Lucro do Banco do Brasil cai 54% no 1º tri e projeções são revisadas

Por Mitchel Diniz 14 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Lucro do Banco do Brasil cai 54% no 1º tri e projeções são revisadas

O Banco do Brasil encerrou o primeiro trimestre de 2026 com lucro líquido consolidado de R$ 3,1 bilhões. A cifra representa uma queda de 54,4% sobre os R$ 6,8 bilhões apurados no mesmo período de 2025.

O crescimento das receitas operacionais do banco não conseguiu absorver o forte avanço das provisões para créditos de liquidação duvidosa, concentradas na carteira de agronegócio.

O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) anualizdo caiu para aproximadamente 6,4%, ante 14,1% no 1T25.

Crescimento nas receitas, mas desequilíbrio nas despesas financeiras

A receita de intermediação financeira do conglomerado alcançou R$ 75,1 bilhões no trimestre, alta de 21,2% em relação ao primeiro trimestre de 2025. A principal contribuição veio da carteira de crédito, que gerou R$ 43,0 bilhões em receita, crescimento de 15,7%. As aplicações em títulos e valores mobiliários saltaram para R$ 24,3 bilhões, beneficiadas pelo nível elevado da taxa Selic.

No mesmo período, as despesas de intermediação financeira cresceram 34,6%, para R$ 50,2 bilhões, ritmo significativamente superior ao das receitas. O banco atribui essa aceleração ao aumento do saldo de captações e ao patamar elevado da taxa de juros, que elevou o custo dos recursos de instituições financeiras e de clientes. O diferencial entre o crescimento das receitas (21,2%) e o das despesas financeiras (34,6%) comprimiu a margem.

A receita de prestação de serviços totalizou R$ 8,8 bilhões, expansão anual de 5,5%, impulsionada por administração de fundos, consórcios e comissões de seguros, previdência e capitalização.

Margem financeira: compressão pós-provisão

A margem financeira bruta — antes do desconto das provisões — ficou em torno de R$ 41,4 bilhões no trimestre, com estabilidade em relação ao primeiro trimestre de 2025. Por outro lado, as perdas esperadas associadas ao risco de crédito somaram R$ 16,6 bilhões, alta de aproximadamente 44,8% sobre os R$ 11,5 bilhões de um ano antes.

Com isso, o resultado da intermediação financeira, após dedução das provisões, caiu de R$ 13,1 bilhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 8 bilhões nos três primeiros meses deste ano, uma redução de 39,1%.

Adicionalmente, as baixas para prejuízo (write-offs) quase dobraram, passando de R$ 8,5 bilhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 16,5 bilhões este ano.

Custos: sob controle, mas crescendo

As despesas administrativas e de pessoal somaram aproximadamente R$ 10,5 bilhões, crescimento anual de 5,6%. O detalhamento mostra despesas de pessoal de R$ 6,8 bilhões (+7,2% a/a), reflexo de recomposição salarial dos funcionários, e outras despesas administrativas de R$ 3,7 bilhões, que cresceram em ritmo mais moderado.

O banco também contabilizou investimentos em tecnologia, inteligência artificial e cibersegurança como fatores de pressão sobre as despesas no período — R$ 2,2 bilhões foram investidos em tecnologia só no trimestre.

Inadimplência: o nó do agronegócio

O índice de créditos classificados no Estágio 3 (em atraso superior a 90 dias ou com critérios qualitativos de deterioração) sobre o total da carteira consolidada ficou em 8,32% ao final de março de 2026.

Os financiamentos rurais registraram índice de Estágio 3 de 8,88%, ligeira queda em relação ao pico de 9,03% observado no fechamento de dezembro de 2025. Em valores absolutos, contudo, a carteira rural inadimplente cresceu: passou de R$ 33,7 bilhões para R$ 34,5 bilhões no período, acompanhando a expansão do estoque total de financiamentos rurais, que saltou de R$ 373,6 bilhões para R$ 388,6 bilhões.

A explicação para a deterioração da qualidade de crédito agro está na combinação de fatores adversos que marcaram a última safra: eventos climáticos que afetaram produção e fluxo de caixa dos produtores rurais, além do impacto da alta dos juros sobre operações contratadas a taxas pré-fixadas.

O banco também operou com a Medida Provisória nº 1.314/2025, que autorizou o uso de recursos do superávit financeiro da União para alongamento e renegociação de dívidas rurais. O programa BB Regulariza Dívidas Agro acumulou R$ 37,9 bilhões em operações ao longo de sua vigência, beneficiando 25,5 mil produtores rurais em mais de 73,3 mil operações.

Os problemas não são exclusivos do agro. O varejo pessoa física apresentou índice de 11,6% no Estágio 3; o varejo MPE (micro e pequenas empresas) está em 10,59%; enquanto o atacado registra inadimplência mais controlada, em 5,03%.

Carteira expandida: crescimento modesto, destaque para pessoas físicas

A carteira de crédito total do conglomerado encerrou março de 2026 em R$ 1,235 trilhão, crescimento de apenas 0,4% em relação ao fechamento de dezembro de 2025 (R$ 1,230 trilhão). Os ativos totais do banco atingiram R$ 2,6 trilhões.

A composição por setor mostra que pessoas físicas são o maior segmento, com R$ 748 bilhões, equivalente a 60,5% do total. O crescimento tem sido puxado por esse grupo, destacadamente pelo crédito consignado privado do programa Crédito do Trabalhador, cuja carteira atingiu R$ 15,1 bilhões com mais de 1,7 milhão de operações.

Pessoas jurídicas respondem por R$ 383 bilhões (31,0% da carteira), com queda marginal em relação ao trimestre anterior. O setor público (governo) representa R$ 104 bilhões (8,4%).

Dentro da carteira de pessoas físicas, o segmento de produtor rural PF totaliza R$ 372,5 bilhões em exposição, o que evidencia o tamanho da posição do BB no agronegócio — praticamente a metade de toda a carteira de PF está vinculada a produtores rurais. Os financiamentos rurais, como item de balanço, somam R$ 388,6 bilhões.

BB revisa projeções

O Banco do Brasil revisou suas projeções financeiras (guidance) para o ano de 2026, promovendo ajustes em três de suas principais métricas operacionais e de rentabilidade. O principal aumento ocorreu na linha do custo do crédito, que teve seu intervalo projetado elevado da faixa inicial de R$ 53 bilhões a R$ 58 bilhões para o novo patamar de R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões.

Em contrapartida, a projeção para a margem financeira bruta também foi revisada para cima, passando do intervalo anterior de 4% a 8% para uma nova estimativa de 7% a 11%.

Como reflexo direto do encarecimento do custo do crédito, a instituição reduziu a sua expectativa de rentabilidade para o encerramento do ano. A projeção para o lucro líquido ajustado, que antes estava estimada entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, foi revisada para baixo, fixando-se agora na faixa de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões.

Por outro lado, o banco optou por manter inalteradas todas as suas metas de crescimento de crédito e eficiência.

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