Nem a guerra segura: ouro e prata despencam com pressão de juros e inflação
Os preços do ouro e da prata registraram uma forte queda recente, contrariando a lógica tradicional de busca por proteção em momentos de incerteza. Mesmo com fatores que normalmente impulsionariam os metais preciosos — como o aumento da tensão geopolítica no Oriente Médio e a volatilidade nos mercados globais —, os ativos entraram em trajetória de baixa, atingindo os menores níveis em semanas.
O movimento ganhou força nesta quinta-feira, 18, em meio a uma onda de vendas generalizada. Hoje, 19, o ouro recuou para US$ 4.691,70 por onça, uma queda de 4,18%, enquanto a prata caiu para US$ 70,68, uma baixa de 8,91%, acumulando perdas relevantes em um único pregão. O baque não se limitou aos metais preciosos. A platina caiu 5,76%, para US$ 1.938,20, já o cobre recuou 2,78%, a US$ 5,44.
A principal pressão vem do avanço dos temores inflacionários e da perspectiva de juros elevados por mais tempo, de acordo com especialistas. A escalada das tensões envolvendo o Irã impulsionou os preços do petróleo — com o Brent subindo mais de 40% desde o fim de fevereiro e superando os US$ 100 por barril —, elevando as expectativas de inflação global e reduzindo as apostas em cortes de juros.
Por que o ouro está caindo?
O fator principal por trás da queda é a mudança nas expectativas de política monetária. Com a inflação pressionada pelos preços de energia, cresce a percepção de que bancos centrais — especialmente o Federal Reserve — terão menos espaço para cortar juros ou até precisarão mantê-los elevados por mais tempo.
Esse movimento altera diretamente a atratividade dos metais preciosos. Sem oferecer rendimento, ouro e prata tendem a perder espaço em ambientes de juros altos, quando ativos que pagam algum retorno se tornam mais interessantes.
Além disso, parte do capital tem migrado para commodities de energia. Ao mesmo tempo, o ouro acumulou uma sequência de sessões consecutivas de queda, refletindo a mudança no posicionamento dos investidores.
Outro ponto relevante é o fortalecimento do dólar. Com a moeda americana mais valorizada, ouro e prata ficam mais caros para investidores de outros países, o que reduz a demanda global e pressiona ainda mais os preços. Essa relação inversa entre dólar forte e metais mais fracos volta a se evidenciar no cenário atual.
Na prática, as pressões macroeconômicas — inflação persistente, juros elevados e dólar forte — estão se sobrepondo aos riscos geopolíticos imediatos. Mesmo com a incerteza ainda elevada, investidores têm priorizado o dólar e o petróleo em detrimento dos metais preciosos.
Segundo Paul Surguy, diretor-gerente e chefe de gestão de investimentos e propostas do Kingswood Group, o movimento também reflete uma dinâmica de liquidez no mercado. “Os mercados globais têm assistido a vendas generalizadas, à medida que os investidores procuram os ativos mais rápidos para vender. Talvez estejamos assistindo agora à próxima etapa desta fase, em que os ativos considerados seguros são vendidos para financiar a compra daqueles que podem ter reagido de forma exagerada à situação atual”, afirmou à CNBC.
Ele também destacou que fatores logísticos podem pesar sobre o ouro físico. “Com o espaço aéreo e as rotas marítimas também fechados, a transmissão de ouro ficará mais cara, ou até mesmo impossível — vale lembrar que, ao comprar o ativo considerado o porto seguro por excelência, você está possuindo algo físico — que precisa estar em sua posse para realmente oferecer essa segurança”, completou Surguy.
O que mudou no cenário
No início do ano, ouro e prata chegaram a registrar fortes valorizações, com ouro e a prata acima de US$ 5.600 e US$ 120, respectivamente, impulsionados pela expectativa de uma política monetária mais frouxa. No entanto, esse cenário se inverteu com a retomada das pressões inflacionárias.
Com isso, o mercado passou a precificar juros elevados por mais tempo, um ponto de inflexão importante para os metais. Historicamente, ouro e prata tendem a se beneficiar de ciclos de queda de juros, e não do oposto.
A decisão recente do Federal Reserve de manter as taxas inalteradas, citando impactos “incertos” do conflito, reforçou esse ambiente de cautela.
*com agências internacionais
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: