Mesmo sem três estrelas Michelin, mesa carioca vive fase de expansão
Neste mês, a gastronomia brasileira recebeu uma das maiores honras da cozinha internacional: dois restaurantes conquistaram a terceira estrela no Guia Michelin. Esse status veio uma década após o D.O.M, Alex Atala em São Paulo, receber duas estrelas no Guia em 2015. Pouco depois, em 2018, o restaurante carioca Oro foi dotado da mesma qualificação, feito repetido pelo Lasai, também do Rio de Janeiro, em 2024.
"O Rio de Janeiro é um polo gastronômico cada vez mais forte", diz o chef paulista Thiago Gonçalves, à frente do restaurante Posì, em Ipanema, à EXAME Casual. "Tem muita gente pelo Brasil afora que não enxerga o Rio de Janeiro como uma potência gastronômica, mas eu discordo completamente. A culinária carioca é muito rica, tem muita história; ela remonta aos tempos do Império."
Na edição de 2026 do Michelin, publicado na semana passada, 149 restaurantes brasileiros aparecem na lista. Dentre eles, 44 estão no Rio de Janeiro, sendo dois dotados de duas estrelas, seis de uma estrela e oito são parte da seleção Bib Gourmand, que indica restaurantes de alta qualidade e bom preço. Após São Paulo, o Rio é a cidade brasileira mais condecorada pelo ranking.
Economicamente, a cena fluminense também prospera. O estado registra há três anos altas consecutivas na arrecadação estadual do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), de acordo com dados do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio) disponibilizados à EXAME Casual. Baseado na alíquota de 22% do Rio de Janeiro, o faturamento total estimado dos estabelecimentos em 2025 foi de R$ 2,3 bilhões.
A jornalista e colunista de gastronomia Marcela Sobral diz que há uma equação colocando o a cidade no mapa gastronômico mundial: sofisticação sem distância. "Tem uma proposta óbvia de gastronomia de alta qualidade, só que sem afetação. A moda é o Rio. A tendência é o Rio."
Babbo, o italiano descolado indicado pelo Guia Michelin
Inaugurado em outubro de 2021 na Rua Barão da Torre, em Ipanema, o Babbo Osteria nasceu como o primeiro empreendimento solo do chef Elia Schramm.
Rapidamente, ele se tornou um dos restaurantes mais disputados da cidade, com filas diárias tanto no almoço quanto no jantar. A casa recebe entre 10 mil e 12 mil clientes por mês.
A proposta de Schramm, nascido na Suíça e criado no Rio após 16 anos nas melhores cozinhas do mundo, é uma homenagem às suas raízes italianas, sem abrir mão da leveza e da acessibilidade.
"O que eu busco é entregar mais do que cobro", diz o chef. "A percepção clara de que o cliente poderia ter pago mais pela experiência que teve — isso é o que eu chamo de preço honesto."
Nas entradas, a Parmigiana di Melanzane (R$ 42), berinjela empanada com molho de tomate e burrata, traz um clássico italiano de maneira refrescada. O Tonno-Passione (R$ 62), filé de atum selado acompanhado de coalhada e de cebolinha grelhada e coberto por uma redução de misso-maracujá e pistaches torrados, é original e fresco.
O cardápio também passeia por massas artesanais, como o Funghi & Tartufo (R$ 79), gnocchi dourado com cogumelos e molho de trufas. O Polpo (R$ 136), polvo com arroz negro com pancetta e aioli, também brilha com seus toques autorais.
O sucesso, segundo Schramm, não é por acaso. "O segredo, primeiro de tudo, é estar com os sócios certos. Segundo, ter o conceito certo e dominá-lo. Nunca mais vou fazer algo que não conheço", afirma. A fórmula já rendeu outros projetos ao chefe: o Francese, de culinária francesa descontraída, e o Jurubeba, um boteco autoral.
Babbo Osteria: casa em Ipanema tem clientela fiel e prestígio oficial (Babbo Osteria/Divulgação)
Para Marcella Sobral, o Babbo representa bem a nova geração de restaurantes de alta qualidade e preço justo, que está definindo a identidade gastronômica do Rio.
"Tem um padrão. Quatro anos depois de abrir, ainda tem fila no almoço e no jantar", diz. "É aquele lugar que as pessoas fazem dele o restaurante do coração."
Posí, frutos do mar e cardápio autoral
Próximo ao Babbo, o Posì ocupa uma esquina privilegiada de Ipanema desde 2019. Comandado pelo Grupo Pulse, da dupla pai e filha Fabio e Eduarda Dupin, o restaurante começou 2026 em nova fase. A inauguração da Terraza Posì trouxe uma repaginada na área externa e a chegada do chef Thiago Gonçalves ao comando do menu. "A gente é uma casa italiana, mas tem um outro lado da cozinha italiana bem fresco e leve, que tem tudo a ver com o nosso clima aqui do Rio", explica Gonçalves.
O chef assina um cardápio inspirado pelo verão quase permanente da cidade, com massas artesanais, pescados frescos e ingredientes locais.
As entradas misturam sabores frescos, como o Crudo di Tonno i Stracciatella (R$ 66), de atum marinado com laranja tostada, e o Calamari i Fagioli Bianchi (R$ 58), uma salada de feijão branco com lula e ervas.
Entre os pratos quentes, o Risotto de Polvo (R$ 112) tem base umami de tomate e frescor do manjeiricão em contraste com o polvo dourado.
Risotto de Polvo: prato tem sabores fortes e clássicos do Mediterrâneo (Posì Terrazza/Divulgação)
Para garantir a qualidade da matéria-prima, o Posì foi além e se tornou sócio de um pescador, que abastece a cozinha diariamente com o que há de mais fresco. "São produtos e trabalhadores locais. A gente preza muito por isso", diz Thiago.
O Grupo Pulse não esconde a ambição. Com 13 operações entre Rio e São Paulo, o grupo fechou 2025 com faturamento de R$ 58 milhões e projeta R$ 120 milhões até o fim de 2026. Atualmente, o grupo atende 36 mil pessoas por mês e prepara um centro de produção próprio de 1.200 m² em Vargem Grande.
Um quiosque de praia que pesca os próprios peixes para o sushi
Se o Babbo e o Posì trazem a Europa para Ipanema, o Pato com Laranja aposta em uma gastronomia asiática contemporânea com alma carioca. A marca foi criada pela chef Andrea Tinoco em 1993, com seu restaurante badalado de influências asiáticas no Centro do Rio. Após anos na ativa, ela fechou o ponto na Rua do Ouvidor, mas, em 2018, seu filho Pedro Tinoco trouxe a marca de volta.
Agora em Ipanema, o Pato voltou com um conceito renovado: gastronomia de alto nível aliada à experiência sonora dos listening bars japoneses. O rebranding foi construído do zero. Pedro conta que redesenhou a identidade visual, reformulou a proposta e identificou uma lacuna na cidade.
Pato com Laranja: com quiosque na praia do Leblon, o restaurante surpreende com culinária japonesa. (Pato com Laranja/Divulgação)
"Em 2018, quando a gente fez o pato, quase não tinha ninguém assim, muito poucos bares com DJ. E geralmente, os bares que tinham DJ não tinham uma curadoria musical, não eram um listening bar", afirma. "Isso não existia na cidade."
A culinária japonesa contemporânea entrou como o segundo pilar da casa, desde o início com uma vantagem logística difícil de replicar.
O Pato com Laranja é sócio de mergulhadores que partem do Canal da Barra, pescam e retornam em poucas horas. O peixe chega à cozinha no mesmo dia, com frescor maior que na pesca comercial. Os mergulhadores ainda utilizam o ikejime, técnica japonesa que abate o peixe imediatamente após a captura, preservando textura e sabor. "A gente não tem que comprar de grandes peixarias, que o barco fica três noites no mar", explica Pedro.
A expansão do negócio foi acelerada, mas calculada. Em 2023, o Pato ganhou um quiosque na Praia do Leblon. No ano seguinte, chegou à Praia do Pepê, na Barra da Tijuca.
No início deste ano, o Pato com Laranja desembarcou em São Paulo, no Parque Villa Lobos, em Pinheiros. "A marca chegou num ponto que geralmente uma marca cai de cinco para dez anos, e a gente tá chegando com dez anos e não tá caindo, pelo contrário, tá crescendo", diz Pedro.
Virada na gastronomia carioca
Para Isis Grossi, empresária do setor de turismo no Rio de Janeiro, a expansão gastronômica é parte de uma virada mais ampla e não passageira.
"Os cariocas antigamente precisavam ir para São Paulo para ir aos restaurantes de renome. Hoje em dia, há diversos restaurantes, sejam os estrelados Michelin, sejam botecos também, com muita qualidade", diz. "Não acho que seja hype. Depois da pandemia, as pessoas mudaram um pouco a maneira de ver as coisas, e o carioca tem muito esse lifestyle."
O interesse internacional ajuda a sustentar o otimismo. Grossi explica que o perfil do visitante de luxo mudou, o que trouxe novas exigências, sobretudo para a comida. "Há muitos turistas dos Emirados Árabes, Suíça, Suécia e Japão vindo para cá. Antigamente, esse público não buscava muito o Rio de Janeiro quando o assunto era gastronomia."
Recentemente, a Secretaria de Cultura se tornou responsável pelo setor de bares e restaurantes, o que Lucas Padilha, secretário de Cultura do Rio de Janeiro, acredita ser importante para a cidade, que precisa criar plataformas de visibilidade para o setor.
"Gastronomia é cultura", afirma Padilha à EXAME Casual. "A prefeitura financia as plataformas de visibilidade da gastronomia da cidade. Um restaurante com o selo Bib Gourmand é frequentado pelo turista, mas também pelo carioca, e gera uma competição que fomenta todo o setor."
Os planos do poder público incluem a abertura de um polo gastronômico na Praça Mauá, com cinco restaurantes no espaço que abrigava o Clube Torino Brasil, um restaurante de comida amazônica dentro do Museu do Amanhã e um restaurante-escola ligado à Pequena África no Museu de Arte do Rio. "Você vai ter ali um polo que é muito difícil dizer que é só de comida e não de cultura."
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