Movimento de correção do Ibovespa deixou a bolsa mais barata?

Por Clara Assunção 6 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Movimento de correção do Ibovespa deixou a bolsa mais barata?

Depois de atingir níveis próximos dos inéditos 200 mil pontos em meados de abril, o Ibovespa perdeu fôlego e iniciou um movimento de correção. O ajuste, no entanto, não foi interpretado de forma unânime pelo mercado. Enquanto parte dos analistas vê deterioração do impulso, outros enxergam na queda recente uma possível janela de entrada.

No dia 14 de abril, o índice chegou à máxima histórica intradiária de 199.354 pontos e encerrou perto disso, aos 198.657 pontos, a pouco mais de mil pontos da simbólica marca dos 200 mil. Naquele momento, além de renovar recordes nominais, o mercado brasileiro também superava o topo histórico ajustado pela inflação, que resistia havia 18 anos.

A partir dali, porém, o movimento mudou. Desde 15 de abril, o Ibovespa passou a oscilar em trajetória de queda e chegou a engatar seis sessões consecutivas de recuo entre os dias 22 e 29 de abril, a sequência mais longa em nove meses.

O resultado foi suficiente para levar o mês novamente ao campo negativo, ainda que com leve queda de 0,08%, após a interrupção, em março, de uma sequência de altas mensais que vinha desde agosto de 2025.

Ainda assim, a correção não apaga o desempenho no ano, já que até o fechamento desta terça-feira, 5, o índice acumula valorização de 15,91%. Isso significa que, mesmo com a recente perda de fôlego, a bolsa segue longe de um cenário propriamente depreciado, o que ajuda a explicar por que as leituras sobre valuation estão longe de ser consensuais.

Relatório recente do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME_ aponta que, do ponto de vista técnico, a bolsa brasileira segue negociando a múltiplos considerados baixos. O Ibovespa está em torno de 8,8 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, ou 10,4 vezes ao excluir Petrobras e Vale — um desconto de cerca de 14% em relação à média histórica.

"Com base no P/L, as ações brasileiras estão relativamente baratas", afirma o banco. Essa leitura, no entanto, vem com ressalvas importantes.

O próprio BTG destaca que o prêmio de risco, isto é, o retorno adicional esperado das ações em relação aos títulos públicos, está comprimido, em cerca de 2,2%, abaixo da média histórica de 3,1%, uma vez que os juros seguem elevados no Brasil, o que reduz a atratividade relativa da renda variável.

A Bolsa ficou mais barata?

Diante disso surge a principal divisão de leitura entre perfis de investidor. "Para os investidores locais, é difícil justificar a compra de ações, quando títulos públicos de longo prazo parecem relativamente mais atraentes", diz o relatório.

Já para o investidor estrangeiro, o diagnóstico é outro, e "o Brasil parece atraente", segundo o banco, especialmente quando comparado a mercados como Estados Unidos e Índia, que operam com múltiplos significativamente mais elevados.

Outras casas seguem linha semelhante, mas com algumas nuances, como a XP Investimentos. A corretora revisou para cima seu valor justo para o Ibovespa, de 196 mil para 205 mil pontos ao fim de 2026, apoiada em lucros mais altos e juros reais levemente menores.

A XP diz reconhecer que a bolsa passa por uma correção no curto prazo, influenciada por fatores técnicos e fluxo, mas mantém a visão de que o Brasil pode se destacar relativamente no cenário global, sobretudo com a retomada de fluxos para emergentes.

"Além disso, embora o mercado tenha corrigido, as estimativas de lucro por ação continuam sendo revisadas para cima. Como resultado, o P/L projetado já recuou de 10,5x para 9,0x", disse a casa.

Já o Itaú BBA também aponta que a bolsa segue negociando abaixo de sua média histórica, cerca de 9,1 vezes lucro, contra média de 10,3 vezes em dez anos, o que sugere desconto. Ainda assim, o banco adota um tom mais cauteloso.

O relatório destaca uma piora recente no fluxo estrangeiro, com saída líquida relevante no fim de abril de cerca de R$ 10,8 bilhões, e reforça que o momento exige atenção às revisões de lucro das empresas e a fatores técnicos de mercado.

Na prática, isso significa que o diagnóstico de "bolsa barata" depende menos do número isolado de P/L e mais do contexto, especialmente o nível de juros.

Ainda vale a pena entrar na bolsa agora?

Essa leitura é reforçada por Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora. Segundo o especialista, a bolsa já não está tão descontada quanto esteve recentemente. "Ela já ultrapassou um desvio padrão do P/L, que é uma das medidas que usamos para avaliar se está barata ou cara. Está retornando mais próxima da média histórica", afirma.

Ainda assim, Mollo pondera que isso não elimina o potencial de valorização. "Não está mais tão barata quanto estava, mas ainda tem prêmio e potencial de alta", diz. Para o analista, a recente queda abriu uma janela de oportunidade, principalmente para investidores ainda muito concentrados em renda fixa.

"À medida que os juros começarem a cair, isso tende a provocar uma migração da renda fixa para a renda variável, reduzindo o custo de capital e aumentando os lucros das empresas", afirma. Nesse cenário, Mollo vê espaço para o Ibovespa voltar a subir e eventualmente superar os 200 mil pontos, podendo buscar algo entre 205 mil e 210 mil ao longo do ano.

Leandro Martins, analista técnico em renda variável no Inter, também observa que a bolsa brasilera negocia com desconto relevante frente a outros emergentes e, principalmente, frente aos mercados desenvolvidos.

"Enquanto lá fora você tem bolsas rodando a 18 a 22 vezes o lucro, o Brasil segue perto dos 10 vezes", afirma. Mas o operador destaca, porém, que a questão agora não é apenas estar "barata" mas seguir descontada e com gatilhos potenciais que, no caso local, é o fluxo estrangeiro, o ciclo de queda de juros ainda que mais lento e os lucros resilientes das empresas, o que torna a entrada neste momento relevante.

"Na prática o investidor não precisa acertar o fundo. Historicamente, quando o Brasil negocia abaixo de 10x lucro, o retorno nos 12 a 24 meses seguintes tende a ser bastante positivo. Então sim, faz sentido começar a alocar, principalmente de forma gradual e seletiva", diz Martins.

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