Lembra da Cintra? O que aconteceu com a marca de cervejas que chegou a ser a 4ª maior do Brasil

Por Daniel Giussani 6 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Lembra da Cintra? O que aconteceu com a marca de cervejas que chegou a ser a 4ª maior do Brasil

Quem abriu uma geladeira de bar no Rio de Janeiro nos anos 2000 provavelmente esbarrou nela: a Cintra, a lata de cerveja que custava menos que as outras e dividia espaço com Brahma, Antarctica e Skol.

Por um tempo, foi uma das bebidas mais baratas do mercado, conhecida pelo gosto forte e pela vontade de roubar espaço das gigantes pelo preço.

Hoje, ela não aparece mais no site da Heineken, dona atual do portfólio que herdou a marca. A Cintra saiu de cena, mas carrega consigo uma história e tanto.

Por trás dela havia um personagem improvável para o mercado brasileiro de cerveja: José de Sousa Cintra, empresário português que ficou conhecido em seu país por ter presidido o Sporting Clube de Portugal, um dos maiores clubes de futebol de Lisboa, no fim dos anos 1980.

Antes e depois do clube, Sousa Cintra construiu um grupo que ia do petróleo — pela Cipol, Companhia Internacional de Petróleos, que chegou a operar cerca de cem postos de combustível em Portugal — ao imobiliário e à água mineral.

Foi essa carteira diversificada que o trouxe ao Brasil.

Como nasceu a Cintra

A entrada no negócio de cerveja aconteceu em 1997, quando o grupo Cintra comprou uma fábrica desativada da Kaiser em Mogi Mirim, no interior de São Paulo.

A lógica era a de um investidor que enxergava uma oportunidade num mercado dominado por poucos: a fábrica já existia, a estrutura estava parada, e o Brasil consumia cerveja em escala gigantesca.

Logo veio uma segunda planta, em Piraí, no Rio de Janeiro.

Juntas, as duas tinham capacidade para produzir 420 milhões de litros de cerveja e 280 milhões de litros de refrigerante por ano — porque as fábricas também engarrafavam refrigerante com a marca Cintra.

O auge: a quarta maior do país

A aposta deu resultado rápido.

Em dois anos, a Cintra já era a quarta maior produtora de cerveja do país. A estratégia era simples e agressiva: brigar no preço.

Enquanto as marcas estabelecidas disputavam imagem e ponto de venda, a Cintra se posicionava como a opção econômica, a cerveja que chegava mais barata à mão do consumidor. Funcionou melhor no Rio de Janeiro, onde a marca chegou a deter cerca de 5% do mercado — um número expressivo para uma recém-chegada num setor tão concentrado.

A ambição de Sousa Cintra, porém, ia além do que o mercado entregou.

Em entrevistas da época, executivos do grupo falavam em alcançar 10% do mercado nacional em cinco anos e até em construir novas fábricas, inclusive no Mato Grosso do Sul.

A meta de virar líder também aparecia no negócio de água mineral.  Mas furar de vez o domínio de Brahma e Antarctica exigia mais do que preço baixo: exigia distribuição capilar, verba de marketing contínua e fôlego para uma guerra longa. A Cintra tinha participação relevante em alguns estados, e quase nada em outros.

A venda à AmBev e a entrada do Cade

Foi aí que a história virou de negócio para desfecho.

Em 2007, Sousa Cintra vendeu as duas fábricas à Ambev por 150 milhões de dólares. Para a líder do mercado, o interesse não era exatamente a marca Cintra, e sim a capacidade instalada das plantas, úteis para ampliar a produção dos próprios produtos.

Tanto que o negócio inicial nem incluía a marca em si.

O detalhe que complica tudo veio do Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, órgão que fiscaliza a concorrência no Brasil.

Para evitar concentração de mercado, o Cade determinou que a Ambev não poderia ficar com a marca e a rede de distribuição da Cintra. Resultado: em 2008, esses ativos foram vendidos à Schincariol — a cervejaria de Itu que então era a vice-líder nacional — por 39 milhões de reais.

A Cintra entrava, assim, no portfólio de uma das maiores fabricantes de bebidas do país, ao lado de marcas como Nova Schin e Devassa.

Outras mudanças

A partir daí, a Cintra virou passageira de uma sucessão de donos. A Schincariol foi comprada pela japonesa Kirin em 2011 e passou a se chamar Brasil Kirin.

Em 2017, a Brasil Kirin foi adquirida pela holandesa Heineken por 2,2 bilhões de reais. A cada troca de comando, a Cintra ia junto, como uma peça menor de um portfólio cada vez maior.

Em catálogos oficiais da Heineken Brasil de alguns anos atrás, a Cintra ainda figurava entre as marcas comercializadas. Nas listas mais recentes, sumiu — assim como sumiu do site da empresa.

A marca nasceu como aposta de um estrangeiro que confiava no apetite do consumidor brasileiro, cresceu rápido no preço, foi útil como ativo de fábrica para um concorrente maior e, ao virar item de portfólio de grupos cada vez mais focados em marcas premium, deixou de fazer sentido comercial.

Sousa Cintra, o homem que começou tudo, seguiu colecionando capítulos. Voltou ao Sporting em 2018, assumindo interinamente a presidência do clube num momento de crise.

No Brasil, ficou também a memória de uma marca que, por alguns anos, foi a cerveja em conta que muita gente comprou sem pensar muito — e que hoje, quando lembrada, faz muita gente franzir a testa e se perguntar se a marca ainda existe.

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