Hyrox, a competição fitness 'feita para todos' — estreantes e atletas
"Uma competição de fitness para todos". A definição aparece nos primeiros resultados ao buscar "Hyrox" no Google. As imagens ao lado, porém, destacam pessoas com o shape em dia, o que cria a impressão de que se trata de uma modalidade restrita a atletas de alto nível.
Mas o algoritmo não corresponde à realidade do torneio, que tem conquistado o mundo. A variedade de categorias e formatos faz com que a prova reúna, num mesmo evento, atletas experientes e estreantes.
Essa versatilidade é um dos motivos que ajudam a explicar o sucesso do Hyrox. Consolidada na Europa e nos Estados Unidos, a competição passou a avançar no Brasil a partir de 2024: São Paulo recebeu a primeira prova no país, em dezembro, com mais de dois mil participantes, e o Rio de Janeiro sediou o evento em novembro, com três mil competidores. Fortaleza é a próxima cidade a entrar no circuito, em 28 de fevereiro.
À EXAME, Ana Caroline dos Santos, coach de Hyrox e treinadora de corrida do box Spartan, em Mogi-Guaçu, afirma que a procura pela modalidade cresceu nos últimos meses, puxada sobretudo por praticantes de CrossFit, corredores e frequentadores de academia.
"O Hyrox aparece como uma ponte entre esses universos. Os movimentos são acessíveis e existem categorias diferentes, com ajustes de carga, o que permite que tanto iniciantes quanto atletas mais experientes participem", diz.
Como funciona o Hyrox?
Criado na Alemanha em 2017, o Hyrox surgiu como uma "corrida fitness" voltada a pessoas que treinavam em academias e queriam testar o condicionamento físico de forma mais estruturada. Com o tempo, a competição foi adotada em diferentes países, sempre com o mesmo padrão de prova, o que permite comparar tempos e desempenhos a níveis regionais e até globais.
A prova, de cerca de uma hora, exige 8 quilômetros de corrida, divididos em blocos de 1 km, intercalados com oito estações de exercícios funcionais.
"Ou seja: corre 1 km, faz uma estação, corre mais 1 km, e assim sucessivamente até completar todas as etapas", explica Ana Caroline. "Por isso ele é conhecido como uma corrida fitness: uma prova que testa resistência física, força e preparo mental ao mesmo tempo", completa.
Entre os movimentos funcionais estão: puxar trenó (um carrinho com peso), remo em máquina ergométrica, avanços com carga (lunges), caminhada com pesos (farmer carry) e arremessos de bola contra um alvo na parede (wall balls).
Não é Crossfit
Os nomes em inglês e a presença de exercícios intensos nos chamados "boxes" costumam gerar confusão entre Hyrox e CrossFit. Apesar de ambas contarem com movimentos funcionais, são modalidades com propostas distintas, explica a treinadora Ana Caroline.
"O Hyrox é uma prova padronizada, focada em resistência e constância. O CrossFit é extremamente variado, técnico e imprevisível", afirma a treinadora. "No Hyrox, você treina para repetir exatamente o que vai encontrar na prova. No CrossFit, você treina para estar preparado para qualquer coisa", diz.
A diferença aparece também na preparação dos atletas. Enquanto o Hyrox tem mais ênfase em corrida, resistência e controle de ritmo ao longo de um esforço contínuo, o CrossFit demanda uma diversidade maior de habilidades técnicas e picos de força máxima. "São propostas diferentes, apesar de dialogarem", resume.
Diversidade de perfis
Apesar da intensidade, a competição foi desenhada para reduzir barreiras técnicas e abranger o maior público possível. Os participantes são divididos categorias por idade, gênero e carga dos aparelhos — como open, com pesos mais leves, e pro, com cargas mais altas. Além disso, as provas podem ser disputadas individualmente, em duplas ou em revezamento, inclusive com equipes mistas.
Esse desenho se reflete no perfil de quem compete. No evento do Rio de Janeiro, 26% dos participantes tinham mais de 40 anos, e 4% estavam acima dos 50, segundo informações do O Globo. O histórico esportivo dos inscritos é igualmente diverso: vai desde praticantes de musculação, CrossFit, corrida e ciclismo até pessoas que nunca haviam participado de uma competição.
Para Ana Caroline, o alcance da modalidade está ligado à possibilidade de adaptação. "Ele não exige experiência prévia em CrossFit. O iniciante precisa se preparar, claro, mas o Hyrox não é um esporte excludente. Tudo é adaptável", diz.
A treinadora ressalta, no entanto, que pessoas com lesões articulares, histórico de problemas cardíacos ou sedentárias devem ter atenção redobrada antes de iniciar o Hyrox. "O maior risco não está no Hyrox em si, mas em uma preparação mal feita, sem progressão de carga, sem controle de volume de corrida e sem respeitar recuperação", diz. A orientação é comunicar limitações ao treinador e "entender que tudo é um processo, sem 'abusar' nos treinos".
Benefícios
Por combinar corridas com exercícios de força, o Hyrox traz diferentes benefícios. Além de ajudar no ganho de massa magra e no aumento da resistência dos músculos, a modalidade colabora para o desenvolvimento da coordenação e da agilidade.
Ana Caroline ressalta o ganho de força funcional, especialmente nos membros inferiores e no core, e a alta queima calórica. Ela conta que os primeiros resultados que vê entre os alunos são a melhora do condicionamento e da resistência muscular. "O aluno passa a 'aguentar mais', correr melhor sob fadiga e manter desempenho mesmo cansado", diz.
De acordo com a treinadora, a transformação estética costuma acompanhar o aumento do desempenho nos treinos, mas "o que mais chama atenção é a evolução na capacidade física geral". "Eu mesma, comecei o Hyrox e 'achava' que tinha uma boa resistência cardiovascular, após o primeiro treino percebi que precisava melhorar e muito, hoje em dia quando vou correr ou treinar me sinto muito mais preparada", relata.
A maior mudança, no entanto, está na mentalidade, diz Ana Caroline. O fato de ter um compromisso marcado — no caso, a competição — faz o aluno ter mais disciplina e constância, dois pontos-chave para os resultados.
"Eu vejo mais engajamento, mais cuidado com descanso, alimentação e recuperação. O Hyrox deixa de ser só um treino e vira um projeto pessoal, e por ser algo em grupo acaba que um ajuda o outro, se reúnem para correr juntos, acaba virando uma rotina boa, saudável e focada", conclui.
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