Guerra no Irã expõe fragilidade do mercado de fertilizantes no Brasil, diz setor
Quatro anos após seu lançamento, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) avançou em algumas iniciativas, mas ainda não conseguiu reduzir de forma significativa a dependência do Brasil por insumos importados. A avaliação é de Bernardo Silva, diretor-executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert).
Por ser um dos principais produtores agrícolas do mundo — especialmente de soja, milho e cana-de-açúcar —, a demanda por fertilizantes no Brasil costuma ser elevada para manter a produtividade alta. Só essas culturas respondem por 73% do consumo total.
Por aqui, os fertilizantes mais utilizados pertencem ao complexo NPK — nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). O potássio responde por cerca de 38% do consumo nacional, seguido pelo fósforo e pelo nitrogênio, com 33% e 29%, respectivamente.
Segundo ele, a urgência do tema voltou ao centro do debate com a guerra no Irã, que reacendeu preocupações sobre a segurança de fornecimento de fertilizantes e expôs, mais uma vez, a forte dependência do Brasil de insumos importados — especialmente em produtos estratégicos como a ureia, amplamente utilizada na produção de grãos como o milho.
Em 2025, o consumo de fertilizantes no país foi de 49 milhões de toneladas, alta de 7,7% em relação a 2024. Desse montante, 43 milhões de toneladas foram importações, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). A produção nacional no período foi de 7 milhões de toneladas, alta de 2,5% em relação a 2024, mas 6,5% abaixo do produzido em 2022.
Para o executivo, 'uma coordenação política de alto nível' deve impulsionar a agenda do setor. O PNF tem uma meta ambiciosa: diminuir de 85% para 50% a participação dos insumos importados no consumo nacional até 2050.
Leia a entrevista
O PNF foi anunciada há quatro anos com a ambição de reduzir para 50% a dependência do Brasil em relação aos insumos. Agora, com o conflito no Irã, o assunto volta à tona, com o agro brasileiro preocupado — mais uma vez — com os custos. Na sua avaliação, o PNF avançou?
A nosso ver, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) vem avançando sim, embora seus resultados ainda não apareçam de forma imediata, porque estamos falando de uma agenda industrial, logística, regulatória e tecnológica de maturação longa. Neste sentido, o PNF prevê metas até 2050, com marcos intermediários em 2030 e 2040.
O que destaca como avanço?
Um deles foi a evolução do Convênio ICMS 26/2021, que corrigiu gradualmente distorções históricas no regime tributário do setor e contribuiu para um ambiente mais isonômico entre a produção nacional e o produto importado. Esse processo contou com protagonismo do Confaz e apoio do Confert, do MDIC e do Ministério da Agricultura. Outro passo relevante foi o lançamento, em 2025, do Centro de Excelência em Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Cefenp), voltado à inovação, pesquisa e capacitação para reduzir a dependência tecnológica do país e acelerar a articulação entre governo, empresas, academia e o agronegócio.
Essas iniciativas já apontam para uma nova fase da política industrial de fertilizantes no país?
Também houve avanços em frentes regulatórias importantes, como bioinsumos, aperfeiçoamento de regras técnicas e criação de condições mais favoráveis à competitividade de produtos nacionais, inclusive fosfatados. Ao mesmo tempo, avançam discussões estruturais sobre gás natural, hidrogênio de baixo carbono e biometano, essenciais para viabilizar novos projetos no setor. A retomada da produção nitrogenada pela Petrobras também reforça a percepção de que o país voltou a colocar a produção doméstica de fertilizantes na agenda estratégica.
Mas esses avanços já são percebidos pela cadeia produtiva?
Os efeitos dessas medidas não são sentidos da noite para o dia. Fertilizantes exigem investimento intensivo, previsibilidade regulatória, energia competitiva, logística eficiente e acesso a matérias-primas. Além disso, o setor vem sofrendo pressões externas que vão além de conflitos geopolíticos pontuais, como a disputa global por insumos estratégicos vinculados também à transição energética. Dizer que o PNF 'não avançou' seria simplificar excessivamente o problema. O que existe é uma combinação entre avanços institucionais reais e uma conjuntura internacional extremamente adversa, que exige, além da agenda estrutural, medidas emergenciais de alívio de custo e estímulo ao investimento. Nesse ponto, o país precisa acelerar ações de efeito mais imediato, como a revisão do aumento do PIS/Confins sobre fertilizantes e insumos agrícolas e logísticos que pressionam o preço final ao produtor, além do destravamento de instrumentos de fomento à expansão da capacidade produtiva nacional, como o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), que segue parado no Congresso Nacional.
Nesse cenário, o país está preparado para lidar com eventuais choques de oferta em relação aos insumos?
De forma objetiva, o Brasil ainda não está plenamente preparado para absorver choques relevantes de oferta em fertilizantes. O país avançou no diagnóstico do problema (muito bem qualificado) pelos recentes relatórios do Mapa e na coordenação institucional do tema pelo Confert e Casa Civil, mas a nossa resiliência produtiva ainda está em construção e merece urgência para concretização. No caso da ureia, essa vulnerabilidade é mais visível, pois afeta um produto amplamente utilizado pela agricultura nacional, mas que, desde a paralisação total em 2024, não produzimos nacionalmente.
Mas o problema não se limita a ureia, certo?
A ureia é o mais sensível porque depende diretamente de gás natural e de fluxos logísticos hoje pressionados pela guerra no Oriente Médio. A preocupação, porém, também alcança amônia, enxofre e fosfatados, além de possíveis efeitos indiretos sobre outros insumos, como o cloreto de potássio, em um mercado global concentrado. Em 2025, por exemplo, a produção doméstica de amônia ficou em nível mínimo e os estoques ao fim de dezembro caíram mais de 75% na comparação anual. Em uma crise prolongada, o risco deixa de ser apenas de preço e passa a envolver também disponibilidade física, prazo de entrega e condições comerciais para a safra.
E como a atual guerra no Irã deixa o agronegócio brasileiro?
Mais do que tornar visível uma fragilidade crônica, o conflito expõe de forma concreta o custo estratégico de o Brasil sustentar uma potência agroalimentar com uma base produtiva ainda fortemente dependente de insumos críticos externos. Essa crise é mais uma evidência concreta de algo que o Sinprifert vem apontando desde 2023: o custo estratégico de o Brasil sustentar sua potência agroalimentar com base produtiva fortemente dependente de insumos críticos externos. Hoje, o país é uma potência agroalimentar mundial, mas ainda sustenta grande parte da produtividade agrícola e projeção global brasileira com absoluta dependência externa de insumos críticos. Em momentos de normalidade, isso já impõe exposição a volatilidade cambial, fretes internacionais e oscilações de preços inerentes aos mercados globais de commodities. Em momentos de crise geopolítica global, essa dependência se traduz também em risco de oferta, prazo de entrega e disponibilidade física de produtos.
Por que produzir fertilizantes no Brasil pode ser estratégico para as empresas – e para o agro?
Fertilizante não é um insumo periférico. Ele está no centro da produtividade, da estabilidade de custos e do planejamento da safra e da rentabilidade do agricultor. Quando o país desenvolve capacidade produtiva local, melhora sua condição de resposta em cenários adversos, reduz incertezas e amplia a segurança para o produtor. Há ainda um efeito econômico e estratégico mais amplo. A expansão da produção doméstica estimula investimento na formação bruta de capital fixo, inovação, infraestrutura, mineração, química, energia e logística, além de gerar emprego qualificado. Também abre espaço para soluções mais alinhadas às características tropicais da agricultura brasileira e para avanços em descarbonização e eficiência energética. Defender a produção nacional de fertilizantes não é defender fechamento de mercado ou substituição de importação. É defender equilíbrio: manter o Brasil integrado ao comércio global, mas com maior capacidade interna para responder a crises, sustentar investimentos e dar mais segurança ao agro.
O que precisa para que o PNF ande a passos largos no Brasil?
Para que o PNF avance de fato, ele precisa deixar de ser apenas um diagnóstico e se tornar uma agenda estratégica com execução mais rápida. Isso exige coordenação política de alto nível, já que o tema envolve áreas como energia, mineração, meio ambiente, infraestrutura, fazenda e agricultura. Também é necessário destravar a competitividade econômica — especialmente em gás natural, tributação, licenciamento e logística — para tornar os projetos viáveis. Além disso, a indústria de fertilizantes precisa ser tratada como infraestrutura crítica para a segurança econômica e alimentar do país. Ampliar a produção nacional não significa substituir as importações, mas criar uma base mínima de resiliência para o abastecimento da agricultura brasileira.
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