Juros do cartão, bets e Mounjaro consomem renda do brasileiro, diz Meirelles
Juros do cartão de crédito, apostas online e o avanço de medicamentos para emagrecimento passaram a disputar o orçamento das famílias brasileiras e ajudam a explicar por que o aumento de renda não chega ao bolso[/grifar], segundo Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.
“Temos detectado ralos para o dinheiro que está sendo colocado na economia”, afirma em entrevista à EXAME.
Mesmo com emprego elevado, inflação sob controle e programas sociais em funcionamento, a sensação da população segue de piora da situação econômica.
“A sensação de quem está no dia a dia, indo na feira, é que a vida continua difícil”, diz.
O principal fator continua sendo o custo do crédito. Os juros cobrados no cartão, no carnê e em outras linhas ao consumidor criam uma dinâmica de endividamento que consome parte relevante da renda, afirma Meirelles.
"Estou falando dos juros cobrados no carnê, dos juros do cartão de crédito, dos juros do boleto, desses juros que acabam fazendo com que esse brasileiro se enrole nas contas. E, ao se enrolar nas contas, ele entra naquela bola de neve da qual não consegue sair", diz.
Dados da LCA Consultoria reforçam esse quadro. A inadimplência das famílias chegou a 5,2% em fevereiro de 2026, próxima do pico histórico registrado em 2012. No cartão de crédito, o rotativo atinge 64,5%. Ao mesmo tempo, as famílias destinam mais de 9% da renda ao pagamento de juros.
Bets e canetas entram na disputa pelo orçamento
Além do crédito caro, novas formas de consumo passaram a ganhar espaço no orçamento.
No caso das apostas online, o impacto existe, mas é limitado no agregado. Segundo a LCA, os gastos com bets representam cerca de 0,46% do consumo das famílias no PIB — valor equivalente ao gasto com bebidas alcoólicas e bem inferior às despesas com juros.
“A pergunta é: as bets endividam? Endividam menos do que os juros”, diz Meirelles.
Já as canetas emagrecedoras, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, avançam em ritmo acelerado e começam a redesenhar o consumo.
"O problema não é uma mudança de hábito — as pessoas realmente emagrecem, realmente passam a ter uma alimentação mais saudável —, mas é uma grana muito, muito substancial que sai para as canetas emagrecedoras", diz.
Hoje, 33% dos domicílios brasileiros têm ao menos um morador que usa ou já usou esses medicamentos, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva. No fim de 2025, esse índice era de 26%.
"Muitas dessas canetas, inclusive, são falsificadas, muitas vêm do Paraguai. Estive fazendo pesquisa de campo na periferia e o que vimos foi a venda de aplicação de caneta emagrecedora. É igual ao cigarro picado, é caneta emagrecedora picada", diz.
Ele destaca, que seja nesse metodo de "caneta picada" ou no custo completo do produto, o principal alto é a faixa de dois a cinco salários mínimos, recorte da população que Lula apresenta maior dificuldade, segundo as pesquisas de avaliação.
"Mais da metade de quem usa caneta, contando legais e ilegais, são da classe C", afirma.
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