Famílias do agro e das joias investem em prédios de luxo de R$ 1,3 bi no litoral de SC
Joias e grãos deram lugar a apartamentos de luxo no novo negócio de duas famílias empresárias. A Boutiq foi criada pelos Sigel e Pozzobon para atuar no mercado imobiliário catarinense, com foco em residências de alto padrão e um banco com seis terrenos avaliado em R$ 2 bilhões.
A incorporadora nasce da união de dois grupos com trajetórias construídas longe da construção civil. A família Sigel tem origem no segmento joalheiro e, nos últimos anos, também passou a atuar com gestão patrimonial e investimentos. Já os Pozzobon construíram uma operação no agronegócio, com produção de grãos no Centro-Oeste.
A estreia acontece em um dos mercados imobiliários mais aquecidos do país. No litoral norte de Santa Catarina, cidades como Itapema, Balneário Camboriú e região movimentaram R$ 13,47 bilhões em VGV em 2025, segundo levantamento da plataforma DWV.
Itapema respondeu por cerca de R$ 4,3 bilhões desse total. É justamente nesta cidade que a Boutiq lançará um de seus dois primeiros projetos. O outro ficará em Piçarras.
Juntos, os empreendimentos representam um VGV (valor geral de vendas) estimado em R$ 1,3 bilhão. A previsão é iniciar as obras em 2027, com investimento de R$ 580 milhões na construção, sem considerar os terrenos.
Por que as famílias se uniram no ramo imobiliário
A criação da Boutiq começou a partir da relação empresarial entre as duas famílias. Os Sigel atuam no mercado joalheiro desde o fim dos anos 1990, quando criaram operações de fabricação e varejo no segmento de luxo.
No início dos anos 2000, tiveram duas lojas com marca própria, uma em Curitiba e outra no Rio de Janeiro, mas atualmente segue como designer e fornecedora para varejistas do segmento de alto padrão.
Mais recentemente, ampliaram sua atuação para investimentos e gestão patrimonial. Nesse processo, Christian Sigel passou a acompanhar mais de perto o mercado imobiliário, principalmente como investidor.
“Quando a gente começou a trabalhar com várias famílias, conhecemos esse setor da construção. Chegamos a fazer alguns negócios, financiando obras, mas nunca incorporando", afirma Siegel, CEO da Boutiq.
"A incorporação já vinha numa vertente dos nossos investimentos, mas não tínhamos o comando sobre escolha de terreno, localização e estratégia”.
Do outro lado da sociedade estão os Pozzobon, família com atuação no agronegócio desde os anos 1970. A operação produz grãos em Goiás e, segundo a empresa, cultiva cerca de 20 mil hectares por ano em áreas próprias.
A aproximação entre os grupos levou à decisão de criar um novo negócio em conjunto, mantendo as operações originais de cada família.
“Ambas as famílias continuam com seus negócios principais. Eles no agro, nós na joalheria e na gestão financeira. Mas juntamos as expertises para entrar em um novo setor”, diz Sigel.
Como nasce a Boutiq
Apesar de desenvolver os empreendimentos, a Boutiq não pretende atuar como construtora. A empresa vai contratar companhias especializadas para executar cada obra e manter uma estrutura própria mais enxuta.
Hoje, a incorporadora tem três funcionários diretos e trabalha com uma rede de parceiros. Apenas no projeto de Itapema, cerca de 18 escritórios participam do desenvolvimento.
“A gente vem do mercado financeiro. Aprendemos muito a trabalhar com parceria. Cada projeto é diferente, então não faz sentido ter uma estrutura pesada. Montamos equipes específicas para cada empreendimento”, afirma Sigel.
O modelo também segue a lógica financeira dos sócios, acostumados a trabalhar com capital próprio e gestão de longo prazo.
Em seus projetos, a Boutiq pretende estruturar fundos próprios para financiar as obras e não depender de financiamento bancário tradicional. A empresa também planeja oferecer alternativas de financiamento aos compradores.
“Como temos capital próprio, sabemos o que queremos fazer. Não precisamos buscar funding para viabilizar a obra. O recurso estará disponível em um fundo próprio”, diz.
O desafio de disputar o mercado de luxo em Santa Catarina
A escolha por Santa Catarina veio da combinação entre demanda, crescimento e características específicas do litoral norte. O primeiro projeto da empresa será em Itapema, em uma área herdada pela família Sigel. A partir dali, a companhia passou a buscar novos terrenos na região.
Para Christian, a localização é o principal fator de diferenciação em um mercado com forte concorrência.
“Existe uma oferta muito grande em Itapema. É um mercado muito pujante, com muitas construtoras e projetos. Mas acreditamos que localização é o mais importante. Estamos em uma área frente-mar, em um ponto com potencial de crescimento”, afirma.
A empresa quer se posicionar no segmento de luxo — e não apenas no chamado alto padrão.
“Hoje todo mundo fala alto padrão. A gente entende que existe um alto padrão vazio, sem conceito. O nosso foco é entregar um produto pensado para um público específico”, diz.
O empreendimento em Itapema terá uma torre de 50 andares, com apartamentos de aproximadamente 280 metros quadrados, além de duplex e penthouses. Já o projeto em Piçarras terá três torres, com unidades entre 115 e 380 metros quadrados.
Além dos dois projetos iniciais, a Boutiq afirma ter outros terrenos em prospecção, inclusive fora de Santa Catarina. A estratégia é acompanhar regiões onde compradores buscam imóveis de segunda residência.
A empresa, porém, afirma que pretende crescer de forma gradual.
“Como temos um banco de terrenos próprio e esses dois projetos já representam um VGV expressivo, a gente não tem pressa. Queremos fazer bem feito”, afirma Sigel.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: