Fiji e Tuvalu vão sediar pré-COP31 sob acordo entre Austrália e Turquia; entenda

Por Letícia Ozório 26 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Fiji e Tuvalu vão sediar pré-COP31 sob acordo entre Austrália e Turquia; entenda

Fiji e Tuvalu sediarão reuniões preparatórias pré-COP31, a conferência global do clima marcada para 2026, informou nesta quinta-feira o Fórum das Ilhas das Pacífico.

A decisão faz parte do arranjo diplomático firmado entre Austrália e Turquia para a organização do próximo ciclo de negociações climáticas da ONU.

Pelo acordo, Fiji receberá a pré-COP31, enquanto Tuvalu sediará uma reunião especial entre líderes.

A definição ocorre após meses de impasse entre Austrália e Turquia sobre quem sediaria a conferência das Nações Unidas — principal fórum global de avanço da ação climática.

Em novembro, os dois países chegaram a um modelo inovador de “sede dividida”, formalizado em documento apresentado durante a COP30, em Belém.

Como será a COP31

A Turquia será a anfitriã física da COP31, incluindo a cúpula de chefes de Estado e de governo. Coube ao país indicar o presidente da conferência, o ministro do Meio Ambiente, Planejamento Urbano e Mudanças Climáticas da Turquia, Murat Kurum, e Samed Agırbaş como Climate Champion (Campeão de Alto Nível do Clima).

Já a Austrália liderará o processo diplomático como “presidente das negociações”. O representante australiano será designado também como vice-presidente da COP31 e terá autoridade exclusiva sobre a condução das tratativas: convocará consultas ao longo do ano, selecionará ministros e cofacilitadores, elaborará textos preliminares e atuará como ponto focal junto à UNFCCC no que diz respeito às negociações.

Turquia e Austrália se comprometeram a manter consultas permanentes durante todo o processo e a resolver eventuais divergências por meio do diálogo.

Embora incomum, não é a primeira vez que a conferência ocorre em um país sob a presidência de outro. Em 2019, a COP25 foi realizada na Espanha, mas sob presidência chilena, após o Chile desistir de sediar o encontro em meio a protestos internos.

Pré-COP no Pacífico

O acordo também prevê a realização de uma pré-COP em um país insular do Pacífico com apoio australiano — agora confirmada em Fiji, com um componente especial em Tuvalu.

A Austrália, em parceria com as nações insulares, definirá a agenda do encontro e será responsável por sua condução.

“Estou satisfeito em anunciar que, após um processo de consulta política, a reunião pré-COP31 será realizada em Fiji em outubro de 2026, com um componente especial de líderes em Tuvalu”, afirmou Jeremiah Manele, presidente do PIF e primeiro-ministro das Ilhas Salomão, em comunicado nas redes sociais.

“Essa é uma oportunidade de mostrar que, quando se trata de mudança do clima, as nações mais vulneráveis podem liderar — e as mais poderosas podem ouvir”, acrescentou.

O PIF informou ainda que Palau sediará um “evento climático especial” durante a 55ª reunião de líderes do bloco, em setembro.

A ministra das Relações Exteriores da Austrália, Penny Wong, classificou os encontros preparatórios como uma “oportunidade sem precedentes de trazer o mundo ao Pacífico para vivenciar de perto os impactos e as soluções climáticas”. Segundo ela, “os países do Pacífico são líderes históricos na ação climática, e suas vozes são centrais para moldar a resposta global”.

Na linha de frente da crise

A escolha de Fiji e Tuvalu como sedes da pré-COP é parte da urgência as nações enfrentam: as duas estão entre as mais vulneráveis às mudanças do clima.

Em Fiji, estimativas indicam elevação do nível do mar entre 0,21 e 0,48 metro até o fim do século, com taxas observadas de 4,6 a 6 milímetros por ano desde os anos 1990 — acima da média global.

Cerca de 90% da população e da atividade econômica do país concentram-se em áreas costeiras baixas, o que torna o avanço do mar uma ameaça macroeconômica. O governo já realocou comunidades inteiras, como a vila de Vunidogoloa, transferida em 2014 após erosão costeira e intrusão salina.

Em Tuvalu, a vulnerabilidade é ainda mais crítica. O país, antes pouco conhecido para além do continente, entrou nas discussões globais depois que o seu ministro das relações exteriores, Simon Kofe, discursou para COP26 com água na altura dos joelhos. O objetivo era demonstrar como o nível do mar vêm subindo rapidamente.

O arquipélago tem apenas 26 km² distribuídos em nove ilhas, nenhuma delas acima de cinco metros de altitude. Projeções apontam que um aumento de 20 a 40 centímetros no nível do mar ao longo de um século pode tornar grandes partes do território inabitáveis. Eventos de marés extremas e tempestades já inundam áreas baixas, enquanto a intrusão salina compromete aquíferos e a agricultura.

O país também já implementou estratégias de mobilidade internacional, ou os chamados "refugiados climáticos". Um exemplo é o Tratado Falepili firmado com a Austrália, que permitirá a até 280 tuvaluanos por ano migrar para viver, estudar e trabalhar no território australiano, com possibilidade de residência permanente.

Dados da ONU indicam que, desde 1993, pequenos Estados insulares do Pacífico registram em média um elevação do nível do mar entre 3,3 e 12 milímetros por ano, intensificando riscos à segurança hídrica, alimentar e habitacional.

A agenda da pré-COP inclui dedicar atenção especial às necessidades de financiamento para adaptação, incluindo iniciativas como o Pacific Resilience Facility, voltado ao fortalecimento da resiliência climática na região.

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