Guerra no Irã pressiona fertilizantes, mas Brasil ainda tem margem para esperar
A escalada do conflito no Oriente Médio provocou uma alta imediata nos preços dos fertilizantes, mas, no curto prazo, o impacto sobre o Brasil tende a ser limitado. O momento do calendário agrícola funciona como um amortecedor, mesmo diante da retirada de ofertas e da pressão logística na região, avaliam analistas ouvidos pela EXAME.
Segundo o Itaú BBA, o impacto imediato tende a ser mitigado pela sazonalidade — o Brasil não está no pico de compras de nitrogenados nesta época do ano —, o que permite uma postura mais cautelosa na formação de estoques.
Dados da Argus Media mostram que produtores de ureia do Oriente Médio retiraram ofertas de venda do mercado diante da escalada das tensões, enquanto avaliam estoques e condições logísticas — especialmente a navegação pelo Estreito de Ormuz e o custo do frete marítimo. A ureia é um dos principais insumos utilizados no plantio do milho.
A região é a maior exportadora global de ureia, com cerca de 20 milhões de toneladas por ano — o equivalente a 35% do comércio marítimo mundial.
O próprio Irã tem participação relevante nesse mercado: o país concentra 11% das exportações globais de ureia e 5% das de amônia, segundo a Argus Media e da StoneX.
Na manhã de sábado, 28, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Os bombardeios coordenados mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país por quase quatro décadas, mergulhando o país em instabilidade e desencadeando um conflito que pode envolver grande parte do Oriente Médio.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na segunda-feira, 2, que a ofensiva pode durar até cinco semanas.
Em meio às incertezas geopolíticas, os preços da ureia granulada subiram para US$ 500 a US$ 550 por tonelada CFR Brasil, ante US$ 475 a US$ 485 em 27 de fevereiro.
Os preços da amônia também avançaram no período, passando de US$ 205 a US$ 215 por tonelada CFR Brasil, em 27 de fevereiro, para US$ 220 a US$ 230 atualmente.
O Brasil importa praticamente 100% da ureia utilizada no campo. Em 2025, Irã e Omã responderam por 18,4% das importações brasileiras do insumo, somando 1,5 milhão de toneladas de um total de 8,2 milhões de toneladas recebidas no ano.
No ano passado, o Oriente Médio representou 15,6% das compras totais desse produto, enquanto China, Rússia e Nigéria, juntas, responderam por 70,4% do volume importado pelo Brasil, aponta um estudo do Insper Agro.
Em 2025, as entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro somaram 49,11 milhões de toneladas, alta de 7,7% em relação a 2024. Desse montante, 43,32 milhões de toneladas vieram de importações, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA).
Além disso, os preços do petróleo adicionam mais uma camada de incerteza. Segundo o Insper Agro, conflitos na região tendem a incorporar um prêmio de risco às cotações internacionais da commodity, pressionando tanto os custos de combustíveis quanto a formação de preços de fertilizantes nitrogenados, cuja produção depende de petróleo e, sobretudo, de gás natural.
Apesar dessa exposição, o momento reduz a pressão imediata. Para a segunda safra 2025/26, praticamente todo o volume de fertilizantes já foi adquirido. No caso da safra de verão 2026/27, as compras realizadas até agora somam cerca de 30%, abaixo da média histórica de 40%.
Segundo Tomás Pernías, analista de fertilizantes da StoneX, neste momento o Brasil é considerado um mercado em baixa temporada de compras de nitrogenados, já que a maioria das aquisições para a segunda safra já foi concluída. Isso permite ao produtor adotar uma postura mais estratégica.
“O Brasil terá um impacto limitado neste momento, porque não está comprando ativamente”, afirma. Para o analista, essa janela dá tempo ao produtor, mas não elimina o risco de uma alta prolongada. Ainda assim, a visão predominante no setor é de cautela.
Safra 2026/27
Se o conflito se prolongar, o cenário pode mudar. A alta da amônia — insumo-base dos fertilizantes nitrogenados e fosfatados — e o encarecimento do frete marítimo tendem a elevar o custo por hectare e deteriorar as relações de troca, especialmente em culturas intensivas em nitrogênio, como milho e trigo.
A relação de troca entre milho e ureia já está nos piores níveis dos últimos anos, segundo Tomás Pernías, da StoneX.
A relação de troca é um indicador que mede o poder de compra do produtor rural, comparando o preço do insumo com o valor recebido pelo grão.
O produtor agora enfrenta um dilema: antecipar compras para se proteger de novas restrições de oferta ou esperar na expectativa de preços mais favoráveis.
Por ora, a estratégia predominante é de observação. A tranquilidade, diz Pernías, no entanto, dependerá da duração do conflito e da normalidade das rotas no Golfo.
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