O executivo que deu nova vida à Minerva, marca icônica da relojoaria

Por Ivan Padilla 30 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O executivo que deu nova vida à Minerva, marca icônica da relojoaria

NOVA YORK. “A caixa custa 39 mil euros. O relógio é de graça.” Foi com essa piada que Laurent Lecamp começou esta entrevista. Existe um porquê da brincadeira. A embalagem dos novos relógios que o executivo apresentava é parte central de uma experiência de luxo. Foi desenvolvida ao longo de 18 meses, da ideia ao protótipo final, é feita em madeira de nogueira e equipada com um sistema de abertura secreto nas laterais.

O relógio em questão, esse que em tese tem custo zero, é um Minerva, manufatura fundada em 1858, em Villeret, na Suíça, e comprada em 2006 pela Montblanc. De lá para cá, a Minerva funcionou como uma espécie de laboratório para os movimentos dos relógios da Montblanc. Algumas linhas chegaram a ser lançadas com o nome e o ano de fundação da Minerva.

Agora, a Minerva volta com vida própria, como uma linha própria dentro da Montblanc. A apresentação dos primeiros modelos foi feito por Lecamp durante um encontro com jornalistas em Nova York, em que a Casual Exame esteve presente. A proposta é clara: volumes baixos, produção majoritariamente manual e produtos que não competem por comparação. Relógios que bebem do passado, mas são absolutamente contemporâneos. A ideia é construir uma marca para colecionadores.

Lecamp agora acumula duas funções, como CEO da Minerva e diretor da divisão de relógios da Montblanc. Acompanhe a entrevista a seguir.

O que é a nova Minerva?

Minerva está voltando ao mercado com algo completamente inesperado. Não é só um relógio, é uma abordagem completa do luxo. Pensamos luxo em 360 graus. Isso começa pela embalagem, que desenvolvemos durante dezoito meses, desde a ideia até o protótipo final. É feita em madeira de nogueira, com um sistema de abertura secreto, quase como um mecanismo em si. A ideia é que a experiência comece antes mesmo do relógio. Muitas caixas se deterioram com o tempo, depois de dez anos já não funcionam bem. Nós queríamos o oposto: algo durável, que também conte uma história. Esse cuidado com cada detalhe faz parte da visão de luxo da Minerva.

Por que transformar a Minerva em uma linha independente agora?

No início, a Minerva foi integrada à Montblanc para dar força à marca, que ainda estava começando na relojoaria. Naquele momento, fazia sentido unir os dois nomes. Hoje, a Montblanc é forte o suficiente por si só, com colecionadores em várias linhas. Ao mesmo tempo, os clientes pediam o retorno da Minerva como marca independente. Eles queriam ver Minerva no mostrador novamente. Era um pedido recorrente. Então realizamos esse desejo. Era o momento certo: Montblanc consolidada e Minerva pronta para voltar como entidade própria.

Qual é o posicionamento da Minerva dentro do grupo?

Hoje temos uma maison com duas entidades distintas: Montblanc e Minerva. Cada uma opera como uma marca. A produção também é separada. Todos os relógios Minerva são feitos em Villeret, enquanto os produtos Montblanc ficam em Le Locle. Não existe mais produção compartilhada como no passado. Minerva é dedicada exclusivamente à alta relojoaria. Montblanc continua com uma oferta mais ampla, incluindo outras categorias.

O que define um relógio Minerva?

Se é comparável, não é Minerva. Esse é o princípio. Tudo é feito à mão, cerca de 90% do processo. Não usamos máquinas. Trabalhamos como há 150 anos. Utilizamos prata alemã nos movimentos, uma liga de níquel, cobre e zinco que era usada no passado e foi substituída pelo aço, porque o aço é mais eficiente. Mas eficiência não é o objetivo aqui. O objetivo é respeitar a tradição. Cada movimento é montado, desmontado e montado novamente. Depois passa por 20 dias de testes. Levamos meses para produzir algo que outras marcas fazem em poucos dias. É isso que define a Minerva.

Quem é o cliente da Minerva?

Não penso em idade. Idade não significa nada. Você pode ter 20 anos e ser conservador, ou 70 e ser extremamente jovem em mentalidade. Buscamos pessoas com espírito independente, inovador, que não seguem o que os outros fazem. Pessoas que pensam de forma diferente e que entendem o valor de algo que não é comparável com o restante do mercado.

Qual é o nível de produção?

Não comunicamos números exatos, mas o máximo será cerca de 1 mil peças por ano. Não queremos ir além disso. Enquanto uma marca produz um relógio em dois ou três dias, nós levamos dois meses. É impossível escalar isso sem comprometer o processo artesanal. E não queremos mudar isso.

E o posicionamento de preço?

Abaixo de 30 mil euros não faz sentido para Minerva. O custo é muito alto. Temos espiral própria, usamos materiais tradicionais como prata alemã, fazemos tudo à mão, desenvolvemos embalagem específica. O preço médio gira em torno de 50 mil. Existe um modelo lançado no Japão por cerca de 25 mil, mas isso é exceção. A lógica da marca está acima disso.

Como funciona o Crownless, modelo de relógio sem a coroa?

Eliminamos completamente a coroa. No lugar, usamos o bisel. Girando para a esquerda, você dá corda. Três rotações garantem cerca de três dias de autonomia. Para ajustar a hora, existe um sistema com botão que ativa a função, e então você gira o bidel para a direita para mover os ponteiros. É um mecanismo patenteado. A ideia é simplificar a interação e ao mesmo tempo criar algo completamente diferente.

De onde vem essa ideia do bisel funcional?

Esse bisel foi desenvolvido em 1927 para pilotos. Ele permitia medir etapas de voo, mesmo com luvas. Recuperamos essa ideia quase 100 anos depois. Hoje, o bisel não é apenas estético, ele é funcional. É uma assinatura da Minerva. Em muitos modelos, ele controla funções como cronógrafo, corda e ajuste de hora.

Esse conceito já existia antes?

Existiram conceitos próximos. A Jaeger-LeCoultre teve o Futurematic nos anos 1950, e depois houve o Freak da Ulysse Nardin, que trabalha com o fundo da caixa. Mas ninguém faz exatamente o que fazemos aqui. Temos três funções no bisel, incluindo corda, o que não existe nesses outros sistemas. E tudo isso com um mecanismo patenteado.

E os movimentos invertidos?

Os movimentos invertidos são parte central da identidade. Quando você inverte um movimento, ele naturalmente passa a funcionar no sentido contrário. Fazer com que ele continue girando corretamente exige um redesenho completo do sistema. É extremamente complexo desenvolver o trem de engrenagens para manter o funcionamento no sentido correto. Por isso, praticamente ninguém faz. No nosso caso, conseguimos isso com um movimento histórico, com mais de cem anos, adaptado e patenteado.

Qual é o papel da pesquisa histórica da Minerva no desenvolvimento?

Temos uma sala inteira dedicada aos arquivos. Desde relógios de bolso até peças mais recentes. Eu revisito esses materiais constantemente. Cada produto precisa ter uma conexão forte com a história. O mostrador pode vir dos anos 1950, o bisel de 1927, e então desenvolvemos uma complicação nova. Não criamos algo sem ligação com o passado.

Por que tantas marcas estão revivendo nomes históricos?

Existe uma nostalgia natural. O passado é estável, conhecido. O futuro é incerto. As pessoas se sentem mais seguras olhando para o passado. Mas não basta usar um nome antigo. É preciso entender o DNA da marca, respeitar suas raízes, ser humilde com essa história. Caso contrário, não funciona.

Qual foi a reação dos colecionadores com a volta da Minerva?

Muito positiva. Em várias apresentações, os modelos foram encomendados imediatamente. Existe um interesse real. Agora queremos expandir essa base e construir uma comunidade de colecionadores que entendem o que estamos fazendo.

O Brasil é um mercado relevante para a Minerva?

Esperamos que sim. Já vemos interesse. O Brasil tem colecionadores que entendem o produto e valorizam esse tipo de proposta.

Como você vê a evolução da Minerva nos próximos anos?

Queremos construir um ícone. Um produto claro, sem variações constantes. Sem múltiplas cores ou versões. Ou você entende o produto e compra, ou não. Não vamos adaptar o produto ao mercado. Vamos manter uma mensagem clara.

Como equilibrar tradição e inovação?

O passado não é um lugar para ficar. É um ponto de apoio. Você usa isso como impulso para o presente e o futuro. Nós analisamos o passado, entendemos o que foi feito, e a partir disso desenvolvemos algo novo. É sempre uma ponte.

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