Ibovespa cai 2,64% e quase perde os 180 mil pontos, com piora da aversão ao risco
Após a recuperação parcial na véspera, o Ibovespa voltou a cair nesta quinta-feira, 5, e aprofundou as perdas ao longo do pregão. O principal índice acionário da B3 fechou o dia em queda de 2,64%, aos 180.463 pontos.
Das 84 ações que compõem o índice, 76 encerraram o pregão em baixa, cinco ficaram estáveis e apenas três registraram alta.
O índice foi pressionado principalmente pelo desempenho negativo das chamadas blue chips, ações de grandes empresas com peso na bolsa brasileira. Os papéis da Vale (VALE3), que respondem por quase 12% da composição do índice, caíram 3,33%.
Os grandes bancos também operaram em queda e recuaram de forma generalizada, ampliando a pressão sobre o indicador após a recuperação observada na sessão anterior.
As ações ordinárias e preferenciais da Petrobras (PETR3 e PETR4) registraram desempenho misto após ficarem a maior parte do dia em queda. Enquanto PETR4 subiu 0,47%, PETR3 caiu 0,20%. A companhia divulga nesta quinta-feira, após o fechamento do mercado, o balanço do quarto trimestre de 2025.
Na direção oposta, outras petroleiras registraram alta e figuraram entre os poucos destaques positivos do pregão. A maior valorização do índice ficou com a Braskem (BRKM5), que subiu quase 17%.
Segundo Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, o movimento de queda do índice está ligado ao aumento da aversão a risco global diante do temor de que o conflito geopolítico em curso se prolongue. "O temor de que a guerra continue faz com que o Ibovespa caia. Ao mesmo tempo, o petróleo está subindo e isso tem afetado bastante as ações", afirma.
No caso da Petrobras, o analista explica que os papéis caíram menos do que a média do mercado justamente porque a forte valorização do petróleo tende a favorecer a companhia. Ainda assim, há receio entre investidores de que o governo não repasse integralmente a alta dos combustíveis para evitar pressão inflacionária.
"A Petrobras tem caído menos porque o petróleo subiu bastante, mas existe o temor de que o governo não repasse o aumento dos combustíveis para não puxar a inflação, o que poderia levar a empresa a absorver parte do custo", diz. Segundo ele, esse cenário ajuda a explicar a alta de petroleiras privadas como a Prio.
Para outras empresas de grande peso no índice, como a Vale, o movimento negativo também reflete o aumento do risco sistêmico. Na avaliação de Mollo, a alta do petróleo pode pressionar a inflação global, o que tende a reduzir o ritmo de cortes de juros e afetar as perspectivas de crescimento econômico.
"A Vale em queda acompanha a realização do cobre e de mercados emergentes", acrescentou Joao Abdouni, analista da Levante Inside Corp.
Estreito de Ormuz e petróleo no foco
O conflito entre Israel, Estados Unidos e Irã, que entrou no sexto dia nesta quinta, continuou no radar do mercado diante dos novos ataques de mísseis e drones na região do Golfo. Os confrontos já afetam diversos países do Oriente Médio e áreas próximas.
A agência estatal iraniana, Fars, declarou nesta quinta ter atingido o porta-aviões USS Abraham Lincoln (CVN-72), dos Estados Unidos. De acordo com a Agência de Inteligência do Irã, a embarcação estava a 340 quilômetros das fronteiras marítimas do país e seria usada para controlar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo.
A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) também afirmou hoje que o Estreito de Ormuz está fechado somente para navios dos Estados Unidos, de Israel, da Europa e de outros aliados ocidentais.
"Aparentemente o estreito de Ormuz segue com pouco fluxo, e com isso o petróleo segue subindo e o mercado em modo de Risk-off", afirmou Abdouni.
O petróleo tipo Brent, usado como referência mundial, encerrou o contrato de maio em alta de 4,93%, cotado a US$ 85,41 por barril, na Intercontinental Exchange (ICE). O WTI, mais usado nos EUA, com entrega prevista para abril subiu 8,51%, cotado a US$ 81,01 por barril, na New York Mercantile Exchange (Nymex).
"O temor de que a guerra vai continuar faz com que o Ibovespa caía. E o petróleo está subindo, o que tem afetado bastante as ações", acrescentou Mollo.
Repercussão do desemprego no Brasil
No radar dos investidores também esteve a taxa de desemprego no Brasil. A taxa de desocupação da economia brasileira aumentou de 5,1% no trimestre móvel findo em dezembro para 5,4% no trimestre móvel findo no trimestre encerrado em janeiro, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua), divulgada pelo IBGE mais cedo.
Segundo André Valério, economista sênior do Inter, a alta era esperada, tendo em vista a sazonalidade de demissões em dezembro, que afeta a Pnad com defasagem, uma vez que a taxa de desocupação é uma média móvel trimestral.
Os dados, por outro lado, mostram que uma melhora no mercado de trabalho não é esperada. O economista observa que os principais indicadores se encontram próximos do topo e vemos sinais de perda de dinamismo, na margem, no mercado de trabalho, com os setores mais sensíveis ao ciclo encontrando maiores dificuldades.
"De toda forma, apesar de esperarmos que a taxa de desocupação continue aumentando, especialmente no primeiro trimestre, não vemos um cenário em que o mercado de trabalho piore significativamente, com a nossa expectativa de que a taxa de desocupação encerre 2026 em 5,5%", afirmou Valério.
Bolsas globais têm desempenho misto
As bolsas asiáticas fecharam em alta nesta quinta, com a de Seul garantindo o melhor pregão em quase duas décadas após a queda recorde de ontem.
O índice sul-coreano Kospi saltou 9,63% em Seul, a 5.583,90 pontos, no maior ganho em um único dia desde outubro de 2008. A recuperação veio após um tombo de 12% na sessão anterior, o maior já registrado.
O índice japonês Nikkei avançou 1,90%, a 55.278,06 pontos, enquanto o Hang Seng subiu 0,28% em Hong Kong, a 25.321,34 pontos, e o Taiex mostrou alta mais expressiva em Taiwan, de 2,57%, a 33.672,94 pontos.
Já as bolsas na Europa voltaram a recuar. O índice pan-europeu Stoxx Europe 600 caiu 1,4%, aos 604,31 pontos. Em Frankfurt, o DAX recuou 1,61%, aos 23.774,09 pontos; em Londres, o FTSE 100 perdeu 1,45%, aos 10.413,94 pontos; e, em Paris, o CAC 40 cedeu 1,49%, aos 8.045,80 pontos.
Em Nova York os índices também recuaram, com Dow Jones liderando as quedas ao cair 1,61%, Nasdaq o,26% e S&P 500 caindo 0,57%.
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