Kinea propõe Dez Mandamentos para o Brasil romper ciclo de baixa produtividade
O Brasil conseguiu domar a hiperinflação e construir setores globalmente competitivos, mas continua travado na chamada "travessia da produtividade". Esse é o diagnóstico da Kinea Investimentos que, no relatório de junho, intitulado "Os Dez Mandamentos: como mudar o Brasil e aumentar a produtividade", alerta que o país precisa abandonar o modelo de privilégios e subsídios permanentes para voltar a crescer de forma sustentável.
Segundo a gestora, o modelo de crescimento acelerado baseado na urbanização em massa e na industrialização por substituição de importações esgotou-se nos anos 1980. Desde então, o PIB por trabalhador está estagnado devido a freios estruturais como a complexidade tributária, o fechamento comercial e a falta de avaliação de políticas públicas.
Os dez mandamentos para aumentar a produtividade
Para reverter esse cenário, a Kinea sistematizou a agenda de reformas em dez diretrizes institucionais:
1. Simplificarás a tributação: A atual Reforma Tributária do consumo (IVA Dual) é vista como a principal alavanca de produtividade, pois reduzirá o custo de conformidade — atualmente de 1.500 horas anuais por empresa.
2. Não criarás exceções eternas: Crítica à perenidade de programas como a Zona Franca de Manaus (com validade até 2073) e o Simples Nacional (que cria uma "armadilha" contra o crescimento das empresas). Subsídios devem ter prazo de validade e metas transparentes.
3. Abrirás a economia à competição: O forte protecionismo comercial encarece a importação de máquinas e tecnologia, isolando a indústria nacional das cadeias globais.
4. Investirás em infraestrutura: O custo logístico consome 12% do PIB nacional. O país precisa acelerar concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs) com marcos regulatórios estáveis.
5. Educarás para aprender, não apenas para matricular: Foco na primeira infância, alfabetização na idade certa e ensino técnico voltado para o mercado, inspirando-se em gestões técnicas como as do Ceará e do Paraná.
6. Permitirás que empresas cresçam: Eliminar as amarras burocráticas que punem o ganho de escala e facilitar processos de falência.
7. Alocarás capital pelo mérito econômico: Reduzir a dependência de créditos direcionados e fomentar o mercado de capitais.
8. Garantirás segurança jurídica: Mitigar o massivo contencioso tributário do país e blindar agências reguladoras de interferências políticas.
9. Avaliarás políticas públicas: Instituir métricas rigorosas que separem privilégios corporativos do real retorno social.
10. Inovarás de forma horizontal: Apoiar a inovação em todo o tecido empresarial, em vez de o Estado tentar "escolher vencedores".
Entrave cultural, não técnico
A Kinea conclui que o entrave da produtividade brasileira não é técnico, mas cultural. A travessia econômica exige coragem política para migrar de um sistema que premia quem busca a proteção do Estado para um capitalismo moderno, que recompensa a inovação e a eficiência.
De "Parasita" aos Dez Mandamentos
Essa não é a primeira vez que a gestora recorre a metáforas culturais para ilustrar os gargalos da economia doméstica. Na carta de março deste ano, a Kinea já havia traçado um paralelo entre o Brasil e o premiado filme sul-coreano Parasita.
No longa-metragem, a família Kim acredita ter ascendido socialmente ao se infiltrar na rotina dos ricos Park, mas o desenrolar da trama revela que a situação dos protagonistas era frágil e sustentada por uma ilusão.
Na avaliação da Kinea, o Brasil se comporta de maneira semelhante: o país aumentou seu patamar de consumo nas últimas décadas sem nunca solucionar, de fato, as deficiências estruturais de renda e de produtividade que garantiriam uma riqueza real.
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