento. “O grande desafio é ajudar a pessoa a entender o que ela tem e aderir ao tratamento certo.”
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