Na era do Ozempic, Perdigão usa IA para identificar consumo e sugerir receitas
O avanço dos medicamentos da classe GLP-1 no Brasil começa a redesenhar o consumo de alimentos, com usuários reduzindo calorias e priorizando dietas mais ricas em proteína. O movimento já mobiliza a indústria, que tenta entender como esse novo padrão deve afetar compras, preparo de refeições e escolha de produtos dentro de casa.
Em abril, a Perdigão passou a usar inteligência artificial para identificar sinais de uso desses medicamentos a partir de fotos enviadas por consumidores, analisadas pelo modelo Gemini 2.5 Flash, do Google Cloud.
A tecnologia analisa imagens recebidas pelo WhatsApp e consegue reconhecer, por exemplo, a presença de canetas injetáveis associadas ao uso de GLP-1 — informação que passa a influenciar as recomendações de receitas.
A funcionalidade faz parte da ferramenta “Leitura da Geladeira”, que permite ao usuário enviar uma imagem do interior da geladeira e receber sugestões de receitas com base nos ingredientes disponíveis.
Com a nova camada de IA, o sistema também considera o contexto de saúde e bem-estar, priorizando refeições mais equilibradas e com maior teor de proteína.
Na prática, a ferramenta atua como um assistente de cozinha: sugere preparos com base no que o consumidor já tem em casa e ajuda no planejamento das refeições.
Para a empresa, cada interação também gera dados sobre hábitos alimentares reais dentro das residências.
IA cruza alimentação com uso de GLP-1
A atualização ocorre em meio à expansão desse mercado, que movimentou cerca de R$ 10 bilhões no Brasil em 2025 e pode chegar a R$ 50 bilhões até 2030, segundo o Itaú BBA.
De acordo com a companhia, os dados coletados são anonimizados e seguem as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A ferramenta já recebeu cerca de 14 mil imagens desde o lançamento.
Para a Perdigão, o avanço desses medicamentos não representa apenas risco para o setor. “Na MBRF, como uma companhia multiproteínas, enxergamos grandes transformações como uma oportunidade. A Perdigão coloca o consumidor no centro e busca entender novas rotinas, demandas nutricionais e ocasiões de consumo”, diz Luiz Franco, diretor de Marketing e Inovação da MBRF, em entrevista exclusiva à EXAME.
“O crescimento do GLP-1 reforça tendências que já acompanhávamos, como a busca por alimentos mais proteicos, equilibrados e práticos.”
Comer menos ou comer diferente
O impacto do GLP-1 já aparece nas estimativas do setor. Usuários desses medicamentos reduzem gastos com alimentação em cerca de 11% e consomem 21% menos calorias, segundo a KPMG, que projeta perdas de até US$ 48 bilhões por ano para a indústria alimentícia nos Estados Unidos na próxima década.
Para a empresa, entretanto, a mudança está mais ligada à qualidade do consumo do que ao volume.
“O efeito não é simplesmente comer menos, e sim comer diferente, com maior foco em qualidade nutricional, proteína, porções mais equilibradas e escolhas mais conscientes”, afirma Franco.
“Ao entender essa nova jornada, inclusive com ferramentas proprietárias de dados e IA, conseguimos gerar mais valor por ocasião de consumo.”
Esse novo comportamento também amplia a abertura para experimentação.
“Quando um usuário interage com a ‘Leitura da Geladeira’, ele está em um momento de descoberta. A IA permite fazer sugestões personalizadas, apresentando soluções que ele talvez não conhecesse”, diz o executivo.
“O WhatsApp se torna um canal direto para acelerar a experimentação, no momento em que o consumidor está mais receptivo.”
"Nosso papel, como marca de alimentos, é evoluir junto com esse consumidor", diz Luiz Franco, diretor de Marketing e Inovação da MBRF, em entrevista exclusiva à EXAME.
Portfólio acompanha nova demanda
Em paralelo ao uso de dados, a Perdigão ampliou sua oferta de produtos com foco em proteína e praticidade. A linha Meu Menu inclui refeições prontas com 42 gramas de proteína por porção.
Segundo a empresa, a linha tem o maior teor de proteína da categoria de pratos prontos.
De acordo com a consultoria L.E.K., alimentos com foco em proteína e nutrição funcional tendem a se beneficiar do avanço desses medicamentos, enquanto categorias como snacks e bebidas açucaradas enfrentam maior pressão.
“A busca por alimentos proteicos, práticos e nutritivos não é nova. Esse movimento vem se consolidando há anos”, diz Franco. “A aceleração recente funcionou como catalisador para uma tendência para a qual já estávamos preparados.”
Disputa por relevância
Com a expectativa de até 20 milhões de brasileiros usuários até o fim da década, empresas de alimentos começam a ser reavaliadas por analistas.
Ambev, M. Dias Branco e Camil aparecem entre as mais expostas a esse cenário, enquanto a Perdigão afirma tentar se posicionar no outro lado da mudança.
“Estamos bem posicionados para responder a essa transformação. Somos uma empresa global multiproteínas, com produtos que atendem a diferentes perfis e necessidades”, afirma Franco. “Nosso desafio é continuar inovando para oferecer soluções alinhadas às novas jornadas de bem-estar.”
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