Golpes financeiros evoluem com IA e desafiam bancos, aponta estudo
A inteligência artificial se tornou um dos fatores que mais aceleram a evolução dos golpes. Embora ataques de phishing e engenharia social continuem liderando a lista das tecnologias mais utilizadas por grupos criminosos, citados por 41% dos executivos do setor financeiro, a IA aparece logo atrás, mencionada por 36%, e é vista como uma força que está tornando os esquemas de fraude mais sofisticados, rápidos e difíceis de detectar.
É o que mostra uma pesquisa da BioCatch com 1.440 profissionais de gestão de fraudes, prevenção a crimes financeiros, risco e compliance em instituições financeiras de 25 países, coletados em janeiro. O levantamento revela que 88% dos entrevistados acreditam que a inteligência artificial aumentou a sofisticação dos golpes, enquanto 80% afirmam que suas instituições já enfrentaram ataques realizados com agentes de IA.
Segundo os pesquisadores, a tecnologia está criando um novo cenário para bancos e consumidores, em que distinguir o que é legítimo do que foi criado artificialmente se torna cada vez mais complexo.
"Os mesmos recursos de automação que permitem que os bancos acelerem as solicitações de atendimento ao cliente e eliminem processos manuais por meio da automação também capacitam fraudadores a acelerar a velocidade, o volume e a sofisticação de seus ataques", destacam os pesquisadores.
América Latina lidera exposição a ataques com IA
A preocupação é ainda maior na América Latina. A região registrou o maior percentual de instituições que afirmam ter enfrentado ataques utilizando agentes de IA: 89%, acima da Europa, Oriente Médio e África (79%), Ásia-Pacífico (79%) e América do Norte (75%).
Além disso, os bancos latino-americanos também reportam a maior escalada nas tentativas de fraude. Segundo o estudo, 89% dos entrevistados da região afirmam que as tentativas de golpes contra clientes aumentam ano após ano.
A inteligência artificial tem contribuído diretamente para esse avanço. Globalmente, os maiores contribuintes para o aumento das tentativas de fraude nas organizações dos respondentes são: tentativas de golpe através de plataformas de pagamento instantâneoo (59%), a adoção de ferramentas de IA e automação (45%) e um aumento em fraudes/golpes autorizados (45%).
Os pesquisadores observam que criminosos estão usando IA generativa para produzir e-mails fraudulentos mais convincentes, vídeos e áudios falsificados e documentos capazes de enganar tanto sistemas tradicionais de detecção quanto usuários comuns.
A conta da fraude fica cada vez mais alta
O avanço dos golpes tem custado caro às instituições financeiras. Quase metade dos entrevistados (48%) afirma que seus bancos gastam pelo menos US$ 10 milhões por ano para combater fraudes e crimes financeiros. Em 24% dos casos, o investimento ultrapassa US$ 25 milhões anuais.
Apesar desse esforço, os resultados ainda estão longe do esperado. Mais de três quartos dos executivos entrevistados (76%) afirmam que as perdas financeiras causadas por fraudes continuam aumentando ano após ano, uma alta significativa em relação aos 59% em 2025.
Para os pesquisadores, isso evidencia uma corrida desigual entre instituições financeiras e organizações criminosas, que evoluem rapidamente sem as mesmas exigências regulatórias impostas ao setor bancário.
"Fraudes, golpes e lavagem de dinheiro hoje representam um problema sistêmico conectado. As instituições financeiras ao redor do mundo parecem reconhecer que combater essa ameaça exigirá uma solução integrada", afirmam.
O impacto vai além do dinheiro
Os prejuízos não se limitam às perdas financeiras. O estudo mostra que as fraudes também afetam diretamente a confiança dos clientes nos bancos. Quase três quartos dos entrevistados (74%) relatam observar impactos negativos no engajamento ou na confiança dos consumidores após incidentes de fraude ou golpe.
Mais de dois terços (68%) dos líderes bancários acreditam que a forma como suas organizações lidam com prevenção e reembolso de fraudes já resultou em perda de clientes.
Entre eles, 56% atribuem essa fuga à falta de reembolso dos prejuízos sofridos pelos consumidores. Outros 44% apontam que o excesso de etapas de segurança e fricção nas operações também afasta clientes.
O levantamento identificou ainda um descompasso entre a percepção dos bancos e a realidade enfrentada pelo setor. Embora 83% dos entrevistados estejam confiantes de que suas medidas atuais são suficientes para preservar a confiança dos consumidores, os indicadores de perdas e evasão de clientes continuam avançando.
Bancos apostam em colaboração para conter o problema
Diante da escalada das fraudes, cresce o consenso de que nenhuma instituição conseguirá combater o problema sozinha. O estudo mostra que 85% dos entrevistados acreditam que o compartilhamento de inteligência em tempo real entre bancos teria impacto positivo no combate a fraudes, golpes e crimes financeiros.
Hoje, 74% das instituições já compartilham informações sobre contas suspeitas ao menos semanalmente com outras organizações financeiras, enquanto 29% realizam essa troca diariamente. Para os pesquisadores, a velocidade do compartilhamento é tão importante quanto a informação em si.
"Somente a inteligência em tempo real oferece às instituições financeiras a chance de identificar e interromper golpes antes que qualquer dinheiro saia da conta da potencial vítima", destacam. A expectativa é que esse tipo de colaboração se torne cada vez mais relevante à medida que criminosos utilizam IA para automatizar ataques e ampliar seu alcance global.
O desafio do futuro: diferenciar humanos de máquinas
Se hoje a inteligência artificial já amplia a sofisticação dos golpes, o próximo desafio do setor financeiro será distinguir ações legítimas de atividades fraudulentas realizadas por agentes autônomos.
Segundo a pesquisa, 72% dos entrevistados acreditam que será muito difícil diferenciar transações legítimas assistidas por IA de operações maliciosas conduzidas por agentes inteligentes. Além disso, 84% consideram que os agentes de IA podem se tornar a maior vulnerabilidade explorável por fraudadores já nos próximos 12 meses.
Ao mesmo tempo, a tecnologia também é vista como parte da solução. Bancos já utilizam ou planejam utilizar agentes de IA para monitoramento de transações, detecção de anomalias, autenticação de identidade e análise comportamental.
Para os pesquisadores, o futuro da segurança financeira dependerá justamente dessa disputa: de um lado, criminosos utilizando IA para escalar ataques; do outro, instituições financeiras recorrendo à mesma tecnologia para identificar ameaças antes que elas causem prejuízos. O resultado dessa corrida, afirmam, será decisivo para a preservação da confiança digital nos próximos anos.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: