Kospi: como a Coreia do Sul passou a ter a bolsa que mais sobe no mundo

Por Da redação, com agências 23 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Kospi: como a Coreia do Sul passou a ter a bolsa que mais sobe no mundo

O Kospi, principal índice da bolsa sul-coreana, atingiu um recorde histórico nesta segunda-feira, 23, e consolidou a Coreia do Sul como o mercado acionário que mais sobe no mundo em 2026. O índice avançou 0,65% no fechamento, a 5.846,09 pontos, depois de tocar 5.900 pontos no intraday (durante o pregão) — a primeira vez tão perto da marca simbólica dos 6.000.

O novo pico veio apesar das incertezas globais relacionadas à política comercial dos Estados Unidos. Na sexta-feira, a Suprema Corte americana considerou ilegais as tarifas “recíprocas” impostas por Donald Trump. Mesmo com o presidente americano sinalizando novas tarifas por outros dispositivos legais, o mercado local ignorou o ruído externo e manteve o rali.

Chips, carros e reformas

O desempenho do dia refletiu uma tendência que vem se repetindo desde e o ano passado: tecnologia e automóveis lideraram os ganhos. Samsung Electronics subiu 1,53%, enquanto SK Hynix avançou 0,21%. No setor automotivo, Hyundai Motor saltou 2,75% e Kia teve alta de 0,52%. Companhias aéreas também se destacaram, com Korean Air (+5,17%) e Jeju Air (+7,87%).

Desde janeiro, o Kospi já rompeu três marcos psicológicos — 5.000, 5.500 e agora se aproxima de 6.000 pontos. A leitura dominante entre analistas é que o rali tem base dupla: lucros recordes do setor de semicondutores, impulsionados pela demanda ligada à inteligência artificial, e reformas institucionais que buscam reduzir o chamado Korea discount, o desconto das ações coreanas em relação aos seus pares globais, principalmente em função de problemas de governança das empresas.

A economia da Coreia do Sul é fortemente marcada pela presença dos chaebols, grandes conglomerados familiares que se expandiram ao longo de décadas e hoje exercem influência decisiva sobre o mercado de capitais. Esses grupos controlam centenas de empresas listadas por meio de estruturas complexas de participações cruzadas, o que permite às famílias fundadoras manter o comando dos conselhos de administração e da gestão executiva, mesmo com uma participação econômica relativamente pequena no capital.

Esse modelo de controle concentrado é alvo frequente de críticas de investidores. Há acusações recorrentes de decisões corporativas que favorecem os controladores em detrimento dos acionistas minoritários, além de operações societárias — como fusões, cisões e emissões de ações — que acabam diluindo valor. Um ponto especialmente sensível é a percepção de que manter as ações artificialmente baratas ajuda a reduzir o impacto do imposto sobre herança, um dos mais elevados do mundo, reforçando incentivos para a preservação do status quo e alimentando a desconfiança do mercado.

Avança no parlamento coreano uma revisão da Lei Comercial que obriga empresas a cancelar ações em tesouraria recompradas — ou, caso pretendam revendê-las, submeter um plano à aprovação dos acionistas. A proposta, vista como pró-minoritários, é considerada um divisor de águas para governança e retorno ao acionista no país.

Política econômica no centro do rali

O pano de fundo político ajuda a explicar a euforia da bolsa. Desde que assumiu a presidência, Lee Jae Myung transformou o mercado de capitais em pilar de sua estratégia econômica, com a promessa de levar o Kospi a 5.000 pontos — meta já superada. O índice acumula alta de 36% este ano ano e mais que dobrou de pontuação desde o início de seu mandato, em junho do ano passado, desempenho sem paralelo entre grandes bolsas globais.

Para aliados do governo, a valorização reflete um realinhamento estrutural: fortalecimento de deveres fiduciários das empresas, estímulo a dividendos, combate à manipulação e um roteiro para elevar o status da Coreia do Sul nos índices globais, como os da MSCI.

Analistas internacionais, porém, relativizam. Casas como JPMorgan Chase e Goldman Sachs elevaram seus preços-alvo para o Kospi, citando reformas e chips, mas ponderam que a IA responde por parte relevante do ganho, concentrado em poucos nomes de grande capitalização.

Investidor local entra no jogo

Os dados de fluxo mostram retomada do investidor pessoa física, que comprou líquido cerca de 1,08 trilhão de won (R$ 3,87 bilhões) no pregão desta segunda-feira, enquanto estrangeiros e institucionais realizaram lucros. O movimento sinaliza uma inflexão importante em um país historicamente dependente do mercado imobiliário como reserva de valor — e onde jovens têm buscado ações como alternativa diante de preços proibitivos de moradia.

O won se fortaleceu frente ao dólar hoje, e os juros dos títulos soberanos subiram levemente, indicando reprecificação de risco num ambiente de crescimento de lucros. Ainda assim, economistas alertam que o teste decisivo será a transmissão do rali para a economia real, num país com dívida elevada das famílias e sensível a choques externos.

Por ora, o mercado aposta na continuidade. Corretoras locais já trabalham com alvos acima de 7.000 pontos para o fim do ano. Se a trajetória se sustentar, o Kospi não apenas quebrará recordes — pode redefinir o papel do mercado de capitais na economia sul-coreana.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: