Irmãos deixam CLT, criam startup de logística e faturam R$ 41 milhões
A construção civil brasileira ainda movimenta boa parte da logística de forma manual. Em muitas obras, caminhoneiros autônomos são acionados por grupos de WhatsApp, enquanto comprovantes de transporte circulam em papéis difíceis de auditar. O resultado costuma ser falta de controle sobre rotas, desperdício de dinheiro, atrasos e risco ambiental.
Se ainda é assim em parte do setor hoje, a situação era ainda mais arcaica antes de 2020, quando a LandApp não existia. A startup criada pelos irmãos Mayara Protti, de 36 anos, e Matheus Protti, de 33, conecta construtoras, caminhoneiros e fornecedores em uma única plataforma com um objetivo: rastrear toda a movimentação de resíduos, materiais e cargas das obras, trazendo mais governança para um segmento historicamente pouco digitalizado.
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A empresa atua na logística da construção civil e reúne três produtos principais. O primeiro é a LandApp Terra, focada no transporte de resíduos sólidos, terraplanagem e locação de maquinários. O segundo é a LandApp Fretes, criada para conectar obras e fornecedores em operações logísticas de diferentes portes. Já a LandApp Agregados, frente mais recente da companhia, atua na compra e no transporte de materiais agregados.
A ferramenta conecta construtoras, caminhoneiros autônomos e fornecedores. A empresa não possui frota própria, então os motoristas parceiros utilizam veículos próprios, podendo operar desde motos e carros utilitários até caminhões basculantes, carretas, veículos munck, trucks e máquinas pesadas. Para se cadastrar, é necessário ter CNH válida compatível com a categoria do veículo, documentação regular e acesso ao aplicativo da empresa pelo celular.
Hoje a startup soma 1.800 caminhoneiros cadastrados e cerca de 40 clientes ativos, entre eles algumas das maiores construtoras do país. Em determinados contratos, um único cliente chega a operar simultaneamente dezenas de canteiros de obras. A atuação está concentrada na Grande São Paulo, litoral e interior paulista, mas a empresa já realizou trabalhos interestaduais.
Fundação da LandApp
A ligação da família Protti com a construção civil vem de gerações. O avô de Mayara e Matheus começou como caminhoneiro e teve o primeiro caminhão basculante de São Paulo. Depois disso, a família passou décadas empreendendo no setor.
Mesmo crescendo nesse ambiente, Mayara afirma que inicialmente não tinha vontade de trabalhar na área. Formada em administração pela Fundação Getulio Vargas, ela construiu carreira em multinacionais e, durante esse período, participou de projetos ligados a intraempreendedorismo. Matheus, também formado em administração pela mesma instituição, atuou nas áreas comercial e de marketing.
A ideia da LandApp, porém, não surgiu diretamente dos irmãos, mas de uma conversa do pai deles com clientes do setor, em 2018. Na época, construtoras enfrentavam dificuldade para encontrar caminhões de terraplanagem disponíveis para atender obras.
Como a maior parte dos motoristas era autônoma, o contato acontecia quase exclusivamente por grupos de WhatsApp. O pai dos fundadores comentou com os filhos que talvez existisse espaço para um aplicativo que conectasse caminhoneiros e obras.
"A gente jurava que já existia", lembra Mayara. Depois de pesquisar, porém, eles perceberam que não havia soluções específicas para o segmento de resíduos e terraplanagem na construção civil. A partir dali, começaram a estudar o setor, desenhar o modelo de negócio e entender como transformar a ideia em operação.
Serviços oferecidos
O CNPJ da empresa foi aberto no fim de 2018, mas o projeto demorou cerca de dois anos para sair do papel. Segundo Mayara, o primeiro grande erro aconteceu logo no início. Sem experiência em tecnologia, eles desembolsaram cerca de R$ 60 mil para contratar uma software house responsável pelo desenvolvimento do aplicativo.
Não deu certo. Eles perceberam, então, que terceirizar totalmente o desenvolvimento da tecnologia fazia pouco sentido para a startup. A solução foi abandonar o sistema criado pela empresa terceirizada, contratar um desenvolvedor próprio e recomeçar do zero.
Esse desenvolvedor foi Bruno Cipolla, primeiro funcionário da LandApp. Atualmente, ocupa o cargo de diretor de tecnologia. Em dezembro de 2019, Matheus deixou o emprego CLT para se dedicar integralmente à startup. Mayara ainda permaneceu um ano no mercado corporativo enquanto ajudava a empresa nos bastidores, principalmente à noite e nos fins de semana. Apenas em 2021 ela passou a atuar exclusivamente na operação.
A estreia da LandApp coincidiu com um dos períodos mais difíceis dos últimos anos. A primeira obra atendida começou na semana em que o estado de São Paulo decretou as restrições da pandemia, em meados de abril de 2020. "A construção civil não parou. A gente precisava ir presencialmente nas obras para explicar o aplicativo aos primeiros caminhoneiros", conta Mayara.
A proposta da LandApp era resolver problemas antigos do setor. Antes da plataforma, por exemplo, algumas empresas chegavam a contratar motoboys para seguir caminhões e verificar se os resíduos realmente estavam sendo descartados nos locais corretos. O risco ambiental era alto. "Caso um material fosse despejado irregularmente em terreno baldio ou vias públicas, a construtora poderia sofrer multas milionárias e danos de imagem", explica.
A LandApp passou a centralizar toda essa gestão dentro da plataforma. O sistema rastreia origem, trajeto e destino das cargas em tempo real. O descarte só pode ser finalizado quando o caminhão chega ao local previamente autorizado. Toda a documentação necessária fica registrada digitalmente dentro do aplicativo.
A empresa também desenvolveu estudos logísticos para reduzir a distância percorrida pelos caminhões. Em alguns casos, um material que antes seria descartado a dezenas de quilômetros pode ser reaproveitado em outra obra mais próxima, reduzindo custos operacionais e impacto ambiental. Com o tempo, a startup adicionou indicadores ESG e passou a calcular as emissões de carbono das operações.
Depois de começar focada no transporte de solo, entulho e resíduos de obras, a empresa passou a ampliar a operação para outros tipos de frete. Em 2025, lançou oficialmente a LandApp Fretes, produto voltado à logística entre obras e fornecedores. A solução permite transportar desde documentos, ferramentas e pequenas cargas até estruturas metálicas, máquinas pesadas e pré-moldados de concreto. Toda a operação segue lógica semelhante à dos aplicativos de mobilidade, com rastreamento, confirmação de entrega e registros fotográficos das cargas.
Como é a estrutura
Hoje Mayara lidera as áreas de marketing, tecnologia, business intelligence e o produto LandApp Fretes. Matheus atua como CEO e responde pelas áreas financeira, people e operação ligada à terraplanagem. O pai dos fundadores continua próximo da empresa como consultor.
A startup possui 27 funcionários e afirma que a operação se sustentou financeiramente desde o primeiro contrato fechado. Entrou no ranking EXAME Negócios em Expansão 2025 depois de registrar receita operacional líquida de R$ 6 milhões em 2024. No ano passado, a receita alcançou R$ 41,8 milhões. Para 2026, a expectativa inicial é crescer cerca de 50%.
Entre os próximos passos está a expansão da área de agregados, que conecta compra e transporte de materiais usados em obras. A empresa iniciou um projeto piloto para estruturar um marketplace voltado a esse segmento.
Outro foco está no uso de inteligência artificial. Segundo Mayara, a LandApp já utiliza IA internamente em análises logísticas, estudos de rota, alocação de caminhões e cruzamento de dados históricos acumulados ao longo de seis anos de operação. A expectativa é transformar parte dessas ferramentas em soluções comerciais.
O que é o ranking Negócios em Expansão
O ranking EXAME Negócios em Expansão é uma iniciativa da EXAME e do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
O objetivo é encontrar as empresas emergentes brasileiras com as maiores taxas de crescimento de receita operacional líquida ao longo de 12 meses.
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Em 2025, a pesquisa avaliou as empresas que mais conseguiram expandir receitas ao longo de 2024.
São 470 empresas que criam produtos e soluções inovadoras, conquistam mercados e empregam milhares de brasileiros.
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